VII

Aproximava-se da aldeia, enquadrada num esporão na paisagem. Viu o amigo na varanda da sua habitação.
– Atão?
– Venho observar o impacto ambiental, tudo bem?
– Vai-se andando! Disse o amigo, acordando de um letargo face ao estímulo. – Este gajos estão a aproximar-se das casas, Os estrondos e o barulho são constantes, está tudo virando de pantanas.
– Atão?
– Não consigo dormir! Responde.

 

O impacto ambiental era um neologismo, desde que tinha aparecido na aldeia o grupo de ecologistas, os partidos de esquerda, a oposição social-democrata na Câmara, a liga dos lavradores, até os escuteiros… todos falam do impacto ambiental. A aldeia tinha sido transformada numa ilha. O esporão que se prolongava por uma língua de terra foi amputado pela auto-estrada. O impacto ambiental era uma fonte extraordinária dos problemas daquela povoação, mas ninguém estava a ligar a isso, testemunhavam mas não digeriam, a auto-estrada era um iconoclasmo.

Entrando na casa, Tiago e o anfitrião dirigem-se para a varanda, numa mesa encontram-se viandas, pão, doces, frutas. Não longe deles, a algumas centenas de metros, as máquinas devoravam uma encosta, e dos escombros sobe um miasma, uma poeira miudinha em direcção à casa do anfitrião. Podia ser de ouro. Conversavam e olhavam hirtos a paisagem. As suas vozes misturam-se com sons metálicos, o cheiro do diesel e uma música punk gruda-se no ar, melíflua.

Estás a gostar do que vês, o impacto ambiental em todo o seu esplendor? Remoca. – Hoje, mais uma noite mal dormida, termino no hipermercado as 11h da noite, regresso, e as 7h da manhã, estes caralhos, já estão a foder-me os ouvidos. Protesta.

Amigo, só sabes criticar, mas eu louvo esta obra, tenho novidades! A auto-estrada vai passar no terreno onde tenho um palheiro e uma eira anexa. Fui informado pela imobiliária que trabalha como consultora da construtora. Informava como um canário ao sol, observando do outro lado uma face muda e hirta. 

– Estás super confiante, vai ser dinheiro em caixa! Afinal ele cai do céu. A mim não me deram nem vão dar nada. Mas ao meu sogro foram-lhe à vinha, dois terços da vinha para o caneco. Vão pagar uma merda os malandros. Cobre os prejuízos dos próximos anos, mas depois, como a vinha não produz o necessário para ser rentável, julgo que vai vender ou abandonar aquela parcela.

– Esta construtora come gelados no inferno. Desabafa Tiago. Tentou não fazer comentários ruins, enquanto bebericava um copo de tinto. Os meus velhos estão a planear aplicar o dinheiro na construção de um jardim japonês.

– Jardim!?

– Ya, um jardim.

– Fútil! Vê se recebes alguma coisa, pá! Pede-lhes. Essa vida de malandro depois da redundância não vai durar para sempre.

Esta última frase caiu como um relâmpago em erva seca. Tiago caminhava sobre rama verde. As suas indecisões tornavam-se numa cicatriz acusatória.

– Meu amigo, estou a pensar em viajar, agora que custa tudo uma bagatela.

– Malandro, malandrim… olha, tens uma grande vida, aliás, grandes vidas, grandes vidas, sete vidas como um gato. Esta malta recebe o carcanhol, gasta-o, ou deixa de produzir, vivem como lordes, uma vida de ambição social de aparências e ilusões, digo eu que conheço a realidade de muitos clientes do hiper.

– Mas não falas muito, só comigo!  Diz, a talho de foice.

– O que é que eu vou dizer, vão pensar que zombo, com a tendência para a irrisão que tenho bem vincada. Responde com cansaço.

Lordes, sim, sim, lordes que até no inferno comem gelados. Por falar em lordes, gostava de viajar à Escócia, a terra do uísque, do William Wallace… lembras-te daquele anúncio de uísque que diz “no rules”? Ah! lordes, o meu pai sente-se um lorde, no meio daquele património escavacado, então o palheiro, enfim, não rende nada, desde que os dois velhotes deixaram de pagar a renda… em géneros, uns sacos de milho para as galinhas.

Olha, vamos para dentro, ajuda-me a levantar esta mesa, vem aí uma nuvem de poeira.

Ao entrar, a sua mente foi transportada para outro tempo. O ancestral avô, Camilo Terra, homens e bois a puxar granito, sementeiras e colheitas, as transacções dos produtos, os gritos, as tristezas, o crescimento económico de oitocentos, palavras e actos que ressoavam por baixo de árvores que tinham nele o escritor, retirando-as do anonimato temporal. Aquele tempo já não era reprodutível a não ser porque ele estava ali. Era um tempo primevo, mas ele estava ali, era testemunha. O telhado, o colmo, as pedras, as lajes, as pranchas de madeira, tudo aquilo feito num grande bolo de camadas. No exterior as máquinas avançam; mais dia menos dia demolem o palheiro.

Enquanto escrevo, está o nosso herói numa casa na Escócia, envolta por tempo pegajoso, vento do Mar do Norte. Reflecte, porque não foi à celebração da Burns Supper; comer haggis com batatas, cenouras e cherovia? Em síntese, fechava o zíper da mente.

– Toma, olha aqui o panfleto do impacto ambiental, mas isto nem é oficial, foi-me entregue pelos ecologistas. Disse o anfitrião.

– E o que fizeram as pessoas? Indagou.

– Resmungaram claro…mas também há os que ficaram calados, aqueles que receberam o dinheiro; um alívio e uma maldição, não achas? 

O tempo passava e montavam linhas de raciocínio, obtinham pequenos instantâneos fotográficos, no outro lado da casa, monólitos de xisto eram transportados, entremeando de modo assíncrono escutavam-se alguns bocejos de vida, os animais, a natureza.

Conversavam sobre o tempo do trabalho; não é o tempo do dinheiro, trabalhamos mais rápido, viajamos mais rápido, comemos mais rápido, fodemos mais rápido; o dinheiro quando tens um crédito para pagar não é tão lesto! Não cumpres tão rápido, és feito de carne e osso, caralho, não és feito de dinheiro. Encontras-te frente a outro tempo, não é o tempo do Homem, que gere o seu próprio tempo, é o tempo do capital. E o Homem compensa através do trabalho, com ferramentas que o fazem trabalhar mais rápido, viajar melhor, comer mais. Fode-se a trabalhar demais, mas sabe que nunca irá balancear, quando mais inverter os pratos da balança. A finança manda e desmanda.

Não, Tiago e o anfitrião não andaram às marradas com as linhas que vos deixo, não funcionavam assim, reclamavam mas não construíam nada a partir desse ronco solitário.

Instalou-se a monotonia, sem algo melhor para fazer, Tiago e o anfitrião decidem fazer um périplo pela obra para observar o dinamismo, as máquinas de rastro, o estaleiro, os camiões, montes de areia onde constroem os seus castelos mentais. Saem para a rua e levam os cães do anfitrião, caminhando pelas imediações da obra, encontram uma montanha de escórias, que escalam, arrastados pela trela dos canídeos, sobem até ao píncaro de onde observam os telhados da aldeia, do alto da terra cuspida das suas entranhas.

A auto-estrada, a auto-estrada. Basta de ser normais e remediados. O futuro é agora, esta é a nossa revolução, venha a puta da revolução. A vida é dura é o mais pessimista dos fardos. Mas quando parece que a festança acabou, aparece este admirável milagre, os tempos nunca estiveram tão bons. A auto-estrada chegou, basta de provincianos e esquecidos, chamem as televisões, nas curvas e contra curvas do Douro, as estradas nacionais vão ganhar pinheiros. Agora sim, podem ver o horizonte, uma auto-estrada sem custos para o utilizador, o modelo SCUT, a qualidade de vida, e mais do que tudo a auto-estrada faz uma distribuição de dinheiro da comunidade europeia; infelizmente para alguns, mas fez. Era esta a mimética democracia que se reproduzia nos cérebros. Auto-estrada; indemnização; jardim japonês; férias; e mais nada!

Retiram-se do campo de batalha como dois pequenos Napoleões, com o seu séquito canídeo. O anfitrião faz breves observações enquanto descem pelo monturo. A auto-estrada era uma montanha russa que os despia.

– Oh! Não te imaginas a esgalhar estrada acima, no carro, ou deixá-lo deslizar até ao rio!?

– Ya! Concordo, a minha adrenalina vai subir em flecha como os ponteiros do conta-quilómetros. Aquiesceu Tiago!

Tiago regressa a casa, era Sexta-Feira e fazia uma semana que se encontrava a trabalhar num trabalho part-time. Não era assim que queria passar os dias, mas por enquanto era provisório. Ao entrar na povoação viu um rego de água que descia da colina onde se encontrava o palheiro, não fez nenhuma associação naquele momento. Em breve o seu mundo iria sofrer um abalo. A sua mãe aproximava-se, trôpega e agitada, parecia que tinha sobrevivido a um acidente. 

Filho, fui informada pelos engenheiros que a auto-estrada não vai passar no terreno do palheiro! Disse em pânico. Não vamos ser expropriados!

Naquele momento Tiago vitrificou-se. 

– Mas que porra, que grande trombada! 

– Que vai ser agora? Lamentava.

– Como é que isto aconteceu, diz-me? Inquiria em pânico.

– As máquinas descobriram uma mina, rebentou na colina e a água desceu para a povoação. Entretanto os engenheiros apareceram e comunicaram-me que a auto-estrada não continuaria em direcção ao palheiro, são as regras do impacto ambiental.

Num gesto animal, Tiago passou as mãos na cabeça. Foi uma grande nega. Perdera a luta. Rapidamente a dor desapareceu, num momento de raiva, subiu a colina para observar a cratera que se afigurava. Se um asteroide destruíra os dinossauros; as suas esperanças, a vontade de ser um lordezinho, eram agora reduzidas pela descoberta de água. A auto-estrada não era uma ONG toda humanitária; Tiago levou as mãos à cabeça, atónito; descarnado até ao fundo dos seus ossos. Não contava nas suas equações com aquela premissa. O seu cérebro estava em grande grita.

– O que é que estou aqui a fazer? Impacto ambiental de merda!

 

Parte VII do Conto Auto-estrada. Ver mais aqui

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Paulo Seara (1981) natural de Vila Real. Licenciado em Animação e Produção Artística pelo Instituto Politécnico de Bragança em 2005. Escreve poesia desde 1999, tendo colaborado esporadicamente em várias publicações em papel ou online. Colaborando com o blogue Pomar de Letras no qual publicou poesias, contos, textos soltos e traduções, e Inefável – Revista em Rede de Poesia. Vive em Edimburgo, na Escócia, desde 2014. Em 2007 foi co-autor do livro Crónicas do Demencial, o Porquê do Síndrome Nilhoo, editado pela Corpos Editora. Publicou a colectânea de poemas Livro Daninho (Edições Bicho de Sete Cabeças, 2016), e Take Away (Edicões Bicho de Sete Cabeças, 2017), ambos os livros estão disponíveis para download gratuito em smashwords.com. Para além de poeta Paulo Seara é artista visual desde 2005, tendo realizado mais de uma dezena de exposições. Os conteúdos de artes e letras produzidos por Paulo Seara podem ser observados em: https://www.facebook.com/prseara/ .

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O renascer da arte a brotar do Interior e a florescer sem limites ou fronteiras. Contos, histórias, narrativa e muita poesia.

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