Funeral do Padre Max e de Maria de Lurdes, uma manifestação de luto e pesar, que juntou cerca de 20 mil pessoas, dispersas pelo percurso (segundo o JN de então) | Foto retirada de Esquerda.net

“Podemos e devemos dizer que ao Max não lhe conseguiram roubar a vida, porque foi ele que deu a vida pela Vida”, afirma Paulo Bateira, nesta entrevista para o esquerda.net.

Paulo Bateira é médico no Porto e na sua juventude participou ativamente na Juventude Escolar Católica (JEC). “Doou” um ano letivo à responsabilidade de acompanhar a organização nos distritos do norte e foi assim que contactou com Maria de Lurdes e com padre Max, que à época era “assistente espiritual” da JEC de Vila Real. Foi um dos oradores no “1º aniversário do assassinato do Padre Max e da Maria de Lurdes pelos fascistas”, juntamente com um representante da UDP e o Padre Mário de Oliveira, que juntou milhares de pessoas no pavilhão desportivo do liceu de Vila Real, em 1977. Nesta entrevista dá-nos o seu relato sobre o pensamento de Maximino Barbosa de Sousa, o seu trabalho e as tensões que se sentiam dentro da Igreja Católica.

Entrevista a Paulo Bateira, realizada por José Miranda para esquerda.net


Como e em que contexto estabeleceu contacto com o padre Max?

Era agosto de 1974, eu tinha concluído o 3º Ano de Medicina no Porto, acabara de fazer 21 anos e estava de férias, quando fui pela primeira vez a um Encontro da Juventude Escolar Católica (JEC), em Lisboa. Mal imaginava que a JEC vinha sustentando um braço-de-ferro com a hierarquia católica sobre a sua missão evangelizadora no “meio estudantil”. O nome mais sonante dessa liderança contestatária era António Matos Ferreira1. Estávamos perante um longo mal-estar que se vivia dentro da Igreja Católica europeia, a qual procurava usar os movimentos de jovens da Acção Católica como testas-de-ferro de um combate anticomunista e antimarxista no terreno operário e estudantil. A JEC tinha-se distanciado desse modelo de intervenção social da Igreja Oficial. Durante os trabalhos desse Encontro Nacional, o país foi dividido em três grandes regiões, visitadas mensalmente pelo seu ‘coordenador regional’, designado, votado e eleito todos os anos na Assembleia Nacional da JEC. A mim coube-me ‘doar um ano letivo’ à região Norte: do rio Douro até à fronteira com a Espanha. Foi assim que me encontrei com o grupo de estudantes da JEC de Vila Real, congregados pela Maria de Lurdes Correia e ‘espiritualmente assistidos’ pelo Padre Maximino Barbosa de Sousa (Pe. Max). A Revolução dos Cravos estava ao rubro.

Na sua opinião, qual foi o percurso que conduziu o padre Max a tornar-se um padre de esquerda?

Tanto quanto me foi dado constatar, apercebi-me de duas forças que o levaram às opções que fez desde muito jovem. A primeira, a paixão pela ‘utopia de Jesus’, de um Jesus nascido em Nazaré (e não em Belém), que teve irmãos e optou por não casar (blasfémia) a fim de ter mais tempo livre para o seu anúncio profético, um Jesus que exclusivamente “andou de lugar em lugar, fazendo o bem e libertando todos os que eram oprimidos” (Actos 10,38). Virando as costas ao deus dos filósofos, o Pe. Max também virava as costas à cristologia pré-conciliar que pregava uma divindade ditada a priori de um Jesus que nos abria as “portas do céu”, que estavam fechadas por causa dos nossos pecados. O padre Max apaixona-se por um Jesus ‘demasiado humano’ que não encaixa com a imagem de um deus crucificado a um fim puramente expiatório, nosso salvador mas para ‘a outra vida’, que nada tem a ver com esta, aqui.

A segunda força que também o agarrou pelas entranhas foi a condição socioeconómica desumana da sua terra-mãe: Trás-os-Montes. As suas palavras numa sessão de esclarecimento da UDP em Vila Real, dias antes do atentado, são uma denúncia profética multifacetada que dispara em todas as direções com as balas da ira dos que nunca conheceram outra realidade que não a pobreza, a miséria e o desprezo dos deputados da nação.

Dito isto, confesso a minha dificuldade em usar a expressão “padre”, bem como “de esquerda”, para a figura do nosso Maximino. Para mim, Maximino Barbosa de Sousa foi (e não foi pouco…) um cristão de corpo inteiro. Tal como Jesus de Nazaré, que virou as costas à sua Igreja, assim o fez o Max. “Não me admira nada” que tenha morrido como Jesus de Nazaré, disse o Pe. Sampaio (Figura 6). O Povo, na sua sabedoria, ditou o seu veredicto: “Ele era assim, estava connosco em tudo o que pudesse ajudar a gente a aprender. (…) Não era interesseiro. Eu gostava muito do modo de ele falar com a malta” (Não vos mataram, Semearam-vos, 1977, p. 50)

Qual era o papel do padre Max na comunidade e que intervenção desenvolvia, também com a Maria de Lurdes?

O Pe. Max lecionou em várias escolas de Vila Real, mas arranjava sempre tempo para inúmeras atividades. No que diz respeito à JEC, o centro de onde tudo irradiava era a realidade juvenil concreta: a realidade sociológica do ensino, a dimensão das desigualdades, a verdade nas relações humanas, a solidariedade, o afecto e o amor, a família e suas potencialidades e contradições, a importância da animação cultural, etc.

Max era simplesmente adorado pelos alunos: se há alguém a quem cai como uma luva a expressão ‘o pedagogo’ era a ele. “Deixa que eu encontre o sentido da minha existência em ti. Pode ser?” ‒ esta maiêutica do Max poderia ser comparável à de Paulo Freire ou à do Padre Américo: “Dêem-me os rebeldes, que os meninos bem-comportados eu bem os dispenso.” Como poderiam os jovens não gostar de estar com um jovem transmontano assim?

Agora, extrapole-se para todas as diversas actividades culturais que ele desencadeava junto do povo adulto das aldeias e temos uma foto realista.

Que anticorpos gerava a sua intervenção nos setores mais reacionários locais?

Nunca me hei-de esquecer do dia em que cheguei a Bragança pela primeira vez. Eu viajava sempre de noite (para não gastar dinheiro em Pensões) e apeava-me da camioneta às 6h40 na Praça da Sé. A normalidade com que se viam passar senhores de espingarda ao dependuro das suas samarras era assustadora. Vendiam-se armas no centro da cidade, dentro dos cafés. O 25 de Abril foi de facto um tremor de terra nas regiões onde o latifúndio dominava. Portanto, o Pe. Max sabia melhor do que ninguém onde o levavam as suas opções existenciais. O latifúndio deixou marcas que nunca se resolveram, até hoje, em Portugal. Trás-os-Montes era um campo aberto para todo o tipo de autoritarismo: civil e eclesiástico. As ameaças nunca eram apenas ameaças: eram a marca, o sinal do começo da “limpeza”. O ELP, o MDLP, o cónego Melo (Braga), o Ramiro… ‒ um universo gigantesco demais para um país que administrativamente ainda não existia.

E que tipo de tensões existiam dentro da igreja?

Portugal era uma realidade mundialmente única. Politicamente, éramos olhados a partir da América e da França como uma peça de antiquário, pois, cá em casa, aparentemente, “rien ne bouge” (nada se movia). E, no entanto, tinha havido “casos”, muitos casos mesmo: o caso do Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes (1958), o caso do bispo da Beira-Moçambique, D. Sebastião Soares de Resende (1962), o caso do Padre Mário de Oliveira (1968), Mansoa-Guiné Bissau e do Padre Felicidade Alves (Lisboa, 1968-70), o caso do bispo de Nampula-Moçambique, D. Manuel Vieira Pinto (1970), o caso dos Padres de Burgos e os massacres de Mucumbura e de Wiriyamu denunciados pelos padres Teles Sampaio e Fernando Mendes da Paróquia do Macúti, Beira-Moçambique (1970-72), o caso da Capela do Rato (1972). Todos estes acontecimentos acabaram por se desenrolar sem a solidariedade oficial por parte dos episcopados continental e africano. As relações Igreja-Estado sempre pertenceram ao âmbito da diplomacia e dos interesses financeiros, e assim continuaram – para bem de ambas as partes − após a chegada da democracia.

Quando chegou o Concílio Vaticano II (1962-1965), muitos países europeus já estavam mortos que ele chegasse. Mesmo dentro de portas, existiam leigos (Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, etc.) muito bem informados e doutrinados. Chegavam a nossas casas publicações da editora VOZES do Brasil que nos enchiam de alegria pela boa nova em que consistiam as relações missionários/povo e o enraizamento da Teologia da Libertação. Muitos de nós seguiram ao longo de anos as horríveis notícias ligadas à ditadura militar no nosso país-irmão após o golpe militar de 1964: Alípio de Freitas2 fora o percursor do Maximino (com as devidas ressalvas…) – ambos padres transmontanos e ambos massacrados.

A grande questão é que a ditadura de Salazar funcionou mesmo muito bem no sentido político (o Bispo do Porto esteve mesmo exilado dez anos) e no sentido teológico: havia censura da imprensa católica e espionagem das atividades em paróquias suspeitas (caso de Miragaia, Porto). Com o 25 de Abril, os cristãos obtiveram a liberdade de se filiarem nos partidos da sua preferência, mantendo-se, contudo, e ainda por muitas décadas, o domínio do Norte nas mãos de clérigos anti-conciliares, cujo comportamento diferia apenas em não celebrarem a Missa de costas para o Povo. Honra seja feita à dupla Wojtyla-Ratzinger que soube cimentar bem fundo a paralisia do catolicismo europeu.

O que daqui resulta é que a laicização encontra na Liberdade de Abril excelentes condições para se apropriar do desapontamento político-económico do país, fruto de uma enorme paralisia pastoral agarrada aos dogmas dos séculos passados. Já lá vai o tempo em que falar da Igreja ainda despertava alguma curiosidade. Hoje em dia, já nem os escândalos despertam o mínimo interesse. Podemos dizer, sem qualquer tipo de exagero, que o Pe. Maximino foi o último profeta católico em Portugal (mas agora com uma ponta de exagero), um D. Óscar Romero à portuguesa ‒ foram demasiadas as coincidências entre ambas as práticas e as ideias.

O espírito evangélico do Pe. Maximino Barbosa de Sousa apontava para o surgimento de uma experiência eclesial marginal que partisse da conversão a um estilo de vida pobre, pois “fora do pobre não há salvação” (Jon Sobrino). Nesse sentido, sim, podemos e devemos dizer que ao Max não lhe conseguiram roubar a vida, porque foi ele que deu a vida pela Vida.

Entrevista a Paulo Bateira, realizada por José Miranda para esquerda.net, publicada a 4 de abril de 2021

Notas:

2 Resistir é Preciso – Memória do tempo da morte civil do Brasil, de Alípio de Freitas, Editor: Âncora Editora. Notícia de esquerda.net do falecimento de Alípio de Freitas.

 

Mais artigos no Interior do Avesso sobre o assassinato do Padre Max e de Maria de Lurdes

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