Da falácia do que se quer fazer em Santa Comba Dão

Da falácia do que se quer fazer em Santa Comba Dão:

1. Já vi por aí dizer que sem Salazar não teria havido 25 de Abril. O 25 de Abril aconteceu porque o Movimento das Forças Armadas o levou a cabo. Gabar o Salazar por nos dar o 25 de Abril é como gabar os incendiários por permitirem aos bombeiros mostrar a bravura. Nesta linha, erija-se um monumento ao incendiário numa praça de Pedrógão Grande.

2. O museu ao Estaline é um erro, mas foi aberto em 1957, ainda no período da União Soviética, por Khrushchev. É como se o Marcello Caetano tivesse aberto um museu ao Salazar – seria compreensível que o tivesse feito, ainda que, repito, errado. O museu ao Estaline é a incorporação da característica mais negativa do Estaline, que deu azo a todas as outras: o culto da personalidade.

3. O que se prepara a Câmara Municipal de Santa Comba Dão a fazer não é museu nem centro interpretativo. Porquê? Para se fazer uma coisa ou outra é necessário haver (a) um espólio significativo e (b) um trabalho científico por trás. Quanto ao espólio trata-se tão só de objectos pessoais: estojo da barba, livros com anotações, chinelos (isto dito pela própria Câmara). Quanto ao trabalho científico, ao que vai sendo público, todas as pessoas que foram convidadas a incorporar o projecto acabaram por sair. Para ver a preocupação da Câmara em questão com fazer uma coisa séria, é saber que intenta começar os trabalhos sem haver uma equipa sólida (e séria) e sem tornar público o que pretende fazer.

4. A casa onde nasceu o Mussolini e onde nasceu o Estaline são museus às personagens em questão: tornaram-se locais de romaria. Para se perceber o que iria acontecer em Santa Comba Dão basta a tradicional romaria do 27 de Julho à campa do Salazar. A este propósito diga-se que em Julho de 2016 o governo da Áustria considerava seriamente deitar abaixo a casa onde nasceu o Hitler para que esta não se tornasse (ainda mais) num local de culto.

5. Comparar a seriedade de um museu (ou centro interpretativo – expressão pós-moderna para museu) na casa de nascimento do Salazar com os memoriais instalados nos campos de concentração Nazis é comparar merda com perfume. O primeiro, a ser feito onde o querem fazer, servirá a pouco mais que local de romagem e facilmente degenerará num local de culto do mais atroz personagem português, o segundo é uma homenagem a milhões de vítimas, precisamente, do impulso e loucura dum algoz como Salazar.

6. O apego que alguns locais têm a este projecto é o mais digno exemplo de provincianismo bacoco, desculpem que vos diga. É o “maior cá da terra”. Com todo o ridículo representado pelos Gato Fedorento na sua peça sobre o maior da aldeia. Um grito de desespero de quem nada mais sabe o que fazer pelo concelho que se candidatou a governar.

7. Querem fazer um Centro Interpretativo do Estado Novo? Façam-no em lugar neutro. De outro modo será sempre tão só um intentona para retirar dividendos políticos com o grave risco de normalizar a ditadura fascista portuguesa.

Outros artigos deste autor >

Mortaguense.
Fez rádio, envolveu-se no associativismo estudantil.
Foi formador de informática
Coordenou a CUDAP, dinamizou a luta e abaixo-assinado contra o Museu Salazar em 2007.
Emigrou para o Luxemburgo. Conduziu camiões, táxis e autocarros.
Voltou à formação, no seio da Comissão Europeia.
Apaixona-se pelo mundo pós-soviético e abre uma agência de viagens.
Estuda Filosofia Política.
Escreve regularmente no seu site http://lobo.lu/

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