XIV

O que é mau para a colmeia é mau para a abelha. A frenética Solange tomou um duche rápido, com sais minerais do Mar Morto, para ficar fresca, tonificou com óleo de coco, bebeu café com leite, deglutiu bolachas para amparar o apetite do estômago, colocou-se em modo de relacionamento com Tiago no seu cérebro, agarrou nos óculos que meteu no carão enfronhado de sono e desceu algumas ruas em direcção à colmeia do seu meloso amigo – Mal sabia o que a esperava. 

Desceu a rua deserta com os seus óculos de mosca no rosto.

A angústia guiava os gestos de Tiago enquanto preparava a lasanha. Era Domingo e pensava na hipótese de comer a lasanha fria a sós, se os argumentos com Solange descambassem para uma explosiva discussão. E havia essa possibilidade. O relacionamento tinha oito semanas. Ainda estava na zona de risco, muito longe de se consolidar, até se recordou do filme nove semanas e meia lá longe nos anos noventa, quando era uma criança. Algum argumentista americano tinha chegado a essa conclusão lúgubre depois de consultar uma catrefada de terapeutas.

Lasanha no forno, entradas prontas, salada e sobremesa… na pastelaria se tudo correr bem, caso contrário o melhor é meter uma corda metafórica no pescoço e ficar com uma fronha para uma semana, e quando estiver limpo daquele relacionamento ir à pesca.

 

Antes de encetarem o almoço, e depois de Solange entrar no apartamento, o ar ficou espesso e baixo, com ar de apoplexia, Tiago pede que se sentem à mesa. Tinha um plano idiota na cabeça. Estava muito cordial. Tinha colocado o panfleto que recolhera na noite anterior numa bandeja tapado com uma tampa prateada. Parecia uma cena recolhida de uma pintura de Caravaggio, a cabeça decepada de São João Baptista. Ela era a Salomé. 

– Tenho uma coisa para te mostrar. Disse tremelicando buscando no fundo das costas a confiança de quem não queria um desfecho abrupto, mas aquela encenação com a bandeja era arriscada.

– Ah! Alguma surpresa, fizeste alguma coisa porreira, é alguma coisa deliciosa? Indaga

Por favor, levanta a tampa da bandeja!

– É algo que se coma? Disse curiosa.

– Não sei! Disse como um cronómetro.

– Vou levantar a tampa. Responde com assertividade e depois da tampa ser levantada fica com uma angustiante desilusão estampada no rosto. Tinha sido apanhada.

 

Com um vocabulário menos polido do que o rústico e camiliano jargão popular, Solange repara no panfleto e explode com um gutural, foda-se! Foi duro, ao fim da fresquinha da manhã, levar com aquela experiência avassaladora, algo que não teria imaginado. Era um bocadinho demais. Tinha sido descoberta. Tinha sido idiota. Teve tanto tempo para explicar que afinal era uma bailarina exótica e não uma formadora de danças. Teve oito semanas e um dia para explicar.

 

– E atão? Que tens a dizer? Ontem estive no clube, mas já sei disto há dois dias, encontrei o panfleto. Disse no interior do seu atoleiro emocional.

– Ah! Eu posso explicar, deixa-me explicar! Tinha borrado a pintura, era um momento embaraçoso.

– Então diz! Olhava-a de soslaio com a fronha metida entre a mesa e a face dela.

– Dançar é o meu trabalho, desculpa, não tive coragem de te dizer que fazia danças exóticas, ou burlescas, não sou formadora como disse… Fui uma idiota! – Responde, implorando por compreensão.

– São só danças ou há mais alguma coisa!? Espicaça-a

– Não, foda-se! Não vendo o meu corpo. Acredita, eu danço por amor à arte! São apenas danças burlescas. Diz com insistência.

Continua e explica com método e calma, procurando destroçar as ideias preconcebidas, tintim por tintim. Tiago escuta e vai abanando o seu pescoço para cima e para baixo. A paixão fazia dele um néscio, tinha uma capacidade de absorção como uma esponja. Já tinha reflectido no palheiro, no espetáculo confirmou as suspeitas, tomara conselho com o amigo debaixo da ramada do clube e agora procurava uma solução, um porto de abrigo para solucionar o seu dilema e conhecer melhor o âmago de Solange. Como no ritual Kintsugi, encontrava-se agora na fase mais crítica, o momento em que a liga de ouro é pressionada contra a porcelana. Um pouco mais de força e a coisa parte, era uma pena ver partir a rapariga.

Solange tinha explicado que não era puta, não era uma stripper no sentido estrito do termo, e ele tinha confirmado no espetáculo que ela não tinha chegado ao extremo por causa da pintura corporal em tons de ouro, sim tinha ficado nua, mas era uma nudez artística, e estava longe de aceitar contractos para se mostrar em espaços machistas. O clube era um espaço cultural. Selecto. Tiago seguia o fio condutor da história, e a sua palpitação cardíaca esmoreceu. Tinha passado tudo ao fim de uma longa meia hora, meia hora no sentido psicológico era mais do que meia hora. O sangue de ambos tinha fervido e viram a luz do farol que os retirava da desconhecida escuridão, da ignorância, e os colocava na amena baía da modernidade. Solange ainda lhe explicou os rituais de limpeza, no meio da parafernália de instrumentos musicais, o camarim improvisado onde os funcionários se mudavam inclusive, e o atraso que sofreu o espetáculo do contador de anedotas, porque ela queria privacidade. Era uma profissional e por aquela noite tinha ganho trezentos euros. Nada mau.

 

Fora quase um desastre, o relacionamento patinou durante aquela meia hora, o gesto tragicómico ao colocar o panfleto na bandeja foi arriscado. Numa noite de jogos de sombras, Tiago descobre que aquilo que observava era afinal um jogo de sombras, e não aquilo que ele imaginava ver… mas para isso necessitava de que o destino o mantivesse na ignorância por longos e largos anos. Fazia três dias que tinha reflectido nervosamente no que tinha desenterrado, não era a mentira, tinha sorte; enfim, outros têm queixas mais profundas e sérias, ele não. Podia ter sido pior. 

Solange remata a conversa e juntos limpam as remelas daquele assunto espinhoso, as crónicas da vida quotidiana, enquanto o alarme não traz a lasanha do âmago do forno. 

– Amar alguém, mais do que querer possuir uma pessoa, é respeitar a sua vontade. Disse ela.

No fim destas palavras entrou um vento inesperado no apartamento e levantou num ápice, como um vórtice, o panfleto, leva na columbina de ar o tal panfleto para fora do apartamento, perdendo-se em curvas e contra curvas na cidade. Mais um pedaço de papel que cairá no esquecimento.

 

Parte XIV do Conto Auto-estrada. Ver mais aqui

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Paulo Seara (1981) natural de Vila Real. Licenciado em Animação e Produção Artística pelo Instituto Politécnico de Bragança em 2005. Escreve poesia desde 1999, tendo colaborado esporadicamente em várias publicações em papel ou online. Colaborando com o blogue Pomar de Letras no qual publicou poesias, contos, textos soltos e traduções, e Inefável – Revista em Rede de Poesia. Vive em Edimburgo, na Escócia, desde 2014. Em 2007 foi co-autor do livro Crónicas do Demencial, o Porquê do Síndrome Nilhoo, editado pela Corpos Editora. Publicou a colectânea de poemas Livro Daninho (Edições Bicho de Sete Cabeças, 2016), e Take Away (Edicões Bicho de Sete Cabeças, 2017), ambos os livros estão disponíveis para download gratuito em smashwords.com. Para além de poeta Paulo Seara é artista visual desde 2005, tendo realizado mais de uma dezena de exposições. Os conteúdos de artes e letras produzidos por Paulo Seara podem ser observados em: https://www.facebook.com/prseara/ .

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