Estava ali a caminhar normalmente, perdido entre pensamentos como habitual, num caminho de terra rodeado de troncos nus e pretos inclinados por teimosia. Quando, na pausa entre dois pensamentos, vejo ao longe alguém, ao que parecia, a passear o cão.
Aquele homem despertou a minha curiosidade, não somente por estar naquele sítio ermo, mas pelas roupas que levava, uma t-shirt amarela e uns calções de ganga envelhecidos. Iguais que eram às minhas. Para além das roupas, ainda que desfocado pela distância, faz-me lembrar alguém.
Eu, num misto de curiosidade e desconfiança, opto por seguir por um caminho afluente daquele em que estava. Eu via-o bem pois as árvores que nos separavam encontravam-se desmaiadas da vida num luto negro.
E, fingindo que estava apenas a passear, fui-me aproximando.
Ele parece não reparar em mim, mas pressinto que ele sente a minha presença, mesmo que ainda longe para lhe conceder qualquer importância.

Até que me aproximo o suficiente para ver que ele não traz um cão, mas, sim, uma cabra velha, pelo menos, a julgar pelo seu andar cansado ajudado, por vezes, por aquele homem.

Seguia fielmente os seus movimentos, como se ambos se conhecessem há muito e soubessem para onde se dirigiam. Ele mantinha sempre um ritmo lento constante apenas interrompido pela colaboração que dava à cabra que permitia no imediato o toque amigo.
Eu não resisto e aventuro-me por entre as árvores queimadas para o poder alcançar.
Estou quase a alcançá-lo, ofegante, com os braços escurecidos pelos paus queimados que teimavam em impedir-me o caminho.
Assim que estou de frente para ele, a uns escassos 4 metros, estático vejo que era exatamente igual a mim. Não um sósia meu ou alguém muito semelhante, mas como que um espelho demasiado realista.

Tento aproximar-me dele, de mim... não sei...

No momento em que disto somente um metro dele e vou tocar-lhe para verificar se era real, ele vira-se e pega na cabra ao colo, colocando-a confortavelmente sobre ambos os ombros, sentindo a respiração calma do animal no seu pescoço. E, sem sequer me fazer um pequeno e simples gesto, altera completamente a sua direção continuando o seu novo caminho, agora num ritmo mais acelerado, ainda que com o peso da cabra sobre ele. Tudo de forma tão natural.
O caprino olha para mim durante um segundo, depois, como se nem me tivesse visto, continuou observando a paisagem sombria que a rodeava.
Seguiram em direção ao rio, a um horizonte ofuscado pelo sol poente.
Imóvel, sem perceber nada, sem sequer pensar, num vácuo, entre troncos pretos e acácias que pareciam crescer desmesuradamente a cada segundo em que ali permanecia. Atrás de mim escutava apenas o som dos carros a passarem numa via rápida próxima, demonstrando-me que o tempo não tinha parado.

Texto de Paulo Rodrigues publicado no blog lagrimasdavida.blogspot.com

O renascer da arte a brotar do Interior e a florescer sem limites ou fronteiras. Contos, histórias, narrativa e muita poesia.

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