XII

Agarro-me ao balcão do clube. Refastelo o olhar na prateleira do bar. Garrafas de cores variadas, como um vitral intoxicante, distraem o meu olhar. Entre esta divisão e a sala dos camarins uma parede de estuque decorada com cartazes, como uma muralha com editais, policia o meu pensamento cauterizado. Eu sei que estás do outro lado, esta parede é uma gaze no meu pensamento, despes a tua pele e colocas a máscara onde desapareces e ressurges para açular os cães que me rodeiam aqui neste balcão onde os bebedores se prosternam numa nova religião. Aguento a tensão com este copo de vodka que me atrofia os vasos sanguíneos e depaupera o olhar, mas os meus pensamentos estão bem apertados sob o nó cego do desespero e da raiva. Enquanto aguardo o teu acto, o disco jóquei pulveriza o espaço com música, que me entra até a profundidade dos cromossomas. 

Recordo-me dessa noite enquanto escrevo no norte da Europa. Nesta longitude salvífica, cheia de ética e segurança económica, assim penso, mas não é uma segurança vivida, esta existência milita em qualquer coisa de efervescente a acontecer entre as mãos, foge-me o significado deste estado de graça, quando estou mais próximo de o alcançar. Copo de água com aspirina.

  Esta vida de operário também é acossada pelo spleen, mas este é um spleen cínico, atreito às modas, não passo de um operário que se deveria ver ao espelho como um lumpenburguês. Mas não tem coragem para tal. Não existe o spleen de Paris, nesta longitude soterista e cheia de ética? Acabei hoje de ler Webber para compreender a ética protestante; e olho para ti enquanto dormes um justo sono, o descanso entre os degraus de uma escadaria social que tanto almejas e te deixa ingénua. Ah!, pequenas notas de rodapé da existência, com um copo de água com aspirina.

Regresso àquela noite, em que confirmei a verdade do sórdido panfleto amarrotado que deixei no palheiro, pisoteado boçalmente, para esquecer para sempre naquela pré-ruína arqueológica. Escuto a música num canto do bar, enquanto os funcionários, como querubins, armam o sórdido altar de Solange, para o sacrifício. Com Paixão, dos Heróis do Mar, nos ouvidos, regresso à cidade que a viu nascer e depois atravessou o país de Sul para Norte. 

Solange, viajaste para a minha cidade num dia de Junho, contratada por uma agência, para dar formação em danças, mas era tudo mentira, ou melhor, não era bem verdade. Subimos a montanha, vimos os úberes das vacas, e colhemos o mel e o leite da nossa perdição, sob o olhar dos milhafres, e fomos à aflitiva auto-estrada que não trouxe nem paz, nem dinheiro, devorando a província com uma colossal dentada na paisagem. 

E especulamos junto ao palheiro pelo totoloto do empreendedorismo, com todas as nossas transcendentes esperanças económicas em folhas de excel com burricadas ou turismo rural. Estou a andar muito depressa, é verdade, raiva em estado gasoso, vai passar, sou obrigado a ser racional; já me concentrei, naquele momento a sós no palheiro onde abandonei aquele panfleto pornográfico e saí de lá lavado, mas quando chegarmos à Solange posso passar-me dos carretos, expandir-me com um grito animal, e calar toda a multidão: mas que merda é esta! Que merda é esta, caralho!

 

Solange aparece depois do blackout com um spot pálido no corpo como se estivesse a iluminar a lua num eclipse. O óleo essencial escorre do pescoço até aos tornozelos, encruzilhado com o dourado da lingerie, os olhos são contornados por lápis-lazúli e pó de ouro falso brilha no figurino. Era ofuscante. Solange era uma Mozart do vício e pronunciava-se com grande galanteio. Sentia-se o álcool e rareava o oxigénio da sala de espetáculos. O público virava os seus corpos noventa graus ou cento e oitenta graus, embandeirando em arco. Eram homens, mas também mulheres, e eram muitos olhares, todos olhavam para ela como canibais, e os seus dentes estavam limados para o sacrifício autofágico. Não havia um único clube de strip na cidade, bem!, excepto o que quer que se passasse na casa de putas junto da estrada nacional ao subir para a montanha. Uma grande manada olhava para Solange como um pasto verdejante e era o momento mais triste da existência de Tiago, escondido no negativo das paredes com um copo de vodka na mão. Sentia-se perdido, era mesmo ela, não era qualquer outra mulher naquele panfleto. 

Entretanto, a música ribomba, um grande gongue sonoro principia o espetáculo. E ela começou a dançar, quebrando os ideais de Tiago, como o calor da sala ao esquentar o copo com o gelo e o álcool. Os movimento bombásticos são bombeados, com um belo ritmo de samba. Gritos e assobios ecoam na sala, completamente electrificados. As glândulas da plateia transpiravam com a dança penetrante de Solange. 

Para Tiago, no seu âmago, era melhor voltar ao mistério das cebolas do Egipto, como na Bíblia, voltar para a simplicidade e harmonia de ter, ao menos, as cebolas do Egipto. Isto tinham pensado os Hebreus quando cirandavam transidos no calor do Sinai. Tiago sentia-se estúpido e desterrado. Tiago fecha as pálpebras como se olhasse uma luz aurífica. Depois volta a abrir o olhar. Sentia-se a tripar, comprimido por aquela pressão, oprimido, uma sensação vulcânica começava a dar primazia nos seus músculos ao ver aquele carnaval, ao longo dos minutos que se passaram. Foi nesse momento que foi descoberto pelo amigo que vive na aldeia esventrada pela auto-estrada. Tiago estava quase a interromper o acto de Solange, quando o amigo, que o encontra escondido no negativo da parede a olhar como uma águia para o palco, o veio interromper.

– Então meu, por aqui?

Surpreendido, Tiago deixou cair o copo no chão, derramando o que restava do álcool.

– Oi! Não teve tempo para reagir. 

– Está ali uma grande fêvera! Disse, enquanto passava a mão no seu cabelo à foda-se empastelado de gel.

– Sim, tem uma anatomia interessante! Responde como um manequim.

– Não é frequente um espectáculo destes no clube, estou a gostar do esquema, isto sim é cultura, não é? Ao terminar dá-lhe uma palmada no ombro.

– Sim é muito cultural, não podemos ter sempre música! Responde irónico enquanto enfrentava uma força demoníaca dentro de si.

O amigo repara na sua expressão séria, enquanto a plateia entra em mutuação melíflua, alegre, excitadamente puxando os seus refluxos interiores para a imagem da mulher dourada que recebe uma salva de palmas ao retirar as peças de roupa. Pega no telemóvel e faz um curto vídeo, nos últimos segundos daquele teatro macabro. Era impossível não resistir. Tiago irrita-se e vira as costas puxando pelo casaco do amigo da aldeia esventrada pela auto-estrada e pede-lhe para o coadjuvar na bebida de um shot de absinto, para acalmar as glândulas e o nervosismo. Bebem de rajada a mistela.

Na sala de espetáculos entoam o últimos acordes e Solange, como uma seta, salta do palco e atravessa uma avenida delirante de assobios e palmas. Era uma saída triunfal para o seraglio e mais uma noite ganha, dirigiu-se ao camarim onde retirou a máscara que personificava com grande afã, voltando a ser a Solange que ele conhecia, partilhando o espaço promíscuo com os funcionários do clube, o artista de stand up comedy e a parafernália das bandas de música alternativa, tudo em grande concubinato de pessoas e objectos. Tiago escondeu a fronha quando ela passou suada, com a pintura dourada a escorrer e a maquilhagem pesada com estrias de água. Tiago resistia, mas haveria de ressurgir, de um modo tranquilo. A verdade é como o azeite vem sempre ao de cima. 

O amigo interrompeu o pensamento de Tiago com uma interjeição e uma proposta obscena.

– Vamos à porta do camarim, ‘bora lá? Indaga provocador.

Naquele momento quase que perdeu o controlo, pensou que o amigo fosse atrás da fêvera da Solange. Estava à rasca, mas veio-lhe à memória a decisão que tomara no interior do palheiro, a paixão era mais forte, não se transformaria na fotocópia de uma fotocópia de uma fotocópia, tinha feito o seu ritual Kintsugi concertando as peças de uma porcelana escaqueirada em milhões de átomos. Vai ficar tudo bem, apesar da sujidade do pó que sentia. Já tinha ficado a sós e reflectido de um modo mineral, agora tinha de conversar e encontrar nessa conversa uma pedra de toque.

– Não vamos, não, deixa lá a gaja; anda comigo fumar um cigarro ao pátio sob a ramada; tenho, aliás, uma coisa para te mostrar.

– É ainda o assunto da auto-estrada, ou o palheiro; ainda não te livraste dessa fixação? Responde.

– Não é isso, anda, vamos para o pátio; está calor aqui, demasiado calor, acompanha-me durante o meu cigarro. Insiste.

 

Parte XII do Conto Auto-estrada. Ver mais aqui

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Paulo Seara (1981) natural de Vila Real. Licenciado em Animação e Produção Artística pelo Instituto Politécnico de Bragança em 2005. Escreve poesia desde 1999, tendo colaborado esporadicamente em várias publicações em papel ou online. Colaborando com o blogue Pomar de Letras no qual publicou poesias, contos, textos soltos e traduções, e Inefável – Revista em Rede de Poesia. Vive em Edimburgo, na Escócia, desde 2014. Em 2007 foi co-autor do livro Crónicas do Demencial, o Porquê do Síndrome Nilhoo, editado pela Corpos Editora. Publicou a colectânea de poemas Livro Daninho (Edições Bicho de Sete Cabeças, 2016), e Take Away (Edicões Bicho de Sete Cabeças, 2017), ambos os livros estão disponíveis para download gratuito em smashwords.com. Para além de poeta Paulo Seara é artista visual desde 2005, tendo realizado mais de uma dezena de exposições. Os conteúdos de artes e letras produzidos por Paulo Seara podem ser observados em: https://www.facebook.com/prseara/ .

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O renascer da arte a brotar do Interior e a florescer sem limites ou fronteiras. Contos, histórias, narrativa e muita poesia.

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