Tu talvez nem sejas facho,

nem é tampouco surpreendente

teres só o cérebro tão dormente,

que te torna cego ao tacho,

de que não te apercebes ser o negócio

(no qual cioso cogita o consórcio),

que ele não quer combater

(é mui sedutor o poder!),

quer é partilhá-lo com os amigos,

enquanto a ti ilude com uns primevos castigos.

 

Nem percebes seres um mísero peão,

alimentado de palha à pazada,

tão cego com promessas de nada,

que nem vês que te tiram o chão,

te recusam o futuro e um cibo de pão.

Entretanto, cego, surdo e mudo,

barafustas, apedeuta e massudo,

em negação do real e reles papão.

 

Talvez até nem sejas muito burro.

Porém, também, pouco tens de esperto,

ainda que te aches «O Desperto».

E esse murro,

que achas ter dado na mesa,

foi valente na tua cara e em cheio,

podes disso ter a certeza.

 

Tal é a inveja que tens do bem alheio,

que renegas os teus próprios direitos,

entretido a criticar noutrem os teus defeitos.

É claro que não queres ser escravo,

mal seria!

Porém, em verdade, também não és cravo,

és veneno perigoso e de curta vista,

quando o maior crime para ti é a etnia.

 

E tanto te ofende a palavra socialista.

Que tu ignavo nem queres perceber o que é isso.

Mas tens um alerta activo, que logo se te abre a goela:

«Aqui-d’el-rei e a Venezuela?»

Sempre esse ignaro bitaite para encher chouriço…

 

«E agora insultar pretos é racista!»

Abominação que tu não és, mas…

Assim como não és machista,

mas… «s’a gaj’às merece!», és bem capaz.

E nem falemos sequer nos ciganos,

porque esse estrabismo já dura há imensos anos.

 

Sei bem que há, hoje em dia, um excessivo zelo,

nesta onda do politicamente correcto,

mas esse teu ódio não tem nada de insurrecto;

É verborreia. É a mancha que na cueca é selo!

 

Ai!, essa cegueira meu rapaz,

que só te orientam as palas para o monhé.

Antes fosse esse ódio perspicaz,

para que visses que quem te rouba é o Zé.

Sim, esse mesmo lá da empresa,

que canta de mão no peito, A Portuguesa.

 

Heróis do mar,

com saudades dum Salazar?

Os teus filhos na mocidade a marchar,

nem cama, nem casa, nem roupa, quando mais lavada,

à hora das refeições comes do ar,

e anda calçado, senão levas uma lambada!

 

Traumas e armas trouxe o teu avô da guerra?

O meu perdeu lá a casa e a minha mãe a sua Terra.

E nem é como se o conflito não pudera ser evitado,

o mundo já bem o avisara, mas o tipo era atrasado.

 

Louvas, então, jactante, de braço estendido,

a mão no ar do «André Cocó»,

mandando-me para a Terra da minha avó!

E ainda achas que errado é quem fica ofendido?

 

Contudo, percebo-te, acredita que sim.

A vida não é um mar de rosas,

isso só acontece em poemas e prosas,

louvores épicos e  outrossim,

daqueles onde se louva a nação,

e a sua fundadora diversidade.

Pelo que rejeitares a igualdade,

só faz de ti um parvalhão.

 

Não és racista, nem xenófobo, és nacionalista?

Acorda, caralho!, és um porco fascista.

 

Pois é, insultar é tarefa fácil,

educar é arte mais táctil!

«Suave mari magno», não é?

Mas é para o que me sinto tentado,

sempre que me olhas de lado,

imaginando-me a penar em autos-de-fé,

só porque penso e sou diferente,

porque onde vês diferença, vejo gente.

 

Sei bem que estás e pelo que estás desiludido,

é preciso, urgentemente, combater este sistema.

Mas sei, também, que andei iludido,

porque esse teu ódio é um enorme dilema.

Pensei que tivéssemos já aprendido

e que, por ora, a história nos houvesse ensinado,

com o horror de cada cadáver estendido,

para teres, hoje, esse lombo cevado.

 

E escreves todo pomposo, «hashtag» vergonha.

Olha antes, atentamente, para ti. Português de bem?

Envergonhas é a lusa pátria mãe!

É essa a tua honra, um par de «likes» de peçonha?

 

E sim, sou um «esquerdalho», um pseudo-intelectual.

Se assim é como me vês, que seja «português de mal»!

Estandarte que carregarei bem alto, com orgulho e triunfal,

porque, ao contrário de ti, me envergonho do Tarrafal.

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Nasceu em Macedo de Cavaleiros, Coração do Nordeste Transmontano, em 1983, onde orgulhosamente reside. Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, publicou poemas e artigos na extinta fanzine “NU” e em blogues, antes de editar em 2015 o livro-objecto “Poesia Com Pota”. Defensor acérrimo da regionalização foi deputado municipal entre 2009-2013.
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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O renascer da arte a brotar do Interior e a florescer sem limites ou fronteiras. Contos, histórias, narrativa e muita poesia.

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