O Interior do Avesso entrevistou Luís Cardoso, presidente do Club de Vila Real, Associação Cultural e Desportiva, sobre cultura, novos projetos do Club e a cidade de Vila Real. “Era realmente importante para a nossa cidade a criação de um polo ou de um espaço cultural que agregasse não só o Club de Vila Real, mas como outras entidades artísticas”.

O Club de Vila Real iniciou agora um novo projeto de investigação sobre a história cultural e artística da cidade. Em que consiste este projeto?

Este projeto é um projeto que consiste em investigação cultural em Vila Real. Isto já era uma ideia e algo que queríamos fazer há muito tempo. O Club em dezembro celebrou 126 anos, há dois anos, quando celebrámos o nosso aniversário de 125 anos, existiu uma investigação à história do Club e a toda a riqueza histórica e cultural que o Club desenvolveu nestes últimos 100 anos e desde aí que nós queríamos potenciar essa pesquisa. Até para nós, esta geração mais nova, como eu, que está agora na associação e no Club, também perceber melhor e entender melhor o que foi feito e o que era feito  no Club de Vila Real.

Este ano surgiu a possibilidade de apresentarmos uma candidatura. Este projeto é um projeto que está a ser apoiado pelo programa de apoio a projetos da DGArtes e contamos com o contributo importante do investigador Joaquim Barreira, que nos irá orientar e apoiar neste projeto… E no fundo é isto, basicamente é uma pesquisa de informação, de história relacionada com a comunidade artística que existiu em Vila Real ao longo do tempo e de todas as atividades culturais e artísticas, desde estes espaços culturais que existiram e que já não existem, a projetos, a artistas, a tudo o mais… Então é algo que realmente já ambicionávamos fazer há bastante tempo, e que este ano tivemos esta oportunidade através de um apoio de candidatura simplificada e com a ajuda do historiador, que acho que será muito interessante e importante, até porque esse trabalho de pesquisa já existiu no passado, pela nossa equipa, primeiramente para perceber toda esta riqueza cultural e artística que o Club praticou nos últimos anos e desde sempre na nossa cidade, mas também em Vila Real as informações acabavam sempre por ser escassas, portanto acho que será um trabalho bastante importante e esperamos apresentar material em suporte físico e digital, possivelmente no último trimestre de 2021.

Numa primeira fase, estão a recolher documentos e testemunhos associados à cultura e artes em Vila Real, estão a desafiar a comunidade a participar, certo?

Exatamente! acho que isto será um ponto de partida para este projeto é algo que será muito importante visto que muitas das vezes existe esta dificuldade acrescida em encontrar documentação antiga e que, de alguma maneira, possa comprovar o estudo e a pesquisa que nós queremos fazer, então existiu esta primeira publicação e “chamada” à comunidade em geral, aos vila-realenses, e não só, que de alguma maneira possam ter algum arquivo, algum documento, que seja interessante para esta pesquisa, e ao longo das próximas semanas queremos lançar mais informação, mais notícias e potenciar essa partilha e que as pessoas também nos ajudem neste trabalho de investigação. Como disse, não agrega só toda a história rica do Club, mas agrega em si um todo da história cultural e artística de Vila Real.

Esta ligação à comunidade é particularmente interessante e vamos acompanhar as novidades a seu respeito. Além deste projeto, que outros está o Club de Vila Real a desenvolver para 2021?

Felizmente temos algumas boas perspectivas, apesar de ainda não termos um espaço físico, visto que perdemos a nossa sede centenária em julho de 2020. Mas estamos já a preparar a próxima residência artística, que foi algo que realizámos em agosto e setembro de 2020, estamos já a preparar a próxima para acontecer na mesma altura.

A par disso temos um grande projeto de programação em rede que já estamos a trabalhar que será em parceria com a Câmara Municipal de Peso da Régua e também com outras câmaras municipais. É algo que esperamos desvendar muito em breve, porque é algo bastante importante… Será muito importante para o Club de Vila Real, será muito importante para o Peso da Régua e trabalha também com outras Câmaras Municipais nacionais e que já está a ser preparado há muito tempo, há muitos meses, e que tem a sua apresentação prevista para este verão e será um projeto bastante grande, que o Club de Vila Real vai trabalhar e vai desenvolver.

A par destes dois projetos, que vão acontecer entre maio e setembro, temos muitas outras ideias e projetos e coisas que frequentemente fomos apresentando e potenciando para que, de alguma maneira, possamos criar alguma produção e trabalhar com os agentes culturais da cidade, que foi isso que o Club Sempre pretendeu no seu espaço, e agora fora do seu espaço, e o caminho é esse… temos estes dois grandes projetos e temos muitas outras ideias e propostas que frequentemente apresentamos junto das entidades locais públicas, seja a Câmara Municipal de Vila Real ou a Junta de Freguesia, mas também como estamos todos confinados e com estas restrições todas é difícil pensar ou executar este tipo de coisas, mas a nossa vontade é essa! É fazer, produzir e trabalhar e, de alguma maneira, não existir num espaço físico dá possibilidade para num momento tão importante como este, em que muitas destas pessoas da área da cultura ficaram privadas de trabalhar e de apresentar os seus trabalhos, de alguma maneira pensar em alternativas e possibilidades para que essas coisas possam acontecer e esses trabalhos possam acontecer. É isso que nós sempre procurámos, é isso que vamos continuar a procurar, a trabalhar e quase a batalhar nesta cidade.

Portanto não estão parados, de todo, apesar de estarmos em confinamento e de neste momento até não terem sede. Mas, especialmente com o desconfinamento, ter uma sede seria importante, permitindo fazer mais coisas ainda?

Claro! É curioso, o Club encerrou e perdeu a sua sede em julho de 2020 e numa altura em que a cultura, as artes e estas apresentações estavam completamente, não digo paradas, mas muito condicionadas. O Club, logo a seguir, em agosto e setembro, teve uma residência artística, como sempre fez e vai continuar a fazer, com alunos de artes do liceu, desta maneira também potenciando jovens para de alguma maneira praticarem, abrirem, trabalharem este tipo de produções, artes e experimentação

Em dezembro, na altura do nosso aniversário, tivemos outro projeto, mais um projeto que desenvolvemos e foi apoiado, que foi o projeto ISOLARTE, que reuniu uma série de artistas e equipas da cidade de Vila Real numa apresentação e espetáculo que aconteceu no Grande Auditório [do Teatro de Vila Real] no dia 30 de dezembro.

Então, a par do que já falei aqui e do que está previsto para 2021, apesar de termos perdido a nossa sede, existem aqui variadíssimos projetos, variedade e riqueza, que conseguimos fazer no último ano. Agora, era essencial, era fulcral e era super importante para a cidade de Vila Real existir um espaço que desse lugar à experimentação, à apresentação e a todas as atividades artísticas e culturais (08:44 – 08:57). Vila Real tem um equipamento como o Teatro de Vila Real – muito importante e ainda bem que o tem como capital de distrito! – mas não existe nada para além disso e o que nós temos batalhado é a importância para a cidade que deverá ser existir esse espaço. Esse espaço, como digo, de criação, de experimentação, de apresentação artística, e que de alguma maneira consiga agregar vários espectros artísticos.

E quando falo disto não é da necessidade que nós temos em encontrar uma sede. O Club obviamente precisa de um espaço, e nós estamos a tentar procurar e pensar em alternativas, mas mais do que isso penso que era realmente importante para a nossa cidade a criação de um polo ou de um espaço cultural que agregasse não só o Club de Vila Real, mas como outras entidades artísticas, como companhias de teatro e as demais associações culturais que existam (09:27 – 09:52).

Isso sim é que considero que seria uma verdadeira mais-valia! Não só para o Club de Vila Real, mas para todas as outras entidades e movimentos artísticos que existem nesta cidade e que, no fundo, foi o que o Club tentou dar no passado, era dar um espaço e palco para esses movimentos se apresentarem e trabalharem. Isso é importante, muito mais agora, em que este setor e esta parte está super condicionada, e é isso que vamos tentar procurar de alguma maneira promover e quase procurar junto das gentes e entidades, para que no futuro, breve ou não, um espaço desse género possa acontecer, não só para receber o Club mas, como digo, para muitos outros.

A Câmara não tem nenhuma proposta que vá de encontro a esta vossa ideia?

Não. O que se apresentou fomos nós que apresentámos, que incentivámos. O Município, a Câmara, apesar do que está a acontecer neste momento, recordo-me que nos últimos 15 anos já passei e vi pelo menos quatro associações artísticas em Vila Real a fecharem, sendo que a última e… bom, sou suspeito, mas talvez a mais importante foi o Club, pela sua riqueza histórica, fechou e perdeu definitivamente a sua sede.

Então nos últimos anos, espaços como eram a Zona Livre, o Club, o ABC da Cultura, ou a Espontânea, ou a própria Filandorra, tinham uma sede, esses espaços foram fechando, foram encerrando ao longo do tempo. Então acho que é o momento e a altura de pensar se esses espaços são importantes ou não são importantes para uma cidade? É importante ou não é importante existir um espaço para que essas entidades todas, associações e movimentos tenham um palco e um espaço de apresentação (11:25 – 11:55)? Além de todo o trabalho, excecional e importante, que existe numa estrutura como é o Teatro. Mas o Teatro é algo muito mais formal e de outra dimensão, é um teatro municipal que recebe apresentações e espetáculos a nível nacional e o que nós estamos aqui a falar é num trabalho local… E esse desenvolvimento de trabalho local, desde jovens com quem temos trabalhado muito, até porque grande parte desta associação somos jovens, e é essencialmente para esta comunidade que gostaríamos e tentamos trabalhar e criar um futuro melhor.

Esta é uma questão importante na formação cultural e também na formação de públicos…

E este tipo de equipamentos e espaços existe um pouco por todo o lado… Quer dizer, a mim não me ocorre outro espaço sem ser o Teatro onde seja possível a apresentação de um concerto, de uma peça de teatro, um palco! Não existe, em Vila Real não existe e para uma capital de distrito, para uma cidade da nossa dimensão, com uma Universidade, é super limitador.

Isto poderá estar relacionado com o facto de Vila Real ser no interior? Ou, por outras palavras, o facto de estarem no interior dificulta a dinamização da cultura?

É o interior do avesso, o interior do avesso é mesmo assim [risos]… É assim, nos últimos anos já trabalhei, já tive apresentações, produções em várias cidades, no Porto e não só, e realmente cada vez mais acho que as coisas aqui são sempre muito mais difíceis, há sempre uma dificuldade imensa…

Mesmo a nível de público, de potenciar a cativar o público é um trabalho super exigente e eu percebo e sinto na pele, há vários anos já, antes de vir para o Club de Vila Real, que produzia alguns eventos já aqui na cidade. Mas parece que há sempre uma dificuldade acrescida no interior, há sempre entraves. Além dessa dificuldade em trabalhar o público, como eu já aqui falei, parece que há sempre uma dificuldade extra, é sempre muito mais difícil que as coisas aconteçam aqui do que aconteçam noutras cidades.

É o que tenho sentido nos últimos anos, mas também é por isso, é por essa razão e é por eu sentir essa dificuldade, que acabei por ir para o Club e é por isso que nós tentamos trabalhar e dinamizar ao máximo este tipo de atividades. É para de alguma maneira contrariar isso que nós, e que eu sinto, que esta comunidade e pessoas que estão à nossa volta, desde artistas, companhias de teatro e tudo, todas elas me passam essa mensagem, todas elas me dizem isso, portanto estamos aqui exatamente para contrariar estes condicionamentos e dificuldades que estamos a sentir aqui.

Quais são esses condicionamentos em concreto?

Em concreto, o Club de Vila Real tem uma história riquíssima no seu passado, a nível artístico e cultural, nós já encontrámos publicações, notícias, coisas que aconteciam no Club na década de 50, 60, 70… Coisas, recitais de piano, apresentações, coisas lindíssimas…

Quer dizer, existe aqui uma história tão grande e tão vasta do Clube de Vila Real e quando o Club de Vila Real tenta dar um passo à frente, ou tenta potenciar vários projetos e ideias, envolvendo a comunidade local – em certa medida foi isso que nós fizemos com o ISOLARTE, que apresentámos em dezembro, foi juntar uma série de artistas de Vila Real e fazer uma apresentação, uma performance, num auditório com vários elementos -, no fundo o que nós tentamos é sempre isso, mas parece que nunca há vontade de desenvolver e trabalhar essas apresentações, essas ideias.

Nós temos apresentado várias ideias e projetos junto da Câmara Municipal, mas nunca conseguimos desenvolver nenhum projeto (17:02 – 17:08). O que está a acontecer neste momento é: o Club de Vila Real, no último ano, teve vários projetos concretizados com o apoio de entidades nacionais, como o Ministério da Cultura e não só, e vamos desenvolver este grande projeto de programação em rede com a Câmara Municipal da Régua… Mas depois parece que não temos margem e que não temos possibilidade de trabalhar e apresentar e construir coisas novas que é o que nós mais queremos.

Eu falo do que eu sinto à minha volta, do que as pessoas me diziam e me passavam no Club de Vila Real, do que os artistas mais novos e não só me passam, as companhias de teatro e tudo mais… E parece que as coisas não acontecem, não se desenvolvem, não se criam, e o Club de Vila Real queria e vai tentar continuar a potenciar mas, e mais concretamente aqui visando a Câmara Municipal de Vila Real, muito simplesmente não estamos a conseguir concretizar um diálogo, não estamos. Era super importante.

O Club tem uma história que deve ser respeitada, que devia ser preservada para o futuro e trabalhada ainda mais e isso não está a acontecer. Há várias propostas e ideias que nós fomos apresentando durante o tempo e que não conseguimos, simplesmente não está a existir esse diálogo, ou essa preocupação, por parte do Município (18:27 – 18:39).

Acredito que no último ano tenha existido, infelizmente, coisas muito mais importantes para nos preocuparmos e para a Câmara trabalhar, mas realmente este setor da cultura foi um dos mais visados no último ano, então era importante estar aqui uma resposta… e é isso que nós não conseguimos, inexplicavelmente. Porque realmente o Club está a ser valorizado com este tipo de projetos que nós temos feito com apoios nacionais, de entidades nacionais, como o próprio Ministério da Cultura. 

Portanto, de alguma maneira, o Ministério da Cultura está a valorizar e está a potenciar a criação destas ideias e projetos e parece que a nível local não existe essa vontade, ou não querem. Não percebo e acaba por ser sempre um bocado inglório, mas a melhor resposta é esta que nós estamos a dar, esta que nós vamos dar em 2021! É continuar a trabalhar neste tipo de ideias e projetos e felizmente temos conseguido ter alguns apoios nacionais.

Deixe o seu comentário

Skip to content