Por cá, chamamos-lhe chafariz.
Brota água que desce da nascente até ao Largo, onde em tempos anteriores à canalização, com cântaros se “aparava”. Ainda cá há cântaros e chafarizes, mas também já há água canalizada.
Carregamos ainda no fundo da memória a imagem dos cântaros a contra luz, à cabeça no alto de uma rodilha, não tombassem os cântaros e a água chegava ao seu destino.

Na versão original de um artigo do P3 inserido no Fugas, acerca da nova Orquestra Sem Fronteiras, não havia referência à Unesco nem ao Boom, apresentava-se Idanha-a-Nova como um deserto onde a música não chegava, onde nem chafariz havia, muito menos quem carregasse os cântaros. Depois do alvoroço provocado por tais declarações, viu-se a jornalista talvez forçada a alterar o texto original.

O artigo atual pode ser encontrado aqui.
Possivelmente não contavam, nem o autor das declarações nem a autora do artigo, que neste “deserto” fossem encontrar gente talhada a granito, pouco dada à condição de bicho de zoo.
Esperávamos que logo a seguir à publicação do texto original se seguisse um pedido de desculpas, não uma mudança do texto pela calada.
Um maestro não se deve limitar a dar entradas e marcar compassos. Quando tem uma orquestra de jovens músicos a seu cargo é também sua função inspirá-los, não ofendê-los. Os músicos que integram a Orquestra Sem Fronteiras são naturais desta região apelidada de “deserto”. Se na versão “corrigida” já há referência à qualidade dos integrantes da orquestra, alunos de escolas da zona da raia, o post original com o artigo original e com um comentário de uma aluna que indignada pediu que não ofendessem todos os músicos formados na região, desapareceu … aparentemente o artigo original do P3 já não tem cabimento no mural do Centro Cultural Raiano.
Os “Lsboetas” (a omissão do “i” é propositada) insistem nesta imagem de que tudo o que fica a mais de 60 minutos do mar é deserto… discordo completamente e parece-me que todos os que nascemos a mais de 60 minutos do mar devemos discordar. Talvez do mar não seja a referência correcta, mas sim: todos os que nascemos a mais de 40m da Lapa, Cascais ou Estoril. Como tudo o que sai do raio de acção deste círculo com centro na zona metropolitana de Lisboa não existe, o actual maestro da Orquestra Sem Fronteiras assumiu que nada existia por estas bandas… bem, pelo menos até à revisão de texto.

Obviamente que que se tratou de uma questão de esquecimento! Esqueceu-se do Festival Fora do Lugar, dos Cursos Internacionais de Música Antiga, também se deve ter esquecido que a pianista Maria João Pires regressou a Belgais, a apenas alguns kilómetros da sede do projecto que comanda.

Seria impensável que se tivesse lembrado que há um ciclo de música contemporânea com base na Guarda mas que junta os municípios de Castelo Branco e Viseu e podia continuar com os exemplos que, como é óbvio, o maestro se esqueceu.
E, depois há a questão do “Oásis” … agora apresentada como uma metáfora mas que no original aparecia como o resultado do trabalho de salvamento que este “Lsboeta” se comprometia a realizar no deserto. Tarefa árdua, sem dúvida, digna de um super herói,que os cântaros pesam e na imaginação dos “Lsboetas” a canalização é privilégio da capital. Está bem de ver que criar um Oásis com o tubo a correr para dentro da charca é sempre mais fácil que carregar a água, cântaro a cântaro.
A escolha… bem, na primeira versão a escolha baseava-se na inexistência de música no local. Na versão corrigida foi Idanha-a-nova que escolheu receber o projecto. Mudança total mas ainda se por lá pode ler o “Aqui é que não há nada”, agora colocado um pouco a contra tempo ( se me é permitido o uso do termo). Continua a ser a justificativa para a escolha do local mas já com a atenuante da bênção municipal.
Depois de tentar omitir o facto de ter uma orquestra de jovens músicos de altíssima qualidade naturais e formados no interior, de ter também omitido o facto de haver muita música no local sede da OSF e arredores, de se ter apresentado como o herói salvador do deserto que não existe,só lhe falta uma coisa, ganhar consciência das barbaridades que proferiu na reportagem do P3 e pedir desculpa.

Ao contrário de Lisboa, nós recebemos de braços abertos, seja bem-vindo quem vier por bem. Só não façam de nós areias de um deserto que ondula ao sabor do vento da capital porque nós somos rochas que cortam os ventos.

O projecto OSF é válido e deve obviamente continuar o seu trabalho, mas com um maestro que não se limite a fazer de super herói dos livros aos quadradinhos. Na continuação das mudanças ao texto e declarações menos “geofóbicas” só lhe falta tirar a capa de super herói e aceitar que há vida para lá da Lapa, Cascais e Estoril.

Nasceu em Peraboa - Covilhã. Depois de alguns anos a estudar em Berlim , Hereford e Cardiff regressou a Peraboa.
Ao regressar tornou-se-lhe ainda mais evidente o fosso entre o interior e a capital.
Assume-se feminista, anti-geofóbica, contra as portagens, a favor do interior e da Cultura.

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