Nas vésperas da celebração do último oito de Março, Dia Internacional da Mulher, revisitei a minha adolescência quando, a par da leitura de obras marxistas, procurava em livros de inspiração feminista, marxistas ou não, respostas às inquietudes sobre as questões de género. Estávamos na década de sessenta, e, no meio estudantil, as bandeiras da liberdade e da transformação económica e social, eram,para muitos e muitas de nós, indissociáveis da luta pela igualdade de direitos das mulheres.
Foi nesse período de intensa leitura e de muitas tertúlias clandestinas, onde desafiávamos a proibição de pensar/agir, que descobri Simone de Beauvoir, e me encontrei com uma das obras que, no século XX, mais contribuiu para a construção do conceito de género, “O Segundo Sexo”.

A frase mais conhecida da obra “não se nasce mulher, torna-se mulher”, espelha bem esse enfoque feminista. Por isso, Simone de Beauvoir era, como tantas (os) outras (os) uma escritora maldita em Portugal!

À época, falava-se tão somente de diferenciação sexual e os estereótipos sobre a alegada natureza feminina estavam presentes não só nas famílias, mas também em toda a educação pública. Os textos e ilustrações dos manuais únicos consagravam a imagem da mulher mãe, “fada do lar” cuja missão era tratar dos filhos e do marido a quem deviam obediência (até para se ausentarem do país necessitavam da sua autorização). Nas escolas as raparigas eram obrigadas a usar bata e proibidas de vestir calças ou saias acima do joelho e havia muros que as separavam dos rapazes.
Neste contexto, a contestação da moral vigente e a reivindicação da sexualidade, como fonte de prazer e de realização, constituíam um atrevimento que se pagava caro. Carícias entre namorados davam direito a repressão pela polícia de costumes.

No tempo da outra senhora",não se praticava a excisão do clítoris, como é, ainda, norma em muitas sociedades, mas castrava-se a vivência da sexualidade.

Com a revolução de abril deram-se importantes passos na construção de uma sociedade que consagre os direitos sexuais e reprodutivos, mas hoje assistimos a um tremendo retrocesso civilizacional. Quando os trabalhadores e trabalhadoras são espoliados de direitos laborais e familiares, quando não existe tempo e espaço para a alegria, não é só o direito à paternidade e à maternidade que estão em causa, mas também o direito a uma sexualidade plenamente vivida.
No Portugal de hoje, as consequências do aumento do horário de trabalho e o emagrecimento do orçamento familiar fazem-se sentir, ainda mais, nas mulheres. São elas que, na maioria dos casos estão sujeitas à dupla jornada de trabalho típica das sociedades patriarcais, já que arcam com a maior parte das tarefas que se prendem com os cuidados e educação dos filhos.

Que tempo e espaço sobram para a realização sexual, quando a penosa luta pela sobrevivência individual e familiar é quase o único objetivo de cada dia?!

Em 1976, numa entrevista, Simone de Beauvoir dizia que as mudanças pelas quais lutara não se realizariam durante a sua vida e afirmou, na altura,”talvez daqui a quatro gerações”.O retrocesso civilizacional decorrente de políticas neoliberais alongará, certamente, essa caminhada rumo à igualdade de direitos!
Na esteira do exemplo das operárias têxteis que, há mais de um século, morreram na sequência da sua luta, cabe-nos a todas e todos nós pugnar para que sejam garantidos os direitos sociais, sexuais e reprodutivos das mulheres!

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Maria da Graça Marques Pinto nasceu em 1950.
Foi eleita para a Assembleia Municipal de Viseu em 2005 e integrou listas do BE para a Câmara Municipal e para o Parlamento.
Foi membro da Coordenadora Distrital de Viseu, da Comissão Política e da Mesa Nacional do BE.
Atualmente faz parte da Comissão concelhia de Viseu do Bloco de Esquerda.

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