XVIII

Era segunda-feira e Tiago regressa ao trabalho, com a face feita numa máscara de esforço, na fronte uma mancha azul, como se costuma dizer, um olho à Belenenses. Solange refeita da humilhação, tinha preparado e aplicado um unguento para os galos e as pisaduras, e olhava com perplexidade para os arranhões nos braços de Tiago. O baixote bexigoso era um animal, escapulira-se pela saída de emergência como um javali acossado. Depois do incidente na noite anterior foram ao posto de polícia apresentar queixa. O clube decidiu dar-lhe um dinheiro extra pelo incidente e abafar o escândalo. 

Mais caixas, paletes, formulários, digitalizações e validações de códigos de barras. Uma carga de nervos, mais do que o espírito pode suportar invade Tiago. Os colegas cercam-no com questões, Tiago inventa uma história e sisudamente volta ao trabalho. No intervalo do almoço desloca-se para comprar uma baguete e cruza-se com o amigo que vive na aldeia dilacerada pela auto-estrada, que trabalha noutro departamento do centro comercial, e depois a agente imobiliária que tinha elevado o palheiro e a eira ao estatuto de ouro, porque a auto-estrada era a última coca-cola no deserto, depois encontra os pais, que também ficam muito alarmados, pensaram que o filho tivesse sido assaltado na rua. Tinha sido uma sucessão de encontros pouco glamorosa. E as explicações tiveram de ser dadas consoante os ouvintes, os pais receberam uma informação que não mencionava danças eróticas, a agente imobiliária também não soube nada sobre o assédio sexual que Solange sofreu, bem, talvez fizesse sentido dizer que anda a monte um indivíduo que actua como o Bruce Lee do assédio sexual, o único a saber da novidade com todos os dados foi o amigo que vive na aldeia esventrada pela auto-estrada. Depois da exposição rigorosa, bem como a exposição das feridas e hematomas daquela infernal noite, como as chagas de Cristo, Tiago regressa ao armazém de logística. Mais caixas, paletes e muito serviço.  Durante a frenética rotina era necessário que os motoristas assinassem as guias.

– Eh! Espera, tens de assinar a folha! Tiago dá algumas passadas em direcção ao furgão, quando este inicia inversão de marcha e quase lhe acerta. Com os nervos em franja grita:

-Filho da puta! Foda-se! Não vês o que andas a fazer! 

Tinha sido um grande e gutural impropério e o vozeirão protuberante foi ouvido pelo motorista. Este abriu a porta do furgão e foi em direcção ao corpo de Tiago que estugara o passo. O indivíduo, barbudo e com uma bandana nos cabelos, não parecia estar com cara de muitos amigos. 

– Que tens, não podes tratar-me dessa maneira! Estás tolo!?

– Hum? Responde Tiago.

– Não é, hum! Acabas de me chamar filho da puta. Responde.

Tiago só precisava de um rabisco no formulário e de que o outro desse uma olhada na lista de materiais da entrega. Enquanto lhe devolvia o olhar, mostrou-lhe o clipboard. Ficam a olhar um para o outro por alguns segundos, o outro repara nos ferimentos e hematomas. Com perplexidade estampada no rosto ganha confiança para dar um sermão a Tiago. E assim ficam trocando argumentos. Foi breve a contenda, Tiago estava com as chispas, mas o outro sabia que Tiago não queria porrada, pois tinha o aspecto de já ter andado à porrada, então disse-lhe:

– Fiquei sem almoçar para fazer esta entrega, estou no fim do meu turno, a entrega está correcta, queres que te faça o rabisco, eu faço o rabisco, aqui está o rabisco, agora vira para lá a fronha e desaparece-me da frente, parece-me que gostas de andar à porrada! É isso, gostas de andar à porrada? Queres porrada?

Tiago tinha sido encurralado, os acontecimentos do dia anterior tinham adulterado o seu estado de espírito, a sua capacidade de julgamento, já não era o mesmo cientista matemático, o estatístico. Os seus sonhos eram de um ouropel gasto, como uma lixa, a sua nova profissão estava a dar-lhe cabo dos nervos, a sua relação com Solange tinha sido alvo de uma acontecimento asqueroso, porque aquele esgoto humano se tinha agarrado às mamas da Solange, e agora sua alma encontrava-se na lama. Era uma debacle! Tiago pediu desculpa de modo desesperado, face a face com o triunfo do motorista atrasado. Já não discernia, deu uma volta de cento e oitenta graus e foi até ao escritório com uma grande tensão. Ao chegar pediu para falar com o supervisor. O senhor voltou-se e olhou para aquele homem de cara arranhada e com um hematoma azulado que fechava um dos olhos, onde se acumulava alguma remela. 

– Quero demitir-me! Disse. 

– Queres sair, logo agora com quando faltam 3 semanas para o Natal? Responde surpreendido.

– Quero demitir-me, como é que faço? Exige de modo inesperado.

– Não queres pensar melhor, estás aqui há quase seis meses!

– Eu quero demitir-me, pode ser? Insiste. 

– OK, eu vou imprimir o formulário. Tens direito a todas as tuas férias. Vais fazer-me falta. És um bom trabalhador.

– Você encontra outra pessoa! Disse assertivamente.

– Acho que não estás a ser muito racional. O que é que aconteceu?

– Tive um despique com aquele motorista que esteve aqui há momentos, fui ter com ele para assinar o guia de entrega e quase fui atropelado quando ele fez marcha atrás. 

– Ora, ora, Tiago, tu não podes andar aqui a correr neste armazém, a segurança está primeiro. Eu não acredito que o motivo seja esse, de qualquer modo, se um dia precisares de retomar e houver vaga a logística pode necessitar de ti. Ora conta-me o que é que realmente te aconteceu?

– OK, Sr Emílio, muito obrigado por tudo! Não quero voltar a falar do que se passou comigo. Dá-lhe um abraço ao se despedir.

Virou costas e nunca mais apareceu no armazém. Ao se encontrar com Solange, disse-lhe que iria trabalhar apenas mais uma semana, pois tinha sido o fim da picada para ele. A notícia caiu como uma bomba no regaço emocional de Solange.

 

Parte XVIII do Conto Auto-estrada. Ver mais aqui

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Paulo Seara (1981) natural de Vila Real. Licenciado em Animação e Produção Artística pelo Instituto Politécnico de Bragança em 2005. Escreve poesia desde 1999, tendo colaborado esporadicamente em várias publicações em papel ou online. Colaborando com o blogue Pomar de Letras no qual publicou poesias, contos, textos soltos e traduções, e Inefável – Revista em Rede de Poesia. Vive em Edimburgo, na Escócia, desde 2014. Em 2007 foi co-autor do livro Crónicas do Demencial, o Porquê do Síndrome Nilhoo, editado pela Corpos Editora. Publicou a colectânea de poemas Livro Daninho (Edições Bicho de Sete Cabeças, 2016), e Take Away (Edicões Bicho de Sete Cabeças, 2017), ambos os livros estão disponíveis para download gratuito em smashwords.com. Para além de poeta Paulo Seara é artista visual desde 2005, tendo realizado mais de uma dezena de exposições. Os conteúdos de artes e letras produzidos por Paulo Seara podem ser observados em: https://www.facebook.com/prseara/ .

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