Como é que cheguei aqui? 

Uma auto-estrada quase destruiu o palheiro, sim, o mesmo palheiro de família, que o meu pai tentava manter com dignidade.

– Prepara-te Tiago, vamos reparar o telhado do palheiro!

Desconfiado, aproximava-me da escada, subia ao topo, caminhando como um gato, fazia um jogo com as telhas e os feixes de colmo. – Assim, pões uma em cima da outra, desta maneira, deste modo. 

– Sim! Respondia eu, de modo mecânico. Sabias que estas telhas são menos frágeis que as mouriscas, ou mouras?

– Hã? Mouras!? Saiu-lhe naturalmente um esgar estupefacto. Temos de reparar este telhado, filho, senão as coisas e loisas em baixo apanham com água, temos de salvar isto, aqui irei guardar grão e sementes.

– Devíamos vender isto! Falei reservadamente, sucinto, um pouco tímido até, algo me fazia repelir a ideia. Chegava sempre à conclusão de que seria demasiado bom para ser verdade, se isso acontecesse de facto. O palheiro estava numa zona pouco nobre.

 

Do alto do telhado o largo da eira espraia-se. Placas de granito, polidas por séculos de uso, contemplam-nos. As folhas-de-flandres irradiam uma luz plúmbea, do seu metal emanam duas letras garrafais, CT, e um pequeno dístico de uma companhia de seguros dos tempos da monarquia. 

 

CT: Camilo Terra, proprietário, lavrador, agiotazinho; deixou um legado que foi sendo sacrificado de uma maneira fatalística, num mundo que se tinha cristalizado primeiro, mas que corria a toda a velocidade na actualidade, para uma linha de chegada que nunca mais aparecia, uma linha de chegada que nos vencia. Camilo Terra era de uma linhagem vetusta, nascido nos anos de 1860 e picos. O meu nome também é Terra da parte da mãe, não sou um fatalista, sou realista, construo o meu destino com paciência e engenharia. Sou um matemático com pouco que fazer, nesta hora de aperto e recessão. Estão aqui muitas horas de trabalho que não cabem nas folhas de contabilidade da modernidade, equações de pedra sobre pedra que as técnicas modernas simplificaram. Por exemplo um pedaço de xisto não é perfeito como um tijolo, é necessário pensamento, o saber empírico para construir uma parede, hoje é tudo feito à medida, paralelepípedos que se colam, e assim se constrói uma parede. Camilo Terra, o antepassado do tempo de D. Luís I, teria algo para dizer sobre estas pedras?

 

Sinto que me falta a empatia pelo passado, desenvolveu-se em mim uma repugnância, como naquela geração que só ouvia música de expressão inglesa, com nojo ou neurose das músicas dos cantores de intervenção. Quero ruído, sou casca grossa. Não consigo derrubar ou reformar este pensamento, que nem é meu, é um pensamento colectivo. Observando bem, este espaço é fantástico, mas falta-lhe a qualidade do sal, que apesar de não ser nada, dá sabor à vida, é a esperança. Sol temos quanto basta na eira.

Ao longe observo um automóvel deslizando pelo vale, sobe para a vila; uma amiga que trabalha na agência imobiliária aproxima-se. Estaciona junto ao outdoor das últimas eleições autárquicas. Juventude com história. Uma tuna de candidatos decora o rectângulo como um naipe de cartas.

Só me saem duques e cenas tristes, mas a rapariga da agência cumpre mais do que estes palhaços.

 

Foi assim, de repente, recordo-me bem. Mal eu sabia que trazia notícias sobre uma nova auto-estrada. Vinha lenta mas inexoravelmente, para derrubar este mundo cristalizado, e nós não podíamos ficar indiferentes, não podíamos deixar que a sorte nos passasse ao lado, disse mais tarde a agente imobiliária. Tínhamos de aproveitar. Esta visita era apenas uma perícia técnica.

 

– Senhor Álvares, veja bem, não tem de andar a fazer de Engenheiro Sousa Veloso, com a sua idade. Vem aí a auto-estrada. Já construíram a ponte mais alta de toda a Europa.

O jovem em mim, pensava, não tens de fazer de Sousa Veloso, nem podes rezar-lhe, não peças mais a Santo António, o consertador de bilhas partidas. A conversa seguiu de modo rápido enquanto a agente imobiliária tirava notas. 

 

Se passasse uma auto-estrada por cima do palheiro não seria mau, não, senhor Alvares? Disse ao entrar no palheiro.

Uma auto-estrada, tem grandes impactos ambientais! Repliquei com altivez do meu diploma em ciências matemáticas.

– Ah! Pois, não resolve tudo, é uma ajuda! Responde meu pai enquanto limpava o barro de uma alfaia, batendo com ela no chão. Um som metálico pungiu o espaço, saiu do palheiro em direcção ao vazio. Exprimindo dúvida. Seria desta?

Deixa para lá os impactos ambientais, Lourenço, a tua mãe disse-me que queria desfazer-se disto. Retorquiu.

Naquele momento senti em mim, uma sombra humilhante, sentia-me um palhaço no calor do momento, que estava para fazer uma pergunta parva. Mas desisti. Adorava ter uma parte daquele dinheiro para sair desta aldeia suburbana. Sair e deixar de peregrinar por aqui. A questão, flutuava no ar, céptica, o espectro dos danos ambientais. Tínhamos andado em direcção ao centro da aldeia, terminámos a conversa ali, observados pela ruína de uma habitação de paredes decapadas, com umas garatujas meio apagadas do PCP nas portadas de madeira, que nos observavam com escárnio e maldizer.

Neste país adoramos construções, mas são paixões de Verão.

 

Parte V do Conto Auto-estrada. Ver mais aqui

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Paulo Seara (1981) natural de Vila Real. Licenciado em Animação e Produção Artística pelo Instituto Politécnico de Bragança em 2005. Escreve poesia desde 1999, tendo colaborado esporadicamente em várias publicações em papel ou online. Colaborando com o blogue Pomar de Letras no qual publicou poesias, contos, textos soltos e traduções, e Inefável – Revista em Rede de Poesia. Vive em Edimburgo, na Escócia, desde 2014. Em 2007 foi co-autor do livro Crónicas do Demencial, o Porquê do Síndrome Nilhoo, editado pela Corpos Editora. Publicou a colectânea de poemas Livro Daninho (Edições Bicho de Sete Cabeças, 2016), e Take Away (Edicões Bicho de Sete Cabeças, 2017), ambos os livros estão disponíveis para download gratuito em smashwords.com. Para além de poeta Paulo Seara é artista visual desde 2005, tendo realizado mais de uma dezena de exposições. Os conteúdos de artes e letras produzidos por Paulo Seara podem ser observados em: https://www.facebook.com/prseara/ .

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O renascer da arte a brotar do Interior e a florescer sem limites ou fronteiras. Contos, histórias, narrativa e muita poesia.

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