Em dia de início das festividades do Entrudo Chocalheiro de Podence entrevistamos Patrícia Cordeiro, socióloga responsável pela candidatura dos caretos a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Nascida em Macedo de Cavaleiros, Patrícia Cordeiro estudou sociologia e gestão cultural no Porto, Barcelona e Bolonha. O regresso a Trás-os-Montes é o ponto de partida para o desenvolvimento de trabalhos de carácter etnográfico sobre património cultural imaterial como fundamento para a valorização dos recursos culturais locais.

1 – Quando e como começou esta “aventura”?

Começou como um “trabalho qualquer” que rapidamente se tornou muito mais do que isso. Como é que hei de contar esta história, sem ser muito chata?… Estive cerca de nove anos fora, entre o Porto, Barcelona e Bolonha, a estudar e a trabalhar. Quando regressei, estava a ser implementado em Portugal o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (www.matrizpci.dgpc.pt). Ainda cheguei a consultá-lo quando tinha apenas quatro registos que eram apenas “demos”, quer dizer, exemplos de registos no inventário. A etnografia, que era uma área de estudo da Sociologia, era a metodologia descrita para fazer estes trabalhos de registos, entretanto a DGPC também dava formação nesta área e eu fi-la. Aliás quando fiz esse curso, o meu trabalho final, era nem mais nem menos uma proposta de registo no Inventário dos “cuscos”, que depois vim a desenvolver para o Município de Bragança. Portanto, a aventura começou assim, já que eu tinha aquela formação, com uma proposta de registo no INPCI da Festa de Carnaval dos Caretos de Podence. Eu trabalhava na altura numa empresa de multimédia em Macedo, que também realizou os vídeos e outros materiais para o inventário que então foi financiado pelo Proder, com uma candidatura, que foi submetida no final de 2013 ou princípio de 2014 e em meados de 2014 já estávamos a começar.

Logo desde as primeiras conversas que tive com o António Carneiro, presidente da Associação do Grupo de Caretos de Podence, ele fazia sempre referência a uma futura candidatura à UNESCO. Também com as pessoas da aldeia, e entre os emigrantes, se falava sempre sobre o reconhecimento da UNESCO, tornou-se um processo natural e de persistência. Foi muito mais difícil do que na altura imaginava, mas hoje acho que fez todo o sentido que fosse assim.

2 – Porquê envolver-se neste projeto?

Como dizia, tornou-se um compromisso, uma espécie de missão, porque, quer dizer… Se pensarmos bem, o que é que faz um sociólogo, da área da cultura, em Trás-os-Montes? Fora dos centros de investigação? Esta era também uma grande motivação, fazer trabalho de investigação, trabalho de campo com uma finalidade objetiva, podendo manter-me em Macedo. Consequentemente, o sucesso desta missiva, traria, benefícios a um território que conheço bem, e isso também era obviamente motivante, gerar um contributo para a terra onde nasci.

3 – Quais foram as maiores dificuldades que enfrentaram no processo de classificação?

Francamente, e agora que o reconhecimento foi conseguido, acho que me preocupam mais as dificuldades que a partir daqui possam surgir, do que aquelas que tivemos que ultrapassar. Acho que as que tivemos que ultrapassar fazem parte destes processos, e enriqueceram-nos a todos. O grau de exigência e rigor a que tanto a DGPC, como a Comissão Nacional da Unesco nos obrigaram na elaboração destes processos foi também o que contribui para que a avaliação fosse muito positiva, classificando-a como uma “candidatura exemplar”, o que para mim, foi completamente inesperado e profissionalmente é também um enorme reconhecimento. Isso permitiu-nos também ir à Colômbia, com muita confiança na aprovação. Portanto no fundo, as dificuldades contribuíram para o melhor resultado final possível. Agora, o caminho será outro e as dificuldades que possam surgir a partir daqui, penso que já serão questões mais ambíguas e isso preocupa-me, por um lado, por outro acho que é natural, depois de atingirmos objetivos ficarmos preocupados com o futuro.

4 – Qual a importância desta conquista para a cultura transmontana, e em especial para os caretos?

Eu vejo as coisas desta forma: Trás-os-Montes é um território em processo de despovoamento, um processo que dura há já várias décadas, e que é, na minha opinião, irreversível, pelo menos de um ponto de vista prático. Para explicar isto, até podíamos falar, do que acontece muito antes dos anos 60 e da rutura, mais radical com a vida rural “tradicional”, que despoleta em força naquela altura, e que todos conhecemos bem pela emigração massiva, mas se tivermos em conta essa trajetória descendente desde a década de 60 do século passado, que nos leva a termos hoje uma população com baixa capacidade de se rejuvenescer. Se partirmos deste contexto, a importância de um reconhecimento de uma manifestação cultural de uma pequena aldeia do nordeste transmontano, significa muito, para um território com estas características e que tal como aconteceu há dezenas de anos sempre se viu esquecido pelo governo central. Este “discurso” não é original, todos os transmontanos o conhecem bem, mas é uma realidade que prevalece, com mais ou menor intensidade em determinados governos, sempre sem grande margem de inversão. Por isso, num plano mais concreto, é extremamente importante que as comunidades locais se consigam afirmar no plano nacional, é extremamente positivo colocarmo-nos no mapa do mundo e que Portugal e os portugueses percebam que temos, de norte a sul, essa capacidade, que o interior do país também tem essa capacidade. E depois, claro a nível local, espero e desejo, como desejamos todos, que Podence possa ser um exemplo de desenvolvimento local, de sustentabilidade de um território rural, com a implementação do Plano de Salvaguarda que foi desenhado para a candidatura. Acredito nisso.

5 – Como viu toda a satisfação transmontana pela classificação dos caretos e até dos órgãos de comunicação social nacional?

Foi um momento muito alegre, muito efusivo. Quer dizer, temos uma comunidade muito pequena mas ao mesmo tempo com muitos ecos, muito ligada a tudo o que se estava a passar na Colômbia, durante aquela segunda semana de dezembro, então quando regressamos e nos reencontramos com as pessoas de Podence foi um momento muito afetivo. A comunicação social fez o seu papel habitual como é o deles neste caso. Há que dizer que os meios de comunicação regionais sempre acompanharam muito os Caretos de Podence. A RTP já abriu vários telejornais com a festa de Podence na terça-feira de Carnaval. Portanto a nível regional sempre houve grande acompanhamento, de todos os correspondentes locais dos canais nacionais, que habitualmente são jornalistas que têm sempre muito empenho em dar visibilidade às questões culturais transmontanas. Este era também o culminar de um processo longo que era do conhecimento de todos eles, e que, evidentemente a todos interessava noticiar em primeira mão. Houve quem se precipitasse e desse a notícia mais cedo, houve quem se enganasse a escrever um ou outro nome, uma ou outra designação, mas nada de anormal. Estes são os tempos em que vivemos, da notícia e do imediato, mas penso que nos bastidores, todos os que ao longo dos anos conheceram a Associação dos Caretos de Podence, o António Carneiro e conhecem bem o Carnaval de Podence, também eles, os jornalistas viveram com muita emoção estes momentos.

6 – Quais as perspetivas para o futuro, que outros projetos há em mente?

Gostava de contribuir para dar visibilidade e valorizar aquilo que são os nossos recursos culturais e sociais mais profundos. Estou envolvida em vários projetos relacionados com o património cultural e com o turismo, dentro e fora da região e neste momento, há muito, muito trabalho a fazer, de investigação, de salvaguarda e também de consciencialização. Mas para mim, o meu futuro pessoal não é alheio ao futuro que se traçar na região onde vivo. E no futuro, e numa perspetiva de médio prazo, gostava de continuar a viver e a trabalhar para que Trás-os-Montes ganhe força. Trás-os-Montes já é um território onde o potencial para se viver bem é enorme, e precisamos de garantir isso, de garantir estabilidade às famílias, de trabalhar a capacidade de mobilidade da população local, porque é impossível a sustentabilidade sem redes de transportes coletivos, é preciso que as instituições, escolas, hospitais, e as empresas sintam confiança nos governos locais que haja planos de cooperação entre elas. Podemos ser inovadores em muitas áreas, da cultura à ecologia.

7 – Tenciona fazer algo parecido com a pesquisa sobre os cuscos? Se sim, pode explicar-nos este outro projeto?

Os “cuscos” foram o meu primeiro projeto e o município de Bragança continua a promover esse saber fazer de várias formas. Há potencial para a “internacionalização”, chamemos-lhe assim e há interesse do município nisso. Trata-se efetivamente de um património alimentar, que por um lado revela um contexto específico da história da alimentação portuguesa, da influência árabe que chega até aos nossos dias, e que é uma história muito bem documentada, sobretudo desde o século XV que importa revelar, por outro, a sua sobrevivência no nordeste transmontano (também se encontra hoje na Madeira, e só) é indicador de uma história alimentar local também ela muito particular. Além disso, o couscous é um produto alimentar que teve a sua expansão a partir do Norte de África para muitos países do mundo, e por isso, será muito interessante para a região transmontana, colocarmos também Portugal nesse mapa da gastronomia mundial.

 

Entrevista por JL

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