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Este é um texto sobre amor. O amor que, na verdade, é simplesmente uma grande teimosia. E há sempre um mais teimoso que o outro, ou que nem sequer seja teimoso. As pessoas que não são teimosas não têm direito a que tal seja um elogio, alguém que não é teimoso e curioso é, simplesmente, parvo. E há pessoas assim, de grande perfeição e virtuosidade, mas parvas. Chamem-lhes coscuvilhice, arrogância, mau feitio; porém são a teimosia e a curiosidade que dão vida a um corpo.

Amar sem ser correspondido pode ser a maior forma de teimosia. Quando se ama e não se é correspondido existem duas opções. Uma é deixar que o esquecimento apague aquele sentimento, aquela pessoa – nem sei se seria amor… A cura do tempo! Acontece que, na realidade, o tempo não cura, usamo-lo simplesmente como bode expiatório. Culpamos Cronos por um esquecimento que optámos. Cronos que foi um tirano, que engoliu quase todos os filhos, feitos que foram com a sua irmã, mas não o culpamos por apagar forçadamente algo que frustrou tanto o nosso ser por não correr como se pretendia. A dita “rejeição” dói na mais profundidade do ser. ( Ora e então? A dor normalmente não mata e as fatais são bem maiores, não se cingem somente a um orgulho ferido e a um momento de frustração). Um “não” no amor dói mais que qualquer “não”! No entanto, é interessante que, por mais que doa, um “não” é um “não”, que significa precisamente “NÃO”! Não é difícil de perceber, não compreendo que tantos homens tenham tanta dificuldade em recebê-lo, quando nunca sequer amaram. (A minha mãe sempre me disse: “Estás chateado? Rasga a roupa, a tua própria roupa”.)

Ah, agora a outra opção! É raro – e numa parte dos casos é doentio – a opção de continuar a amar. Amar é maravilhoso, mesmo que cause muito sofrimento nalguns longos momentos. Quando se ama, não se ama o “sim” ou o “não”, ama-se a outra pessoa e, em especial, todas aquelas pequenas características que ela pensa serem defeitos. Amar é retirar de nós um pouquinho do nosso amor próprio para o destinar a alguém, não se coaduna com egoísmos e “conquistas” e “orgulhos” e “dominação”…  

Ainda que no resto da vida nunca possam cumprir e corresponder entre si esse amor, não se deixa de amar, simplesmente, ou permitir que o esquecimento leve esse amor. Por isso amar é teimosia! Teimar para que tudo não se apague, teimar para que esse amor seja realmente amor! Teimar naquela sensação que aquela pessoa nos deixa, mas muito para além da paixão ou atração. Pior que nunca ser amado é nunca ter amado ninguém – e há tantos por aí… 

Isto não significa uma perseguição a essa pessoa, não implica pressionar, não implica quase nada. Basta preocupação, respeito, ajudar, sorrir com um olhar e ser teimoso, portanto, amar. É continuar a viver a própria vida sem nunca esquecer aquele amor e, mais do que isso, nunca parar de amar, porque amar é pura teimosia. 

Mas que sei eu acerca do amor?  Sou apenas um grande teimoso. Casmurro!

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O renascer da arte a brotar do Interior e a florescer sem limites ou fronteiras. Contos, histórias, narrativa e muita poesia.

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Paulo Rodrigues, Santa Comba Dão, começou a escrever muito cedo.
Participou em várias coletâneas de poesia, prosa ou contos infantis organizadas por vária editoras como a "Orquídea Edições", "Lua de Marfim" e "Modocromia". Escreveu também por diversas vezes em edições "Sui Generis" e a prestigiada "Chiado Books".
Colaborou na organização da fanzine lançada em Santa Comba Dão, "Cabeça Falante", que inaugurou a editora recém-criada "Canhoto Esquerdino R", onde foi Assessor de Comunicação não remunerado.
É criador e administrador do blog "lagrimasdavida.blogspot.pt"

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