Foto de Arlington County | Flickr

Vivemos tempos de guerra. O que quer isso dizer? O que é um tempo de guerra? Guerra com quem? Quem participa desta guerra? Quem pode sair vencedor? Que duas frentes se manifestam em sucessivos combates? Falam-nos em linhas da frente, em soldados que se arriscam por nós, em movimentações de tropas e martírios. Mas uma pergunta se impõe: qual/quem é o verdadeiro inimigo?

Uma guerra é um estado de excepção. Um estado em que o clima civil e político está de tal forma deteriorado que a soberania de um estado é posta à prova através de múltiplos conflitos, sempre com pelo menos dois lados opostos. De um lado e de outro amontoam-se os mortos. A vida fica cada vez mais curta e mais dolorosa. Filhos e pais enfrentam-se e matam-se nas mais terríveis condições. As lágrimas e o sangue fundem-se nos abraços dos que sobrevivem por mais um dia, assim como mancham a terra onde jazem os mortos. O medo e o terror tornam a realidade insuportável, e dela tenta-se escapar, seja como e para onde for, com a certeza de que nem sempre de lá se volta. É uma volta inacreditável. Volta e revolta na morte do mesmo, daquele que além já morreu e que aqui tem de voltar a morrer perante mim. A volta apanha-nos de surpresa e suja-nos a existência pelas decisões que nos força.

A guerra é algo muito humano e o seu significado é vasto, se é que algum. As diferenças que nos separam, mas que, ao mesmo tempo, sempre ao mesmo tempo, nos tornam tão iguais, tão verdadeiramente humanos, moldaram-nos até tal como somos hoje. Um processo ainda nunca acabado. É assim que nascem e morrem os povos. Que se disseminam religiões, ideologias, credos. Do fogo, do sangue e das lágrimas surgiram e desapareceram as nossas características. Sempre heterogéneas. Sempre em disputa.

É, então, o que vivemos hoje, uma guerra? De certa forma, sim. Tendo em conta de que parte dos meios de produção que continuam activos voltaram-se para o auxílio ao combate (poucos, mas com grande valor).  No entanto, fundamentalmente, não.

Em Capitalist Realism, o autor inglês Mark Fisher trabalha uma frase atribuída tanto a Fredric Jameson como a Slavoj Žižek: “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.”¹ Esta é uma frase que ressoa hoje mais verdadeira do que nunca. Num tempo em que as instituições do capitalismo neo-liberal falham quando deveriam responder à urgência do momento, em que o todo poderoso mercado se retrai e deixa a descoberto as suas falhas, que são também as suas características fundamentais, não se pensa (ainda) em quebrar o sistema – já por si mesmo enfraquecido. É preciso levantar o monstro. É preciso que ele volte rugir e a trabalhar com ainda mais força do que antes. É preciso reestabelecer o normal – palavra esta que tem muito mais implicações do que é normal pensar-se.

É um estado de guerra – mas não tem, essencialmente, resultado algum. É um estado de guerra na medida em que há uma causa comum. No entanto, as prioridades são muito diferentes entre os vários estratos sociais – até mesmo conflituosas.

Com isto tudo, talvez fiquemos um pouco mais alienados de nós mesmos. Talvez a distância social venha a permanecer indefinidamente no seio da nossa relação com o outro. Talvez possamos agora aproveitar a quebra do consumo para consumirmos mais do que nunca, para que possamos trabalhar mais e consumir mais – vai e vem infinito que nos arrasta sem condição.

Ou talvez não.

Talvez a capacidade de entender a realidade se esteja a alterar. Talvez possamos agora lutar pelos nossos verdadeiros interesses. Talvez agora percebamos que aquelas horas a mais que fomos fazendo não compensaram quando vemos os nossos colegas a ser despedidos e nós mesmo a ficar em layoff, tudo isto enquanto o nosso tão amado emprego continua a produzir porque tem de produzir, forçando muitos de nós e dos nossos colegas a arriscarem a saúde e a vida, suas e dos seus. 

Este estado de guerra vem abrir o pano à cena de verdadeira guerra que é o quotidiano de muitos de nós. Vem dar ainda mais luz às desigualdades contra as quais  lutamos todos os dia, à opressão que sofremos por um salário que é já sempre tão frágil como muitos o vêem ser neste momento. Vem mostrar-nos as escolhas de empresas e instituições que muitos de tomavam como família, mas que nos momentos mais críticos descartam a responsabilidade que têm para com a sociedade da qual vivem, imputando essa mesma responsabilidade nos ombros dos trabalhadores que mais não têm do que o pouco que elas se dignam a pagar-lhes.

É sem dúvida uma guerra, mas de múltiplas frentes.

“É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Esta frase capta precisamente o que quero dizer com ‘realismo capitalista’: o sentimento difundido de que não só é o capitalismo o único sistema político-económico viável, mas também de que é agora impossível imaginar uma alternativa coerente.”²

Talvez este seja o mote para acordarmos deste realismo.


¹ Fisher, Mark, Capitalist Realism, Zero Books, 2009, p. 2

² Ibid.

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1994 – Viseu. Data e local de nascimento. Cresce em Canas de Senhorim. Licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra. Está actualmente a frequentar o mestrado na mesma área de estudos. Publicou um livro de poemas intitulado Eternidade.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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