Manifestação Geração à Rasca, 12 de Março de 2012 | Imagem retirada de Esquerda.net

Volvidos 91 anos de A Revolução Permanente, de Leon Trotski, as sociedades estão cada vez mais precárias. Sob a promessa de solução para as sociedades, o capitalismo trouxe o colapso dos mercados e com isso o atraso social, o desinvestimento público e o empobrecimento dos trabalhadores. Assistimos, hoje, a uma decadência dos rendimentos dos trabalhadores. Os trabalhadores portugueses estão, hoje, encurralados a um sistema perpetuado de um baixo salário mínimo nacional que só tem tornado o trabalho dos portugueses ainda mais miserável.

Foi das lutas sociais, das lutas sindicais e das lutas dos trabalhadores (resultantes da revolução industrial) que se começou a valorizar o esforço real dos trabalhadores. Dois séculos depois estamos, novamente, a discutir a questão da valorização do trabalho e dos trabalhadores.

O salário mínimo em Portugal é dos mais baixos da União Europeia. Só a Lituânia, a Estónia, a Polónia e a Bulgária têm salários mínimos inferiores a Portugal. Os últimos dados1 do Portal PORDATA mostram que a média do salário em Portugal se situa nos € 970,40 (dados de 2018), enquanto que a média dos salários na União Europeia se situa nos € 1995,002, ou seja, estamos a perder, em média, € 1024,7 mensais. Quer isto dizer que o projeto Europeu está em risco. Este modelo económico perpetua o assistencialismo aos portugueses e portuguesas mais carenciados, tornando-os reféns da caridade. Quem trabalha, hoje, em Portugal tem de dobrar a jornada de trabalho para conseguir sobreviver à decadência dos salários. O salário que deveria pagar todas as despesas dos trabalhadores e das suas famílias tornou-se numa ginástica financeira. O aumento salarial não pode estar refém de um grupo de empresários (em maior número que as centrais sindicais e o governo) que em nada luta pelas condições sociais dos trabalhadores: (i) são os trabalhadores quem paga os salários com o seu trabalho e (ii) o salário médio não chega para cobrir todas as despesas mensais de uma família.

Podemos ou não falar de luta de classes no século XXI?

As novas tecnologias trouxeram um avanço significativo nas sociedades ocidentais. Mas trouxe aquilo que mais se temia: a dispensa do “trabalho vivo”. Hoje, o centro da realização capitalista reside na especulação de um sistema que substitui o “trabalhador presente”. A importância do trabalho humano instalou-se num pequeno grupo de “empreendedores” que conseguiram mecanizar a economia: (i) os portageiros estão a ser substituídos por máquinas, (ii) os funcionários das caixas dos super- e hipermercados estão a ser substituídos por máquinas, (iii) as linhas de montagens nas fábricas estão a substituir cada vez mais os trabalhadores, etc. Este “atraso” vai deixar a sociedade portuguesa devastadas, porque esta sociedade não está preparada para tal avanço. Os sucessivos governos não trabalharam o suficiente para preparar a sociedade e os trabalhadores para a mudança do sistema do trabalho. Instalou-se a precarização do trabalho.

É legítimo, então, repensar a luta de classes!

Quando Marx e Engels definem n’O Manifesto Comunista que a história das sociedades é a histórias das lutas de classes desenham um princípio intemporal. O capitalismo, por outro lado, vem destruir o conceito de sociedade igualitária numa promessa de prosperidade. O que nos não disseram é que, a par da prosperidade, estava instalada a falsa meritocracia. O capitalismo fomentou as desigualdades sociais e económicas. E mais importante que isso, o capitalismo destruiu a noção de classe unitária. Com o desmembramento do conceito, houve uma subversão de valores: o portuguese dream. Para ascendermos a cargos mais altos, somos capazes de aniquilar aqueles que estão na “cadeia” logo abaixo. A sociedade que ascendeu a cargos de chefia, a hegemonia neoliberal, acha-se no direito de afirmar que não pertence à mesma classe trabalhadora que a funcionária que limpa os espaços onde todos nós trabalhamos. É inimaginável pensar que a sociedade está organizada consoante o cargo que ocupamos, porque no final pertencemos todos à mesma classe: os trabalhadores. A dimensão de unidade perdeu-se. O capitalismo criou um proletariado contemporâneo que tem criado a sua própria sepultura.

A luta de classes no século XXI é imperativa. Quando Marx especulava sobre o caminho para a interpretação da revolução socialista já previa uma atualização constante da revolução do proletariado. Apesar de a Revolução ser permanente é necessário que se (re)pense a teoria marxista para que esta sociedade de trabalhadores se una e se alie para reivindicar aquilo que o capitalismo e o neoliberalismo lhes roubou.

É preciso não nos esquecermos de lutar pelos direitos conquistados.

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Linguista, investigador científico, feminista e ativista social.
Nascido em Lisboa, saiu da capital rumo a Terras de Trás-os-Montes e cedo reconheceu o papel que teria de assumir num interior profundamente desigual. É aí que luta ativamente contra as desigualdades sexuais, pelos direitos dos estudantes e dos bolseiros de investigação. Membro da Catarse - Movimento Social, movimento que luta contra qualquer atentado à liberdade/dignidade Humana. Defende a literacia social e política.
(O autor segue as normas ortográficas da Língua Portuguesa)

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