31 de outubro é uma data associada ao “Dia das Bruxas” ou ao “Halloween”, mas também a um crescente fervor consumista: são as fatiotas, os baldes a imitar abóboras, as teias falsas, os doces temáticos. Mas antes de tudo isto e sem tudo isto, a data já era assinalada: como?

A tradição de assinalar este dia, embora por vezes possa parecer relativamente recente, pela associação à importação dos Estados Unidos da América, tem raízes que remontam a épocas pré-cristãs.

Pela mesma altura do ano, seria celebrado pelos povos celtas gaélicos o Samhain, o festival das colheitas que assinalava o fim do verão. Como muitas outras celebrações celtas, esta também terá sido cristianizada e convertida naquilo que hoje conhecemos como Dia de Todos os Santos.

Na origem “pagã”, embora pouco se saiba, fala-se de uma altura do ano de homenagem e recordação dos que já haviam morrido, fala-se de uma altura de grande proximidade entre o mundo dos vivos e os espíritos dos mortos. Princípio que não é muito diferente do que está por trás do que leva muitos cristãos a rumar aos cemitérios no dia 1 de novembro.

 

“Pão por Deus” e “Bolinhos e Bolinhós”

Em Portugal, mesmo antes do entretanto estabelecido Halloween, já existiam tradições como o “Pão por Deus” e os “Bolinhos e Bolinhós”, apenas a título de exemplo, pois muitas outras existirão.

A tradição do “Pão por Deus” está ligada ao culto dos mortos e ao dia dos finados. Na sua origem, está o costume de, por volta do dia 1 de novembro, oferecer alimentos, como pão, frutos secos e castanhas, aos defuntos, cujas almas andariam pelo mundo.

A tradição, como é hábito delas, transformou-se no sentido de passarem a ser os pobres, em representação dos defuntos, a receber de porta em porta os tais alimentos. Mais tarde, passam a ser as crianças a pedir o “Pão por Deus”.

Mas porque as tradições, além de se transformarem, também se adaptam às peculiaridades locais, esta é apenas uma descrição simplificada do que ocorre um pouco por todo o país. Um outro costume popular semelhante, embora talvez menos conhecido, é cantar os “Bolinhos e Bolinhós”.

Grupos de crianças saem à rua, de porta em porta, pedindo oferendas, até aqui tudo é semelhante ao “Pão por Deus”, mas nos “Bolinhos e Bolinhós” as crianças também cantam e transportam abóboras ou caixas com velas acesas no seu interior.

 

Bolinhos e bolinhós
Para mim e para vós
Para dar aos finados
Que estão mortos, enterrados
À porta daquela cruz
Truz! Truz! Truz!
A senhora que está lá dentro
Assentada num banquinho
Faz favor de vir cá fora
Para vir dar um tostãozinho.

Se abrissem a porta e oferecessem alguma coisa:
Esta casa cheira a broa
Aqui mora gente boa.
Esta casa cheira a vinho
Aqui mora algum santinho.

Caso não abrissem a porta:
Esta casa cheira a alho
Aqui mora um espantalho
Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto.

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