Abram as entranhas de Vila Real,
Uma autópsia ao xadrez da calçada
Um Celta, e um Lapita desenterrados
A comer cristas de galo
Urram por uma bosta de vaca
Do outro lado da porta um cheiro a cozinha
Pingentes de fumeiro e o negro sincelo
O Celta e o Lapitae mesmo com grilhetas e irados
Mesmo com as grilhetas e irados
Comem no inferno gelados.

Linha de chegada ao momento mais esperançoso da cidade
O Tiago Monteiro no pódio
Desagua na cara das modelos;
A incandescente laranja elegeu um primeiro-ministro
Equilibrista financeiro,
Solta a gárgula do palácio a cloaca dos impostos.

Carvalho Araújo defenestrado por cavalos
Regressas à poeira, depois brilho, depois estrela
Atirado ao magma dos tanques de Bisalhães.
Acena uma mão amanteigada na fusão
Do alto forno sai um latte cósmico
Desaguado num manto azul de cruz gamada em punhal.

O caça-minas em esgar de coador
O caça-minas de barro preto flagelado, rebentado
Pelas granadas dos Teutónicos.
Contras as ondulações sem navio socorro,
Nem um americano ao largo;
O Senhor Carvalho preso nas sacas de pano
Que os turistas compram sem reservas e ausência histórica
E os ímanes do turismo do norte
Com os polifémicos mamarrachos da cidade.

Não é o mar, não é o rio
Um cheiro a coalho pelo ar
Corre na garganta escarpada do Corgo;

As geometrias da calçada portuguesa esgaçada
Faldras onduladas onde socorrem cidadãos em cadeiras de rodas.
Branco níveo com pentelhos de negro,
Como uma pinchação, de neo-calceteiros da Juventude Comunista
Antes do autocarro partir para o Avante.

Espumas de leite invadem uma pastelaria
Daqueles que sorriem ao futuro
Com as rendas do estudante
Por cada jovem emigrante a fazer estuque e massa
De ombros encolhidos sob as luminárias
Das empresas rodoviárias, dialogando
Com a sua correria interior,
Tenso de recordar as chicotadas dos telefones
No Call Center como choques eléctricos.
Sorrisos eléctricos daqueles que coroaram
Com fios eléctricos os africanos
Para conter os muros da ignorância e manter o zero,
O absoluto zero.

Desacelera a tua corrida de consultores imobiliários
Vila Real sem Santo António para te concertar o cu rachado
De geadas e sincelo laboral,
Desacelera população tesa de dívidas
Excitada com as ruas estreitas e ruas direitas
Arrancadas às hortas ainda com couves
E debandadas de ovinos a caminho dos Ferreiros.

Grémio Funerário, Bar Carvalinho, Capela Nova
Tudo junto, amassado num covilhete com almíscar
De rabos a cheirarem rabos,
E os revolucionários passaram para lá dos montes
Lutam com um cordão sanitário;
Vai alto o fumo do Grémio Funerário,
O cheiro da tília vai faltar a quem ali o viveu.

Táxis aguardam clientes, árvores guardam motoristas
Afastam as falanges devagar como uma alvenaria
Transformando-se quimicamente, um funcionário ao balcão
Numa segunda juventude dos cabeços do Marão
O embrutecimento guardado por muros e socalcos
Silêncio mineral aguardando o tiro de partida
Uma capa de lombada da literatura anti-comunista
Volumes de calhaus na calçada e um bocejo
A espigar na montra da Estraga-Mundos.

Raios me partam, tanta boca na literatura
Nessa casa de cultura tocas o harpsicórdio
Sem passar recibo à literatura da boca
Para manter a rotunda aberta do lucro
Tinha de entrar muita coca na sinapse.

Abram o manancial do Club de Vila Real
Para lá dos montes, dos vivos e dos mortos
As cabeças a rolarem dos plutocratas
Para polir os seixos pleistocénicos,
Estrumar as gretas do passeio e tintar a lua;
O sangue jorra das covas de Panóias
Para as canetas de aparo de Camilo,
Tanques de mergulho das carnes Aleu.

Os abades de agora autarcas bem cevados
Com os salpicos de sincelo de sangue
No sobreolho de Carvalho Araújo, amor
Ao Grande Javali entapizado, Deus
No átrio da casa, amor ao próximo.
Na esquina da Gomes vai el-rei D. Manuel II
E o cortejo fantasma de mil novecentos e dez
E as crianças cantam ao herói esventrado
O amor das crianças canta por bolo de chocolate
O amor ao solo da cidade esquartejado.

Paulo Seara (1981) natural de Vila Real. Licenciado em Animação e Produção Artística pelo Instituto Politécnico de Bragança em 2005. Escreve poesia desde 1999, tendo colaborado esporadicamente em várias publicações em papel ou online. Colaborando com o blogue Pomar de Letras no qual publicou poesias, contos, textos soltos e traduções, e Inefável – Revista em Rede de Poesia. Vive em Edimburgo, na Escócia, desde 2014. Em 2007 foi co-autor do livro Crónicas do Demencial, o Porquê do Síndrome Nilhoo, editado pela Corpos Editora. Publicou a colectânea de poemas Livro Daninho (Edições Bicho de Sete Cabeças, 2016), e Take Away (Edicões Bicho de Sete Cabeças, 2017), ambos os livros estão disponíveis para download gratuito em smashwords.com. Para além de poeta Paulo Seara é artista visual desde 2005, tendo realizado mais de uma dezena de exposições. Os conteúdos de artes e letras produzidos por Paulo Seara podem ser observados em: https://www.facebook.com/prseara/ .

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