Imagem retirada de Esquerda.net

Os regimes no Irão e no Iraque enfrentaram nos últimos meses protestos de larga escala, que incluíram ataques populares à embaixada Iraniana em Baghdad, mesma cidade onde tem lugar o ataque mortífero à embaixada dos EUA, que desencadeia o assassinato e que está integrado numa escalada ofensiva do Irão, que incluiu ataques à capacidade de produção petrolífera da Arábia Saudita e ao comércio transnacional no Golfo.

Como é prática comum de regimes e líderes autoritários e totalitários, de Trump a Kim, passando também pelo Ayatollah, a construção de uma crença partilhada de ameaça e o seu reforço através da “maquilhagem” de acontecimentos, serve um papel nuclear na legitimação interna do líder e do regime. Como Trump cultiva a ameaça da China, o regime iraniano cultiva a ameaça dos EUA para reforçar o seu discurso e hegemonia interna. O sucesso desta estratégia no Irão está provado pelo facto de, depois do assassinato, termos visto novas manifestações em Baghdad e Teerão, mas desta vez de apoio.

Qassem Suleimani morre, mas morre como um peão que tomba deixando o rei adversário fechado a um canto: precisamente no ato de escalada injustificada que esperava dos EUA em resposta à escalada recente de agressividade para gerar a onda de apoio interno e até regional necessário à segurança e estabilidade a curto prazo do regime iraniano.

A resposta do Irão, que tem todo interesse interno em cultivar a belicosidade, será apenas tão moderada quanto entender que está exposto à influência direta estado-unidense. São expectáveis novos ataques na Arábia Saudita e Golfo, bem como aceleração do enriquecimento de urânio e intensificação da pressão sobre o Iraque, de onde os EUA afirmam não ter intenções de retirar e onde podemos esperar os confrontos mais diretos do conflito, como o mais recente lançamento de mísseis terra-terra com pré-aviso.

Comentários recentes de elementos do Pentágono expõem a proposta de assassinar Suleimani como tendo sido a mais “extrema” das diversas incluídas no briefing que foi preparado para Trump, tendo a sua escolha inesperada motivado perplexidade entre os seus próprios agentes. Assumindo que não estão entregues aos devaneios de um lunático, os EUA estão, na realidade, a trocar a existência de pressão interna sobre o regime iraniano, que aumenta com ausência ou redução da agressividade americana, por reforço do seu próprio discurso interno de ameaça, particularmente visível no que toca ao programa nuclear, influência junto dos atores regionais mais moderados e alinhados, agora simultaneamente mais importantes para, e dependentes, do seu “Senhor Feudal, e por um alinhamento mais direto com os objetivos estratégicos de Israel.

Os grandes erros de cálculo estado-unidenses residem na pouca volatilidade prevista para o regime Iraquiano, que acabou por demorar menos que uma semana a transitar de um estado de manifestações anti-Irão para a aprovação formal no seu órgão legislativo da expulsão da “Task Force” Internacional liderada pelos EUA, e na resposta moderada do Irão, mesmo perdendo o Líder de facto das suas Forças Armadas, enfraquece os argumentos por trás do discurso de ameaça deTrump, que se foca então no seu discurso em preparar o campo para novos ataques.

A resposta aparentemente moderada de Trump ao ataque direto sem vítimas às bases de Al-Asad e Erbil, no Iraque, e o seu recuo em relação aos crimes de guerra contra património, a primeira vez que um seu assessor o contradiz publicamente e não acaba a demitir-se, parecem demonstrar que a leitura de Trump reconhece o efeito interno negativo de gerar abertamente um conflito de larga escala, mas a sua opção por vincar a prioridade de impedir o progresso do programa nuclear iraniano assume-se como a pancada mais sonante do tambor estado-unidense e parece representar o caminho alternativo deixado por Trump para reativar a escalada de agressividade.

Quem fica a rir, a curto prazo? Putin e Pequim, que, sem custos, vêm o “Olho Internacional” focar de novo o Médio Oriente Pérsico, onde a sua expansão de influência é limitada e o alinhamento norma, em detrimento de outras regiões onde os interesses destas duas potências assumem características e padrões mais expansionistas e diretamente questionáveis na cena Internacional. A título de exemplo, será que, com o mundo a pensar em evitar Guerra no Golfo, as manifestações de Hong Kong ou a obliteração de Rojava terão tanto destaque?

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Nascido em Vila Real em 1999, concluiu o ensino secundário na EBS Camilo Castelo Branco, onde exerceu funções como Presidente da Assembleia Geral e da Direção da Associação de Estudanes e Representante de Alunos no Conselho Geral.
Concluiu um Certificate of Higher Education em Ciências Biomédicas na University of Surrey, UK, antes de começar a cursar Ciência Política e Relações Internacionais na FCSH-Universidade Nova de Lisboa, em 2018/19.

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