Foto por stokpic | Pixabay

É insuportável ver a história repetir-se, um vai e vem perpétuo que sobre nós se insinua, sobre cada uma das nossas vidas. Os erros do presente continuam os mesmos do passado, deixando-se ficar, pacientes, para se declararem a si mesmos no futuro enquanto novidade.

Aos poucos vamos construindo novos presentes e abrindo novos futuros, sempre a custo, sempre contra a maré. A inércia é muito forte, mas também muito cómoda. A exigência de um outro futuro ou até mesmo de um presente que não este prega-nos a um passado ao qual não mais queremos (ou não deveríamos querer) voltar. Fomos educados para isso mesmo, para estarmos alerta para o caso de algum retrocesso, como que se de um botão de emergência se tratasse. Aos poucos fomos acreditando nas histórias que contávamos a nós mesmos, aquelas que fomos ouvindo dos nossos pais e que eles ouviram dos pais deles. Contos de horror, de opressão, de violência arbitrária e de genocídio. Mas as histórias vão-se tornando mitos, vão-se diluindo razões nas profundezas da memória, detalhes que parecem não importar, mas que a sua falta torna etéreo e longínquo o terror há muito vivido.

(Por quem? Por mim não, certamente! Talvez nunca tenha acontecido. Isto são histórias para nos manter na linha, para nos educar em ideologias perniciosas. Ninguém consegue matar tanta gente em tão pouco tempo. Porque é que não se revoltaram? Isso foi construído depois! Isso foi feito antes! Se assim aconteceu, só tenho pena que de que tenham sido tão poucos. Há que concluir esta obra. O homem branco nasceu para governar, o preto para trabalhar! Faz falta pô-los na linha. É preciso dominar. O que era preciso era um Salazar!)

Os fantasmas não desaparecem, não se evaporam quando o corpo que os portou morre. Eles permanecem vigilantes, atentos, entre o antes, o agora e o depois, na sua característica anacronia obsidiante. Eles vivem (se é que um fantasma pode viver) no quotidiano de todos nós, no mais simples pensamento, na mais ligeira anedota ou dizer, nos mais despreocupados ditados que se projetam nas coloquiais conversas sem sentido que todos os dias preenchem a nossa interação verbal. 

É na língua do outro que acontecem as conversas. É num código definido antes de mim e antes de ti que o mundo vai tomando forma – já formada em si mesma pelo rastro dos eventos de interação que se deram dentro desta língua, por todos os outros que nos antecederam e por todos os outros que antes destes chegaram e partiram. A língua está marcada pelas relações que se foram formando e formatando, assim como as relações são pautadas pela língua. Não há aqui qualquer tipo de determinismo. Se assim fosse, este texto jamais seria escrito e nunca poderia ser feito um apelo ao re-pensar da língua e da linguagem. O que está aqui em causa é a herança que a cada palavra, a cada frase, parágrafo ou texto se faz sentir. 

Há uma tendência para esquecer isto e pensar a língua como algo inócuo ou vazio, que nasceu connosco, com cada um de nós, até mesmo como propriedade privada ou de um certo grupo, fechada ao resto do mundo numa comunidade de irmãos (comunidade fraternal – liberdade, igualdade, fraternidade).

(Quem são estes irmãos? O que é preciso para pertencer a esta fraternidade? Língua? Sangue? Cor? Sexo? Preferência sexual? Quem decide? Porquê? Quantos são e como contar?)

Velhos fantasmas apresentam-se em corpos novos, com novos mantras e novos já sempre velhos inimigos. As suas roupas não mais são as fardas militares, por vezes nem reminiscentes da polícia são, mas continuam a ser um uniforme, continuam a marcar uma autoridade que se quer intocável. As frases que pautam os discursos não mais são as mesmas, mas nelas pode ver-se um rasto que nos conduz aos confins sangrentos de um passado que não é assim tão remoto e que está bem vivo nas cicatrizes abertas de quem o viveu e ainda hoje o vive, de quem vive o passado dia a dia, como se o futuro não tivesse lugar neste presente que é tudo menos um presente.

A filosofia no pós-pandemia não pode esquecer-se de pensar o poder que, aos poucos, nas últimas décadas, se vem estabelecendo e que muitas vozes pedem que seja agora ainda mais endurecido, ainda mais enforced. É preciso pensar (e pensar é já sempre agir) as novas relações de poder que vão tomando as formas dos poderes “tradicionais”, mas que, ao mesmo tempo, as transformam na sua forma etérea e, por isso, mais intrusiva, mais subjugante, mais alienante. A crise pandémica que hoje enfrentamos apela ainda mais ao pensamento sobre as formas e os discursos dos novos poderes e das novas formas de controlo. Um novo fascismo (se é que ainda podemos utilizar esta palavra sem acabarmos por perder o seu significado) continua a surgir e a insurgir-se por todas as autoproclamadas democracias ocidentais. É novo, mas as suas causas não o são. Elas vão-se repetindo enquanto os seus portadores as apresentam como único e irremediável caminho para a salvação. Mas o que querem eles salvar? O que escolhem eles salvar e porquê? Sempre eles: porque é d’eles que se trata, do masculino, do homem que vê o seu poder ameaçado, a sua hegemonia a fraquejar. 

(É preciso reavivar os mitos, as lendas, os poderes e os privilégios que o passado nos legou)

Os fantasmas são persistentes e assombram-nos diariamente. É preciso exorcizar: exercício contínuo que não pode nunca ser parado.

É insuportável ver a história repetir-se, um vai e vem perpétuo que sobre nós se insinua, sobre cada uma das nossas vidas. Os erros do presente continuam os mesmos do passado, deixando-se ficar, pacientes, para se declararem a si mesmos no futuro enquanto novidade.

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1994 – Viseu. Data e local de nascimento. Cresce em Canas de Senhorim. Licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra. Está actualmente a frequentar o mestrado na mesma área de estudos. Publicou um livro de poemas intitulado Eternidade.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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