Foto de Murilo Campos | Flickr

Não fiz nada de jeito. Aliás como sempre. Está mais que visto que o único mestre que reconheço sou eu! Não eu, mas uma parte de mim, a parte errada num sentido certo.

Tudo é falso. Todos nos achamos deuses. São sempre grandes histórias e lendas que fazem os deuses cair.

Complexo de Édipo e o de Kronos simultaneamente, homicidas por alegada natureza, suicidas por convicção, fraticidas por opção.

É impossível não acreditar em deus se cada um de nós se acha um Deus, um ecossistema completo cuja principal vontade não é sobreviver, mas ter prazer fácil, um espécie de fruição.

Também eu acho ter um complexo de infinitos dentro de mim- com vista para o mar- quando não passo de uma mosca adestrada. O infinito é só algo que a nossa vista não consegue alcançar porque não conseguimos verdadeiramente olhar para dentro de nós. Caso contrário, veríamos um monte de carne e ossos com mau cheiro e bem sincronizado como todos os outros. Sabemos da existência da morte, porém não negamos a nossa infinita vontade da imortalidade.

Não aguentamos simplesmente viver, sem deixar uma marca, uma imagem, uma história, por mais pequena que seja, boa ou má, só não queremos morrer e fingimos a imortalidade dos deuses que não somos.

Não somos capazes de viver como é a vida. Um ciclo natural e rejuvenescedor da natureza, somos tão deuses como moscas na merda. Igualmente divinos, para além da nossa arrogância, nada difere. Nem as moscas, nem a merda. (Agora encontrei o fascínio desta palavra. E como uma criança com um brinquedo, vou usá-la até me cansar. Os verdadeiros génios enlouqueceram ao descobrirem que somos algo tão real como um tapete no chão, um tapete enrolado talvez.) Eu, na minha arrogância, faço de vós génios, então: tu não és nada, nem eu, nem ninguém, o nosso íntimo profundo não passa de uma poça enlameada. Temos a profundidade dum gato a lavar o seu próprio ânus.

Eu não sou algo complexo, somos meros bípedes naturalmente pretensiosos e adestrados.

Toda a profundidade e sentimento é criação dum órgão. Enquanto o coração bombeia sangue, o cérebro bombeia ilusões e falsos dogmas.

Consideramo-nos o centro de tudo, o antropocentrismo individualista elevado ao seu auge.

Não és diferente de mim, não és diferente da mosca na merda, és um animal com defeito. Um animal…

As moscas pousam na merda e depois vão por aí pousando em tudo, contaminando tudo e todos. (Alguns têm a sorte de ser mosquitos.)

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Paulo Rodrigues, Santa Comba Dão, começou a escrever muito cedo.
Participou em várias coletâneas de poesia, prosa ou contos infantis organizadas por vária editoras como a "Orquídea Edições", "Lua de Marfim" e "Modocromia". Escreveu também por diversas vezes em edições "Sui Generis" e a prestigiada "Chiado Books".
Colaborou na organização da fanzine lançada em Santa Comba Dão, "Cabeça Falante", que inaugurou a editora recém-criada "Canhoto Esquerdino R", onde foi Assessor de Comunicação não remunerado.
É criador e administrador do blog "lagrimasdavida.blogspot.pt"

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O renascer da arte a brotar do Interior e a florescer sem limites ou fronteiras. Contos, histórias, narrativa e muita poesia.

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