Um grupo de pelo menos oito abutres-pretos (Aegypius monachus) subadultos/adultos foi registado pela Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, através de câmara de fotoarmadilhagem, no dia 7 de maio de 2020. É o maior número de indivíduos desta espécie ameaçada até agora observado num campo de alimentação para aves necrófagas (CAAN) gerido pela organização num único dia. O abutre-preto tem um estatuto de ameaça “Criticamente em Perigo” de extinção, segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, e só há três núcleos reprodutores da espécie no país.

O registo foi realizado num CAAN gerido pela Palombar no concelho de Mogadouro no âmbito do projeto “LIFE Rupis – Conservação do Britango (Neophron percnopterus) e da Águia-perdigueira (Aquila fasciata) no vale do rio Douro” (www.rupis.pt), em território do Parque Natural do Douro Internacional (PNDI), onde, até ao momento, estão identificados apenas dois casais nidificantes desta espécie.

O número de abutres-pretos que frequentaram esse CAAN no dia 7 de maio pode, no entanto, ter sido superior, visto que há várias imagens com um número variado de indivíduos da espécie em que não é possível confirmar, nalgumas, se os indivíduos se repetem ou se são novos. Os exemplares registados estiveram cerca de duas horas a alimentar-se e a descansar no CAAN.

O abutre-preto extinguiu-se como nidificante em Portugal no início da década de 70. No entanto, a espécie manteve-se presente na faixa fronteiriça das regiões centro e sul, com indivíduos provenientes de Espanha. Só em 2010 o abutre-preto voltou a nidificar em Portugal, no Parque Natural do Tejo Internacional. Em 2012, registou-se o primeiro casal nidificante no PNDI e, em 2019, o segundo. No território nacional, há, atualmente, apenas três núcleos reprodutores de abutre-preto: um no PNDI, um no Alentejo e um no Tejo Internacional, onde se encontra a maior colónia.

A presença de abutres-pretos é frequente nos CAAN e, ao longo dos últimos anos, foram registadas pela Palombar sessões de alimentação com cinco a sete indivíduos a alimentarem-se ao mesmo tempo e, agora, foi atingido um novo recorde. Apesar de não ser possível saber a proveniência dos exemplares registados, esse aumento observado no número de efetivos da espécie representa uma esperança de que possa nascer uma nova colónia no PNDI a longo prazo.

Os CAAN têm provado ser uma ferramenta fundamental para a conservação de espécies estritamente e/ou parcialmente necrófagas ameaçadas não só na Península Ibérica, como também na Europa, como é exemplo o abutre-preto, a águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) e a águia-real (Aquila chrysaetos).

As principais ameaças à conservação do abutre-preto são a mortalidade por envenenamento ou por colisão ou eletrocussão, o abate ilegal, a redução da disponibilidade de alimento, a degradação do habitat de alimentação e de nidificação e a perturbação humana.

Abutre-preto: o gigante planador que domina o céu

O abutre-preto é a maior rapina da Europa, podendo ter uma envergadura de asa de quase três metros. Mesmo à distância, o seu tamanho é notório. Apresenta uma plumagem muito escura e as suas asas são longas e largas, com “dedos” compridos. Em voo, a cabeça e a cauda apresentam-se curtas. A cor das patas é geralmente cinzento-claro. Plana no céu em círculos e desliza com as asas muitas vezes com as partes exteriores arqueadas para baixo.

O habitat preferencial do abutre-preto são regiões remotas de difícil acesso e pouco humanizadas. Normalmente vive em locais com extensas manchas florestais ou matagais arborizados.

Esta ave é quase exclusivamente necrófaga. Alimenta-se principalmente de carcaças de médio e grande porte, tanto de ungulados silvestres, como de gado doméstico (ovelhas, cabras e vacas). O abutre-preto pratica, com o grifo, um sistema cooperativo de procura de alimento, sendo frequente ver estas duas espécies a alimentarem-se juntas. O abutre-preto encontra-se associado às zonas de aproveitamento silvo-pastoril, onde ocorre a criação extensiva de gado bovino e ovino. Os abutres aproveitam as correntes de ar térmicas para voarem a grande altitude para procurar alimento.

O abutre-preto nidifica quase exclusivamente em árvores e raramente em penhascos e, como a maioria dos outros abutres, é monogâmico. Normalmente, é no topo de árvores que faz o seu ninho. Para nidificar, procura terrenos mais afastados e tranquilos, preferindo matagais arborizados, muitas vezes em áreas montanhosas ou em vales de rios. De uma forma geral, esta espécie reutiliza os seus ninhos de ano para ano.

A relação entre os membros do casal é de longa duração, podendo mesmo ser para toda a vida. Ambos os progenitores cuidam e alimentam a cria. Põe apenas um ovo por época reprodutiva. Durante o período reprodutor, o abutre-preto desloca-se normalmente numa área até cerca de 80km em redor do local de nidificação.

Os casais normalmente passam as noites nos ninhos, mesmo fora da época de reprodução. Têm ainda o hábito de pernoitar em rochas ou em árvores próximas do local onde se estiveram a alimentar, para continuar a refeição na manhã seguinte.

 

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