XIII

Debaixo da ramada no pátio, como uma nuvem verde, suspensos, alguns cachos de uvas resistem ao míldio, uma luz bate em dois seres conversando, dando-lhes um aspecto viridiano e insectóide debaixo das folhas; um artista tinha colocado um holofote verde, um verde obsessivo, que os iluminava transformando aquele cenário numa antagónica recriação bucólica com ficção científica. Tiago e o amigo da aldeia esventrada pela auto-estrada ciciam quase em silêncio. Uma faísca irradia, como uma estrela, dos cigarros e prosseguem a conversa.

-Pronto, diz-me, é algo assim tão importante? Ignora o que se segue, enquanto inala o fumo. 

– Vou mostrar-te uma foto no meu telemóvel e tu abre o ficheiro com o filme que fizeste ao mesmo tempo. Exige imperativo.

– Ah! Mas esta é a mesma mulher, seu malandro, explica-me o que é que se passa? Indaga curioso.

Ninguém sabe, só tu, ela é a minha namorada, andamos há dois meses, e não estou a brincar. 

– Ela não te disse nada, descobriste hoje, não sei como é que não rebentaste? Rebate taxativo, enquanto filava mais fotos no telemóvel e se sentia atónito, enquanto olhava ao mesmo tempo o ar esgazeado de Tiago.

– Eu fiquei a saber anteontem, não teria estômago para isto hoje. Enquanto procurava panfletos para programar uma saída com ela, deparei-me com um curioso panfleto com uma dançarina exótica, pensei que fosse divertido, mas depressa desconfiei que fosse ela. Ainda por cima ela tinha-me dito que hoje tinha uma aula de formação. Decidi confirmar com alguma reserva. Afinal era mesmo ela, sinto que meti a minha cabeça no interior de um esgoto. Este Verão tem sido pródigo em acontecimentos inesperados. Terminou de um modo calmo e claro, depois de descrever o episódio.

Não percas tempo, pode ser que ela não tenha coragem para abordar este assunto neste momento, é tudo tão recente, ou então não tem juízo, e vive nesta mentira. Tinha sido bastante directo e contemplava a face verde de Tiago sob o fotão de luz verde. 

– Não vou procrastinar, não me posso banhar em mentiras ou ilusões, senão esta merda pode acumular-se. Não queria nada que isto destruísse esta relação! Disse enquanto maquinava as voltas e arquivoltas, uma esperança verde como as folhas da ramada.

– Mas não faças nada agora, não te queimes! Avisou com autoridade. Era cedo para fazer uma renúncia. E abordar a miúda agora poderia ser assédio, ou qualquer crime na lei.

Ao sair, Tiago olhou como um feixe de luz na escuridão o espaço, procurava não ser visto, ela podia aparecer inesperadamente, e retirou um panfleto dos que ainda sobejavam. Acto irreflectido. Não podia perder o fio à meada, tinha virado jogos bem mais difíceis e dado tacadas pífias. Tinha sido feito redundante no último emprego, o gabinete de estudo não precisava de cientistas matemáticos, atirava-os ao lixo, havia tanta mão-de-obra e tão pouco para fazer, era a crise; tinha gozado o tempo da sua redundância e foi abalroado com a história da agente imobiliária, o palheiro de “ouro”, mas ele tinha sido um asno e acreditara. Precisava de dinheiro, os pais tinham o sonho de construir um jardim japonês e aproveitar a vida. Uma mina de água tinha destruído o sonho. Por sorte tinha arranjado um part-time. Não era um grande avanço. E agora, não há rosa sem espinhos, Solange e as suas danças… 

Enquanto regressava a casa, na rua deserta, reflectia e estugava o passo, era uma da madrugada e enviou uma mensagem para se encontrar com Solange e abordar o bicudo assunto. Pensou que a melhor maneira seria na privacidade do seu apartamento a alguns quarteirões dali, pedindo-lhe para almoçar com ele. 

Esta noite o sono não seria de qualidade e pensava já em tomar um medicamento para adormecer, o infradeus do sono, Morfeu, encontrava-se à sua espera para cobrar portagem. Tinha de se medicar para acordar fresco. Com o álcool que tinha tomado era uma mistura agressiva.

 

Depois de uma curta borga significativamente infanto-juvenil com toda aquela gente entre os vinte e trinta anos; logo após o seu espectáculo, Solange regressa a casa de madrugada e responde a Tiago, enquanto arrasta os seus sapatos. O seu querido teve uma excelente ideia, o almoço retemperar-lhe-ia o corpo e ansiava estar com ele. A noite seria curta para dormir, parecia que corria de gincana em gincana com todos aqueles espetáculos e relações públicas, algo que Tiago viria a fazer no futuro.

 

Parte XIII do Conto Auto-estrada. Ver mais aqui

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Paulo Seara (1981) natural de Vila Real. Licenciado em Animação e Produção Artística pelo Instituto Politécnico de Bragança em 2005. Escreve poesia desde 1999, tendo colaborado esporadicamente em várias publicações em papel ou online. Colaborando com o blogue Pomar de Letras no qual publicou poesias, contos, textos soltos e traduções, e Inefável – Revista em Rede de Poesia. Vive em Edimburgo, na Escócia, desde 2014. Em 2007 foi co-autor do livro Crónicas do Demencial, o Porquê do Síndrome Nilhoo, editado pela Corpos Editora. Publicou a colectânea de poemas Livro Daninho (Edições Bicho de Sete Cabeças, 2016), e Take Away (Edicões Bicho de Sete Cabeças, 2017), ambos os livros estão disponíveis para download gratuito em smashwords.com. Para além de poeta Paulo Seara é artista visual desde 2005, tendo realizado mais de uma dezena de exposições. Os conteúdos de artes e letras produzidos por Paulo Seara podem ser observados em: https://www.facebook.com/prseara/ .

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