Os que mais se aproveitam da Serra da Estrela são os que acabam por “destruí-la com as suas práticas”

Foto de Rui Pinheiro | Facebook
O Interior do Avesso entrevistou Carlos Martínez-Peñalver, realizador da longa-metragem “À procura da Estrela”, título provisório, que foi gravado nos concelhos da Covilhã, Seia e Gouveia com o apoio de produção local pela Maria Zimbro. Martínez-Penãlver está na região desde março para garantir a autenticidade do projeto.

Esta é a tua primeira longa-metragem, depois de já teres trabalhado noutros projetos. O que esperas deste trabalho? 

Deste trabalho, aguardo continuar a aprender a relacionar-me com o cinema e a vida. Foi uma filmagem que, devido a intensidade das nossas relações com a gente da Serra, mudou a vida de todos os que trabalhavam nela. Estou entusiasmado com a ideia de que esta experiência fique refletida no filme. 

Relativamente ao espectador aguardo despertar nele um olhar reflexivo sobre o tema que estamos a tratar e por suposto que desfrute do filme.

Por outra parte espero que o filme seja um trampolim para poder fazer outro com mais facilidades orçamentárias.

O que representa para vocês a região da Serra da Estrela? 

A Serra da Estrela é um desses paraísos que ainda ficam pelo mundo conservando a pureza da natureza. Mas, é curioso ver que os que mais se aproveitam exteriormente desta pureza são os que fazem negócio com ela e terminam por destruí-la com as suas práticas. 

O turismo já é um motor económico fundamental em todos os lugares, isto vai continuar sendo assim e não é precisamente negativo. O importante é que não esteja nas mãos de uns poucos que nem sequer são residentes, a potestade deste negócio teria de pertencer a aqueles que vivem nos lugares, aqueles que os cuidam e os protegem. 

Quando cheguei pela primeira vez à Serra da Estrela e conheci alguns dos que hoje são atores do filme, falaram desta confrontação na zona; dos que querem espoliar a Serra e os que querem recuperar o seu patrimônio natural mediante a ação local. Nesse momento refleti muito sobre a minha condição de turista, e comecei a perguntar-me como poderia ajudar desde a minha posição.

O nome do filme é “À procura da Estrela”. De que Estrela andam à procura? 

O título ainda é provisório, teremos de encontrá-lo na montagem mas penso que contém uma das essências do filme. Procurar a Estrela é procurar uma mudança vital, que obriga a passar por momentos duros para chegar a um lugar que não é o esperado. 

E isso é o que faz o nosso protagonista, o Xoel, que chega à Serra da Estrela para procurar sons como quem chega a um lugar procurando uma nova aventura. Sem embargo a procura do Xoel é fetichista, procura sons que se encontrem perto de deixar de existir, como um trabalho de arqueologia sonora. A gente da Serra vai-lhe dizer que os sons que está a procurar já desapareceram e o trabalho do Xoel vai perder o seu sentido, até que um dia começa a ouvir uma misteriosa melodia que provém das montanhas, que o convida a se perder nelas.

A vossa equipa é internacional: galega, catalã e portuguesa. Que benefícios traz esta multiculturalidade para o projeto? 

Brasileira e colombiana também!

Pois todos os benefícios possíveis, a diversidade sempre é riqueza. A nível humano é muito enriquecedor trabalhar neste ambiente multicultural, durante a filmagem falavam-se quatro idiomas (português, castelhano, galego e catalão) e todos nos entendemos. E também que o filme tenha uma tripla nacionalidade ajuda a que chegue também a estes territórios.

Para terminar: Estão há quanto tempo a fazer filmagens na Serra da Estrela? Qual é a previsão para terminar e quando é que vão apresentar a longa-metragem? 

A rodagem decorreu em Abril de 2021 e aguarda ter uma estreia em festivais ao longo de 2022. A minha intenção é que o primeiro lugar onde se possa ver o filme, em formato de pré-estreia, seja na Serra da Estrela para todas as pessoas que participaram nele.

Filme sobre a Serra da Estrela começa a ser gravado este mês

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