Foto por Joehawkins

O capitalismo liberal está suportado por um triângulo de morte. Grandes corporações, banca e sistema político são as suas faces.

A ligação perversa destes três sistemas tem permitido corrupção, fuga aos impostos e lavagem de dinheiro numa escala inimaginável há um par de décadas.
O caso de Isabel do Santos é apenas mais um exemplo da arquitectura muito elaborada deste triângulo em que todos, menos os estados e o povo, ganham.

As grandes corporações têm tido lucros cada vez maiores explorando vilmente mão-de-obra em países asiáticos, recebendo subsídios estatais sem cumprirem com contrapartidas contratadas ou através de elaborados esquemas de fuga ao fisco, lavando dinheiro em off-shores mesmo debaixo do nariz das autoridades. Através da cleptocracia ou de esquemas claramente fraudulentos em que bastas vezes são as populações locais e o ambiente os maiores lesados, empresas e empresários sem escrúpulos aumentam exponencialmente a sua riqueza, subjugando tudo e todos a uma ditadura do capital como nunca vivemos. Boeing, Nestlé, IKEA, Apple, Google e tantas outras corporações usam um dos esquemas referidos para aumentarem a sua receita e liquidez. Em 2017 as empresas constantes da Fortune 500 nos Estados Unidos tinham 2,6 triliões de dólares em off-shores. Dez por cento eram detidos pela Apple.
Em Novembro de 2019, doze países da UE, incluindo a Irlanda, bloquearam uma nova regra proposta que obrigaria as empresas multinacionais a revelar quanto lucram, ao invés de fugirem descaradamente ao pagamento de justos e devidos impostos dentro do espaço comunitário. A diretiva sugerida foi projetada para demonstrar como algumas das maiores empresas do mundo – Apple, Facebook e Google, por exemplo – evitam pagar cerca de 500 biliões de dólares por ano em impostos, transferindo lucros de países com taxas mais altas como o Reino Unido, França e Alemanha para jurisdições em que o imposto a pagar é zero ou pouco mais. Irlanda, Luxemburgo e Malta são alguns destes países. Esta é a demonstração perfeita da ligação doentia, pouco séria e altamente suspeita existente entre políticos, governos e o grande capital.

Não é possível aceitar a pressão enorme que governos e sistemas fiscais colocam diariamente sobre a população em geral, particulares e empresas, simultaneamente ignorando fontes de receita enormes provenientes destas megacorporações, permitindo uma fuga imoral a impostos que seriam sempre devidos e teriam de ser pagos, caso estas empresas não tivessem o beneplácito dos políticos para roubar de forma deliberada (bastas vezes legal) muitos dos estados em que operam.

Pode-se inferir, sem peso na consciência, que haverá corrupção em todo este processo – ou teremos que acreditar que maus governantes, gente medíocre não consegue perceber o prejuízo colossal resultante desta sua atitude, quer para a população quer para os próprios estados. Demitam-se.

Mas nada disto seria possível sem a colaboração da banca. A banca tem sido o facilitador desta migração de capitais para off-shores, promovendo junto dos seus clientes mais abastados esta fuga generalizada de dinheiro, sem que impostos, mais valias e outros sejam cobrados. Banca que recebe de braços abertos ex-governantes, governos que escolhem para ministros e secretários de estado altos quadros provenientes da banca e destas empresas. Uma verdadeira porta giratória que serve os propósitos de políticos pouco sérios, finança e grandes corporações, apenas.

Há mais alguns actores, secundários, mas cuja importância é grande em todo este processo: agências de rating, bancos centrais, consultores e justiça. Todos, numa ou noutra ocasião, assobiaram ou continuarão a assobiar para o lado. O caso BES, a recente “descoberta” da origem do império de Isabel dos Santos são exemplos vivos da negligência gritante, escandalosa, da justiça e dos bancos centrais. Agências de rating e grandes consultoras validam e legitimam, no quadro financeiro internacional, as práticas dolosas e criminosas destas corporações, conferindo-lhe moldura lícita.

Vivemos no reinado de uma mega-máfia, com tentáculos poderosíssimos disseminados por todo o mundo, a operar em todos os continentes. Está presente na esmagadora maioria dos governos mundiais, na banca, nas megacorporações e em todos os sectores da sociedade que são importantes para o seu modo de agir. Usa o dinheiro para subornar, comprar, desviar atenções, legitimar as suas ações e continuar a destruir economias, o ambiente, destruindo o tecido social da maioria dos países, arrasando o bem-estar das populações, empobrecendo-as de forma patológica, metódica.

Este estado de coisas resulta de um pós-capitalismo apocalíptico, em que o poder associado à acumulação de capital é a referência pela qual tudo se mede.
Em perspectiva, parece que todos os seres humanos estão à venda, que todos somos corrompíveis, basta que seja feita uma qualquer oferta.

Haverá um fim? Certamente. Talvez o melhor cenário, para que se evite um Mad Max global, seja a destruição do próprio planeta e da raça que neste momento dele se apropria, destruindo-o como um cancro maligno, galopante.

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Fotógrafo e videógrafo sócio documental com trabalho reconhecido pelo jornal The Guardian, pela Royal Photographic Society e pelo Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Os seus ensaios têm sido publicados em media de referência em Portugal, no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Itália e Áustria, entre muitos outros.

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