Presidente de Penamacor recandidata-se depois de Relação decidir que vai ser julgado por viagem à Turquia

Câmara Municipal de Penamacor
Câmara Municipal de Penamacor
Foto por Vitor Oliveira from Torres Vedras, PORTUGAL, CC BY-SA 2.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0>, via Wikimedia Commons
Tribunal da Relação de Coimbra decidiu julgar o presidente (recandidato em 2021, pelo PS) e o vice-presidente da Câmara Municipal de Penamacor, que foram a Istambul com viagens pagas por uma empresa informática.

A informação é adiantada em notícia do Público. O Tribunal da Relação de Coimbra deu assim razão ao recurso do Ministério Público, a 12 de maio, em sentido contrário ao despacho da juíza de instrução que optou, em Fevereiro, por não pronunciar os dois autarcas por considerar que a aceitação da viagem se enquadrava nos “usos e costumes”.

Em causa está uma viagem de quatro dias a Istambul, em 2015, de António Luís Beites Soares (presidente desde 2013) e Manuel Joaquim Ribeiro Robalo (actual vice-presidente e vereador desde 2013), paga pela empresa de informática ANO – Sistema de Informação e Serviços, Lda.

O anúncio da recandidatura do presidente da câmara foi feito no início desta semana, cinco dias depois de o Tribunal da Relação ter decidido levar os três arguidos a julgamento.

No acórdão, a que o Público teve acesso, os juízes desembargadores, Luís Ramos e Belmiro Andrade, decidem agora “conceder provimento ao recurso, revogando a decisão recorrida e determinando a sua substituição por outra que, não havendo outros obstáculos a apreciação de mérito, pronuncie os arguidos nos precisos termos da acusação”.

“Pelas funções que desempenham, os arguidos são pessoas com formação e preparação intelectual acima da média, não podendo deixar de ter a noção da inadequação e de propósito da viagem oferecida no contexto das funções que cada um deles desempenhava. (…) Assim, tudo conjugado à luz dos critérios de normalidade e senso comum, conclui-se pela existência de indícios suficientes da prática dos factos e crimes imputados na acusação, impondo-se por isso a procedência do recurso”, pode ler-se no acórdão.

Os autarcas foram acusados pela prática, em autoria material e na forma consumada, de um crime de recebimento indevido de vantagem. Manuel José Carvalho da Cunha Amorim (sócio-gerente da ANO), é o terceiro arguido, indiciado pela prática desse mesmo crime na forma agravada, também indo a julgamento.

Autarcas e técnicos de quinze câmaras do PS e do PSD foram convidados pela ANO para a viagem, nos quais se incluem os dois políticos de Penamacor, município que firmou negócios com a empresa de informática entre novembro de 2015 e dezembro de 2018. “Em resultado e na sequência das relações comerciais estabelecidas com a empresa do arguido Manuel José Carvalho da Cunha Amorim, o município de Penamacor já despendeu, até ao momento, a quantia global de €62.446,20”, lê-se na decisão dos magistrados.

A defesa argumentou que a viagem tinha como fim “organizar um encontro de utilizadores” para “dar a conhecer a nova versão de produtos, designadamente, de gestão documental, possibilitando ainda uma troca de experiências e partilha de conhecimentos entre os utilizadores e os próprios trabalhadores da ANO”. Também estaria em causa uma ação de formação, que não convenceu os desembargadores, segundo o Público.

“Em termos de distância percorrida, local escolhido, investimento necessário para as alegadas horas de formação, objectivamente, a viagem surge como despropositada e desproporcionada para o fim em vista. Não existe racionalidade económica correspondente à alegada acção de formação, tempo destinado a tal, tanto mais numa viagem de quatro dias, dois deles para as viagens de ida e regresso”, escrevem.

“Acresce que a justificação — formação em programas informáticos — carece de suporte. Não só porque os beneficiários não tinham habilitações nessa área que cumprisse aperfeiçoar ou desenvolver, como as funções de natureza política e decisória exercidas pelos dois primeiros arguidos, evidenciam o contrário”, acrescentam ainda.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Related Posts
Foto da reportagem "As cartas que nunca escrevi" de Sara de Melo Rocha. TSF.
Ler Mais

Reportagem TSF sobre projeto da CooLabora vence Prémio APAV

"As cartas que nunca escrevi. Os silêncios das sobreviventes da violência doméstica", foi distinguida com o Prémio APAV para o Jornalismo 2021. O trabalho visita uma das oficinas de escrita autobiográfica que todas as semanas se realizam na Covilhã.
Skip to content