Durante o resto do dia visitam a montanha. Entre dois montes meio devorados pelos incêndios, uma veia de água e vegetação, duas figuras saltaricam como gafanhotos nas lajes, ao lado de uma queda de água. A entrada em cena de Solange, com o vestido azul ultramarino e os seus olhos de sonho de uma noite de Verão tropical, são uma extensão de azul do céu. Perto deambulam vacas. O pensamento de Tiago é cortado por uma motosserra que se perde na imensidão da paisagem.

Na superfície da diáclase, Solange descontrai, é um momento terapêutico, hiperbolizado pelas calças de yoga de Solange que ondulam e modulam, ao sabor dos elementos, as tonificações do corpo. Solange vai observando e pensando enquanto faz alongamentos: o guerreiro, a ponte, as pernas a noventa graus, depois de fortalecer e relaxar os músculos sentia-se na face uma aura de beatitude. Ficou analítica, entretanto.

Fugiste para aqui em busca da inocência e romance, e vais acabar por desenterrar a minha mentira. Tu com essa seriedade no olhar, também deves ter uma dor. É preciso sentir a liberdade querer mais, mas não está fácil! És um bom homem. Olhas para a auto-estrada em construção, como um menino a brincar com legos. Olhas com preocupação, isso não é muito pueril. Entro dentro do teu corpo, até aos cromossomas, como juiz de carácter. Vamos ver se o peixe morre mesmo pela boca!

– Tiago gostas de ganzas? Sem esperar pela resposta retira de uma bolsinha com lantejoulas, em forma de elefantes, uma caixinha com o estupefaciente.

– Deixei de fumar, mas vou abrir uma excepção para ti! Responde e sorri, enfrentando a inesperada situação com leveza. Pensou. Isto é o principiar de uma bela amizade e algo mais. Tiago sentiu-se bem, como estar a pisar uma alcatifa pela primeira vez, ao lado de uma moderna e dinâmica jovem. A auto-estrada tinha sido uma desilusão, seguia ao lado do palheiro, brutalizando a paisagem, o palheiro continuava estacado, se calhar para sempre, qual árvore sagrada, a pedra onde se sacrificavam os cordeiros.

Agora sim, estava a ser impecavelmente atendido pelo destino. As coisas entravam e saiam, e esperava que agora pegassem com super cola três. Os binóculos pousavam na bolsa de lantejoulas em forma de elefantes. Sem grandes hesitações rebolaram na relva. Depois de uma grande comoção corporal e mental, meio despidos e de línguas pendentes, Tiago falou do malogrado palheiro, a auto-estrada, o jardim japonês, a redundância… era muita informação, muita tensão a sair daquela órbita. Solange sentiu pena; Tiago estava com sorte, a carga emocional não a assustou, ou talvez fosse a admoestação dos efeitos da ganza no âmago do cérebro.

– A auto-estrada passou ao lado do palheiro, e perdemos a oportunidade de fazer muito dinheiro, porque os engenheiros encontraram uma mina de água, porque tinha de acontecer logo agora, tinha planos para viajar, talvez mudar de país. Estive ali no topo daquela rocha a observar a auto-estrada, com os binóculos. Terminou, estava a ficar chato.

– Deixa-me ver, será que vejo o palheiro? Inquiriu.

– Não, daqui não consegues ver, mas dá para observar o serpentear da auto-estrada como uma grande anaconda.

As lentes percorreram a paisagem como uma águia inquiridora, observando o bucolismo duriense violado. Uma nuvem de pó elevava-se no ar, do cordeiro sacrificado da natureza.  

Azar do catano.

As indemnizações não caem do céu.

Não, caem da UE. Quanto é que perderam?

À volta de dez mil euros.

Era dinheiro, o suficiente para conseguir o que se não tem, encavalitar-se e fazer de conta que se é um lorde. Mas a realidade é que, se não fora o medíocre part-time, Tiago roçava-se pelo chão, como um animal. Tinha o orgulho todo fodido, mas a Solange tinha levantado a moral. Tiago tinha aquela maneira de estar.

– Já pensaste no turismo, uma quinta com burros? Tens de estar preparado para usar tudo o que tens para conseguires o que queres. O turismo está a subir e os burros estão em extinção. Eu abandonei a ilustração e o design. Ganhava bem, ainda recebo os royalties, mas, ao fim de uma década desta vida, achei que tinha de usar tudo o que tinha para conseguir o que quero.

Gostava dele, e estava a dar-lhe palpites e planos, era uma grande enfatuação, bastante platonismo até nas ideias. Tiago sentia-se incensado, incrível como nenhuma mulher tinha feito nada tão poderoso como Solange; até o orgasmo enquanto copulavam na relva próximos das vacas tinha sido revelador. Mas no fundo queria outros planos, outra visão, estava farto de ser mais uma pessoa a olhar o céu, e seguir o caminho de Solange, ir para a estrada. Hoje, sentia que ia ter uma noite bem dormida.

– Os burros, o turismo… o que eu quero é ir para a estrada, sair, e rebentar fora daqui, no estrangeiro. E não sou da geração da mala de cartão, sou educado, posso voltar às ciências matemáticas. O rosto contorceu-se em direcção às nuvens, enquanto despejava as suas emoções.

Tiago e Solange acabaram por visitar o palheiro, ao sair do vetusto edifício da progénia de Camilo Terra, a poucas centenas de metros, observaram a linha da morte, uma tela laranja perfurada, ferros firmes e hirtos sustentam a linha de fronteira entre a propriedade e a obra. O que resta do palheiro, está de pé como uma grande esfinge; vai ser um dia uma ruína. A auto-estrada passou ao lado, linhas perfeitas, corrigindo as assimetrias sociais seculares, como as perfeitas ruas e avenidas liberais de Nova Iorque, perfeitas, organizadas, ricas. 

A auto-estrada tinha sido um acontecimento brutal, mas não conseguiu matar a história: o palheiro.  Entretanto, voltaram a falar do turismo, e dos burros, engajados por uma nova congeminação.

Tiago olhou de novo a cratera, o aspecto lunar, e, durante alguns minutos, parecia meditar, reunia no seu cérebro palavras às cegas. Burros não, turismo não, viver e foder, viajar; rebentar lá fora. E imaginava assim a sua vida, dinâmica e moderna com as danças de Solange. Eram corpos e mentes que já não tinham uma função clássica para aquela paisagem e procuravam a liberdade. E foram congeminando uma magia, uma nova narrativa. À sua volta um som fundido na paisagem vindo de altifalantes com música popular entrava pelos ouvidos.

Parte X do Conto Auto-estrada. Ver mais aqui

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Paulo Seara (1981) natural de Vila Real. Licenciado em Animação e Produção Artística pelo Instituto Politécnico de Bragança em 2005. Escreve poesia desde 1999, tendo colaborado esporadicamente em várias publicações em papel ou online. Colaborando com o blogue Pomar de Letras no qual publicou poesias, contos, textos soltos e traduções, e Inefável – Revista em Rede de Poesia. Vive em Edimburgo, na Escócia, desde 2014. Em 2007 foi co-autor do livro Crónicas do Demencial, o Porquê do Síndrome Nilhoo, editado pela Corpos Editora. Publicou a colectânea de poemas Livro Daninho (Edições Bicho de Sete Cabeças, 2016), e Take Away (Edicões Bicho de Sete Cabeças, 2017), ambos os livros estão disponíveis para download gratuito em smashwords.com. Para além de poeta Paulo Seara é artista visual desde 2005, tendo realizado mais de uma dezena de exposições. Os conteúdos de artes e letras produzidos por Paulo Seara podem ser observados em: https://www.facebook.com/prseara/ .

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