O racismo estende-se desde o ato de violência sobre corpos negros à sutileza da justiça nesses casos. A violência sobre os racializados é mais tolerada não só pela população, como pelas instituições de justiça, e o caso de Bruno Candé é um de muitos que provam isso.

As primeiras reações na opinião pública acerca do crime da semana passada foram os inúmeros pedidos de contexto e os “do costume” a quererem saber do passado de Bruno como cidadão. Como se, o facto de Candé ter sido uma pessoa pacata e simpática durante a sua vida tornasse o crime mais, ou menos, hediondo.

Não deveria ser preciso falar-se bem de uma vítima para que lhe seja feita justiça. Este problema, infelizmente, é recorrente na nossa sociedade. Já no caso de Giovani Rodrigues, estudante cabo-verdiano assassinado brutalmente no início deste ano, também houve a necessidade de se referir várias vezes que este era um estudante e jovem exemplar para que fosse criada empatia.

A verdade é que, quando o criminoso pertence a um grupo social não marginalizado, há uma tendência a traçar-se imediatamente um perfil psicológico com possíveis patologias que justifiquem o seu comportamento.

Esta adversidade não é exclusiva a crimes de origem racial também ocorre, por exemplo em crimes entre homens e mulheres. Quando Beatriz Lebre foi assassinada ouvimos falar muito sobre o seu assassino, pintado como um cidadão do bem, um jovem “charmoso”.

Tudo isto, de forma a tornar a vítima num vilão ou numa vilã. Todos nós vimos e lemos as diversas campanhas de difamação de forma a descredibilizar os motivos raciais por de trás do crime que matou Candé. Mentiras foram espalhadas e relatos da vizinhança e de familiares ignorados. Mentiras essas espalhadas, apenas para muitos ficarem com a consciência tranquila e puderem fingir que está tudo bem na nossa sociedade. Foi preciso o próprio criminoso proferir estar orgulhoso dos tiros disparados para anular maior parte desses pensamentos.

Muitos afirmam que Portugal é um país de brandos costumes. Admito que, o nosso país tenha potencial para o ser mas nunca o será enquanto tolerarmos que seja dito que o nosso país não é racista ao mesmo tempo que deixamos pessoas morrerem depois de ouvirem “volta para a tua terra” e acharmos por bem normalizar as sucessivas tentativas de culpabilização das vítimas.

O que ficou mais que óbvio com homicídio de Bruno é que, Portugal não consegue ainda reconhecer (sequer) um caso de racismo explícito. Como podemos abrir então a discussão sobre o racismo cultural, endógeno e sistêmico deste país?

Sim, porque, a sociedade portuguesa ainda nem sequer tentou ultrapassar os mitos coloniais. Não houveram processos culturais de mitigação de mentalidades apologistas dessa época tão horrenda, nem parece haver intenções sequer de admitir os nossos erros do passado.

Apesar da dificuldade de abrirmos esses debates, o primeiro passo deve ser sempre reconhecermos a existência de racismo no nosso país, de modo a conseguirmos lutar contra ele. De modo também a abrirmos o espaço para a responsabilização, para a discussão e reflexão sobre a mudança, e dar voz às pessoas que sofrem desse racismo, às suas experiências pessoais e às suas ideias para a obtenção de justiça social entre todas e todos os cidadãos no sistema democrático.

Estamos em 2020, não deveria ser necessário exigir e continuar a lutar por igualdade para todos e todas, mas enquanto existir necessidade disso, a luta continuará.

Jovem ativista estudantil da Beira Alta, natural de Fornos de Algodres. Atualmente faz parte da Greve Climática Estudantil - Guarda e da Plataforma Já Marchavas.

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