A maior gravura rupestre do mundo, dentro do seu género, foi encontrada ao ar livre por arqueólogos da Fundação Côa Parque, em Foz Côa. A gravura representa um auroque, ou boi selvagem, e encontra-se gravada numa rocha no sítio do Fariseu. A notícia chega no momento em que mais de cinquenta profissionais lançam um manifesto com o título “Arqueologia também é Cultura”, que apela que o país não permita a destruição do setor profissional que assegura a preservação de um dos seus principais recursos.

“Encontrámos, durante as escavações, a figura de um auroque com a dimensão de 3,5 metros, que é neste momento a maior [gravura] do mundo, dentro do seu género, encontrada ao ar livre, datada do período do Paleolítico Superior, com cerca de 23 mil anos”, declarou à Lusa o arqueólogo Thierry Aubry.

Aubry acrescenta que “no setor direito do painel identificou-se um outro conjunto de gravuras, contendo várias representações de auroques, veados e cavalos, todos sobrepostos, que se encontram ainda parcialmente sob sedimentos”.

Estas figuras “parecem fazer parte da fase mais antiga da arte do Côa, datada de há mais de 23.000 anos”, porém é “a continuação dos trabalhos e as datações físico-químicas” para uma maior precisão científica.

A rocha 09 do Fariseu representa um dos principais núcleos de arte rupestre do Parque Arqueológico do Vale do Côa, classificados como Monumento Nacional em 1997 e inscritos na Lista do Património Mundial da organização das nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), em 1998.

É lançado manifesto “Arqueologia também é Cultura”

A notícia chega no momento em que mais de cinquenta profissionais lançam um manifesto com linhas orientadoras para a Arqueologia no pós-pandemia. As e os signatários denunciam o facto de as fragilidades do setor do património cultural “potencialmente avolumadas em consequência da pandemia, não têm sido nem avaliadas nem objecto de propostas de mitigação”. E apelam a que o país não permita a destruição do setor profissional que assegura a preservação de um dos seus principais recursos.

Defendem o contributo dos arqueólogos, dos conservadores-restauradores, dos antropólogos, dos etnógrafos, dos ilustradores, dos historiadores, dos técnicos e investigadores, entre outros, como “agentes culturais, garantes da memória colectiva e da preservação da nossa história e cultura, e daquilo que nos define como indivíduos e comunidade”. Acusam a sombra do  “manto da precariedade” que paira sobre todo o setor da cultura, incluindo a Arqueologia. E denunciam o facto de a Arqueologia ser frequentemente “remetida para uma função subsidiária da construção civil”.

Apelam a que o Ministério da Cultura e os governos regionais e autarquias apresentem “medidas e apoios específicos para o património cultural”. Propõem que o Estado implemente um programa efetivo de “investimento no património cultural, nas vertentes de investigação, conservação, valorização e divulgação”. Reivindicam a implementação pelo Estado de “um programa sustentado de combate à precariedade (falsos recibos verdes) nos sectores privado, empresarial e público”. Defendem a reativação do “Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos, programa de apoio financeiro à investigação em Arqueologia, alargado também à remuneração de investigadores e outros profissionais, dirigido especialmente aos dados arqueológicos recolhidos em intervenções preventivas durante as últimas décadas, que permanecem por estudar e divulgar”.

Apelam também a que o Estado, autarquias e demais entidades depositárias “implementem programas de gestão, estudo, conservação e valorização do abundante espólio arqueológico que vem sendo, na melhor das hipóteses, apenas armazenado”. E que o sistema científico e tecnológico nacional “promova e financie programas de incentivo à investigação através de projectos ou bolsas na área da Arqueologia”.

O manifesto contém ainda a proposta de “um programa de incentivo à constituição de equipas municipais de Arqueologia”, sublinhando que o “trabalho extraordinário que o poder local democrático tem desenvolvido em prol do património cultural deve ser aprofundado e consolidado, para bem das comunidades locais e nacional”.

Texto original em esquerda.net, editado para o Interior do Avesso

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