Foto de Patrice Calatayu | Flickr

Teria Pessoa convertido o Covid-19 num poema eterno?

Teria Pessoa sido capaz de olhar para esta pandemia com a mesma acutilância, a mesma beleza e o mesmo ardor com que escreveu toda a sua obra?

Que pensaria Pessoa, ele ou alguns dos seus heterónimos, acerca de tudo isto?

Poema de Pessoa, em inglês, arrepia. 

Meantime, foi escrito a 15 de Março de 1917. 

Há 103 anos.

Meantime. Entretanto. Num tempo intermédio. Far away, far away, far away from here.

 

PRIMEIRA REFLEXÃO

Teria Pessoa convertido o Covid-19 num poema eterno?

Teria Pessoa sido capaz de olhar para esta pandemia com a mesma acutilância, a mesma beleza e o mesmo ardor com que escreveu toda a sua obra?

Que pensaria Pessoa, ele ou alguns dos seus heterónimos, acerca de tudo isto?

Mais um caso recuperado em Portugal. Mulher de 75 anos estava internada no São João – SIC Notícias, 18 de Março, 1205H

 

Há, afinal alguma poesia nesta tragédia. Haverá? 

Presidente do Santander, Vieira Monteiro, morre de coronavírus aos 74 anos – Correio da Manhã, 18 de Março, 1030H

 

Parece que sim. 

Parece que, por um momento, por um brevíssimo momento na efémera trajetória do nosso lar não há qualquer diferença entre ricos e pobres.

A mulher, anónima, sem rosto, apenas definida pela idade, salva-se, vive para contar a improvável epopeia da sua sobrevivência. 75 anos. 75 anos de rugas, sofrimento, de pobreza, de anonimato. Anonimato. 

Afinal não.

Páginas, páginas, entrevistas, fotografias e mais fotografias, louvores e tributos, elogios e mais e demais salamaleques enchem os sites de notícias com Vieira Monteiro como figura central. Era um homem extraordinário.

642 casos confirmados em Portugal – SIC Notícias, 18 de Março, 1220H

Irá acabar? Quando?

Afinal nem mesmo quando a morte chega trazida por um vírus que não distingue países nem pessoas, não olha para bolsos ou contas bancárias, continuamos diferentes. Continuamos ricos ou pobres e, entretanto, nada mudará.

Que sabemos da vida sofrida de uma mulher que terá educado os seus filhos com o rigor de outrora, que terá contado os tostões para comprar peixe e carne para alimentar à justa a sua família, terá, a pulso, mandado os filhos estudar para longe, sempre preocupada, rezando para que nada lhes falte, para que se fossem fazendo gente lá para as bandas da capital. Para que a vida dos seus fosse melhor do que aquela que lhe proporcionaram.

Será esta mulher merecedora de umas quantas páginas na imprensa, desfiando o novelo de uma epopeia sofrida? Fará, certamente, falta, muito mais falta aos seus filhos e netos do que Vieira Monteiro fará aos seus.

Quem sabe se esta mulher, com o esforço de uma vida, ajudada por um consorte que só viu trabalho e raramente os filhos, amealhou um pé-de-meia com que agora ajuda os filhos e netos, peões num jogo de recessões homéricas, invariavelmente desastrosas para quem recebe um ordenado que não chega para pagar as cada vez maiores, disformes e inquantificáveis despesas básicas?

António Lacerda Sales diz a mesma merda que anda a dizer há vários dias, respondendo a uma simples pergunta de uma simples jornalista, acerca da falta de máscaras e equipamento de proteção para os profissionais de saúde – Conferencia de imprensa diária, 18 de Março.

Entretanto, nada de novo. Entretanto dois milhões de máscaras chegarão aos profissionais de saúde. Entretanto a coisa acontece. Tanta verborreia, falta de verdade, mentira, palhaçada e fait-divers. Votos, iremos a votos – desculpem, para não causar o pânico generalizado. Bravo António, responderás sempre com o mesmo chorrilho de generalidades, não comentarás casos específicos porque em relação a casos específicos não terás informação específica. Good boy.

 

António, valem-nos os heróis que, leais ao juramento de Hipócrates, todos os dias arriscam o futuro dos seus filhos, das suas famílias, a sua própria vida, para debelar um monstro que mata. Tu só tinhas que, com o tempo que o Covid-19 te deu (a praga começou em Novembro na China, demorou mais de três meses a chegar a Portugal), comprar umas tretas para proteger esta gente. E nem sequer punhas os col**** no cepo. António, és o exemplo acabado de uma classe de m**** que nós, eleitores de m****, temos eleito. Celebremos. Precisamos de sangue novo nos governos, pessoas com visão, coragem, de mente aberta, dedicada, com elevado sentido de estado, idealmente sem experiência de governação. Homens e mulheres limpos. Líderes. 

 

Errata: António e os seus compagnons de route, especialistas na arte de muito falar e nada dizer, e na arte de muito dizerem fazer e nada saberem fazer, acharam, sumidade e preguiça adensada, que o bicho iria ficar pelas bandas da China. Será? 

Trump, do alto da sua mui elevada e exclusiva sapiência, chama-lhe o vírus chinês.  Nós por cá temos sido vítimas de uma outra praga, já leva décadas de disseminação livre, ajudada pelos estados, pelos políticos, pelos mercados e pelo povo. Capitalismo ultra-liberal. Mata, vem da grande américa de Trump. E não há vacina, nem ninguém está disponível para desenvolver uma. Já só falta converter a Coreia do Norte aos benefícios desta doença viral e deixará de haver países imunes no globo. 

 

De que fala o poema de Pessoa? De amor, all away from sight.

 

John Gallo

 

Retirado de “Diário de 1 Vírus”

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Fotógrafo e videógrafo sócio documental com trabalho reconhecido pelo jornal The Guardian, pela Royal Photographic Society e pelo Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Os seus ensaios têm sido publicados em media de referência em Portugal, no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Itália e Áustria, entre muitos outros.

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