Foto por Autor Anónimo

A pandemia veio confirmar os enormes problemas criados a quase todas as nações do mundo pela prodigiosa globalização. Europa e Estados Unidos de joelhos, sem soluções para conseguirem fornecer aos hospitais e serviços de saúde equipamento de proteção e ventiladores. Até a mais simples máscara cirúrgica faltou, deixando desprotegidos e à mercê do vírus aqueles de quem depende a nossa vida neste cenário dantesco.

Europeus e americanos terão compreendido, afinal talvez não seja tão vantajoso deslocar toda a produção para países asiáticos, tirando proveito da baratíssima mão-de-obra disponível nessa parte do globo. Numa situação crítica como a que vivemos, a capacidade produtiva doméstica faz a diferença entre a vida e a morte, entre a capacidade de resposta perfeitamente adaptada às necessidades de cada país, ou a total dependência de terceiros, de complexos esquemas logísticos, sempre vulneráveis (como acabou por acontecer) à tentação desonesta dos mais fortes ou de oportunistas. O exemplo mais paradigmático desta realidade foi o facto dos Estados Unidos da (Grande) América do Norte terem recebido ajuda russa, disponibilizando-se para aceitar sem reservas mais atos de generosidade de Putin; as constantes conversas entre Trump e Xi Jinping, o primeiro pedindo ajuda ao segundo, confirmam o desespero americano com o vírus que, agora, já não é chinês.

Haja coragem política para deslocalizar parte do fabrico de muitos dos bens atualmente produzidos na Ásia para os seus países de origem. Tenha, quem nos governa, a capacidade para implementar as medidas necessárias para que essa deslocalização, ou relocalização, se torne realidade. As mais prementes questões que se levantarão nesse processo não serão as relacionadas com a logística, com a formação de mão-de-obra nos países ocidentais ou com a sua disponibilidade. Nem sequer os custos de relocalização e de reimplementação das unidades fabris serão o maior impeditivo para que a mudança se concretize. Seremos nós, consumidores, e os acionistas e administradores das grandes empresas.

Não podemos esquecer a oferenda chinesa e asiática ao ocidente: mão-de-obra barata, milhões de operários disponíveis, direitos dos trabalhadores praticamente inexistentes, longas horas de trabalho em condições sub-humanas, por vezes. Quase escravidão, o paraíso para entidades patronais e grandes corporações, a que se aditaram esquemas fiscais muito favoráveis para estas companhias.

O grande capital não vai aceitar o retorno, ainda que parcial, a um modelo de produção já conhecido. Custos de mão-de-obra mais elevados, trabalhadores com direitos, sindicatos, contratação coletiva, impostos sobre o trabalho e sobre os lucros bastante mais elevados implicarão uma diminuição muito importante dos lucros e da distribuição de dividendos.

Caberá aos responsáveis políticos, de forma coordenada e transversal, legislar, penalizando toda a produção oriunda de países cuja competitividade assenta nos princípios errados, transformando esses produtos em bens muitíssimo taxados, menos apetecíveis para consumidores e produtores.

O mundo ocidental vai precisar de verdadeiros líderes para conduzir esta mudança; de pacífica pouco terá, receberá vigorosa oposição de todas as megacorporações, da banca, dos lobbies, de oposições partidárias e de investidores. Todos, sem exceção, verão lucros – agora pornográficos – diminuir grandemente; serão acérrimos defensores do atual estado de coisas, farão forte chantagem com todos os governos ocidentais, dirão aos consumidores que o preço dos produtos irá aumentar exponencialmente e que o equilíbrio da economia mundial ficará tão fortemente ameaçado que o risco de uma guerra mundial será considerável, talvez inevitável.

A União Europeia será obrigada a implementar uma política fiscal e de incentivos fiscais comum a todos os estados-membros, sem exceções.

Mas, se os grandes líderes mundiais de que precisamos conseguirem vencer esta primeira barreira, sem que nenhum país ocidental fure este bloqueio – questão essencial – ou, furando, sofra fortes penalizações impostas por todos os outros países, haverá ainda uma segunda barreira a ultrapassar, seguramente mais árdua do que a primeira: o consumidor.

Urge compreender que somos nós, consumidores, o motor desta mudança e que, acontecendo, a panóplia de produtos disponíveis a custo muito baixo irá desaparecer integralmente; outros verão o seu preço aumentar, dificultando a sua obtenção. Teremos, forçosamente, menos possibilidade de aquisição de bens de consumo, veremos reduzida a escolha, especialmente em bens de preço mais contido. Esta redução da oferta será completamente transversal, abrangendo todos os artigos conjeturáveis, desde vestuário, calçado, eletrónica, passando pela alimentação, manutenção de veículos e aeronaves, material médico, habitação.

O impacto no quotidiano das famílias será visível. Menos escolha, produtos mais caros, opções mais difíceis, tudo resultará num menor consumo da esmagadora maioria da população. O problema não se coloca do ponto de vista da receita fiscal – argumento que os lobbies irão utilizar – mas sim do ponto de vista dos hábitos de consumo das populações: teremos que viver com menos, bastante menos.

A pergunta é inevitável: quem está disponível para viver com menos, ainda que os ordenados, por via da mesma translação da produção, possam aumentar? Quantos casais estarão recetivos a organizar a sua vida dependendo apenas de um automóvel? Quantos de nós estarão abertos a ter menos roupa, muitos menos pares de sapatilhas, smartphones menos smart, pagar muito mais por um computador, por um tablet, por uma televisão ou aceitar viver com equipamentos mais modestos, adequados ao orçamento familiar?

Quantos de nós estarão disponíveis para viver, do ponto de vista material, com modéstia evidente?

Se a população ocidental não estiver motivada para dar este passo, jamais será possível voltar a localizar parte da produção de bens e equipamentos nos países ocidentais. Depende de nós, depende da nossa relação com o consumo, da nossa adicção aos bens materiais.

Mas, ainda que este não seja fundamento assaz forte para uma mudança de cânone, não se preocupem.

Seremos obrigados a viver com muito menos, muito, muito menos, sem opção, quando os recursos do planeta estiverem prestes a terminar e o ambiente a colapsar. Mantendo-se o ritmo de consumo e de crescimento da população mundial, a rutura acontecerá em 2050, de acordo com WWF.

Deixemos o legado aos nossos filhos. Eles ficarão orgulhosos dos pais e mães que tiveram.

John Gallo

Outros artigos deste autor >

Fotógrafo e videógrafo sócio documental com trabalho reconhecido pelo jornal The Guardian, pela Royal Photographic Society e pelo Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Os seus ensaios têm sido publicados em media de referência em Portugal, no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Itália e Áustria, entre muitos outros.

Deixe o seu comentário

Skip to content