Tudo começa nas ideias, e da ideia de dois amigos surgiu o projeto de recolher, compilar e publicar o que se vai perder nos territórios que podem vir a ser afetados pela exploração mineira. O grupo Teia da Terra acolheu a ideia, e os materiais já começaram a chegar “à redação”, mas o prazo de submissão foi prolongado até 29 de fevereiro para chegar a mais regiões, mais movimentos, e dar oportunidade aos locais de recolher informação pelas pessoas de mais idade.

Tudo começou nas reuniões de preparação da manifestação de 21 de setembro em Lisboa que juntou vários movimentos em defesa das suas regiões, e contra a exploração mineira. Ana Filipa Piedade e um amigo lançaram a ideia de se publicar “um livro que compile aquilo que vai ser destruído ou alterado devido à exploração do lítio.” Desde fotografias, poemas, histórias, rezas, lendas, cantigas populares, tudo pode caber neste livro “porque tudo vai ser alterado permanentemente se aquele lugar deixar de existir tal como é.”

Para Ana Filipa Piedade o essencial é dar voz às pessoas, porque “não sou eu que estou a viver em Aveiro, numa zona que não será afetada pela exploração mineira, que sei melhor o que vai ser perdido do que aquela pessoa que sempre viveu na região de Boticas, ou na Serra da Argemela. Essas são as pessoas que nós queremos dar voz acima de tudo.”

Este é um projeto que foi lançado nas redes sociais mas que se prepara agora para entrar em contacto direto com as pessoas que estão na linha da frente desta causa. Muitas das pessoas a que se quer dar voz não têm acesso à internet, mas Ana Filipa afirma que “pessoalmente eu gostava muito que fossem essas as pessoas que me mandassem os textos, ou que houvesse locais que pudessem recolher esses textos e mandar-nos, porque é isso que queremos ouvir.”

Manifestação “Contra a febre da mineração em Portugal” | Foto de Aldeia de Covas | Facebook

Para esta bióloga de formação a manifestação de Lisboa foi um momento único, “houve pessoas que vieram de Montalegre e de Covas do Barroso. Eram pessoas de idade, vieram fazer aqueles kms todos, acordaram de madrugada, para estar na manifestação, para voltarem no mesmo dia. Imagina a violência que é para pessoas daquela idade. Eles queriam estar presentes, queriam marcar posição, e se não fossem elas a manifestação não tinha tido o mesmo impacto.” Na sua perspetiva é este amor à terra que faz a diferença, porque as pessoas que estão nesta luta “amam aquela terra, eles revêm-se nela, dependem dela.E é muito curioso que a maior crítica ao movimento do lítio vem das cidades, das pessoas que estão habituadas à tecnologia e dispostas a sacrificar bastante do nosso território para termos esse lítio. As pessoas nas cidades supostamente estão mais conscientes, mas tem mesmo a ver com a ligação visceral à terra, e não a ligação filosófica ou teórica ao ambiente.”

Para Ana Filipa Piedade “não basta só gostar da natureza de uma forma muito generalista, os lugares são importantes. Boticas é importante, a Serra da Argemela é importante, a serra d’Arga é importante.” e por isso acredita que a publicação deste livro “pode ter um impacto muito positivo a nível dos media. Acreditamos que ter um livro específico sobre esta causa pode ter mesmo um impacto muito positivo”.

(Escrito por MFS)

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