Foto por Autor Anónimo

A proposta de criar um plano de confinamento para todos os cidadãos de etnia cigana gerou polémica e a imediata resposta da sociedade, donde se destacou Ricardo Quaresma, que levou mesmo André Ventura, líder demissionário do Chega a propor que os jogadores de futebol fossem proibidos de falar sobre política. 

Também pelo interior houve várias vozes que se levantaram contra as estigmatização de toda a comunidade. Partilhamos os exemplos de José Rui Martins, Osvaldo Russo e de Bárbara Xavier.

José Rui Martins, autor e adaptador de textos teatrais, ator e encenador, entre muitos ofícios é também co-diretor Artístico do Trigo Limpo Teatro ACERT, dedicou um texto na sua página do facebook a que chamou de “A Minha Gratidão Pelo Gesto Corajoso E Urgente De Ricardo Quaresma” onde relata alguns momentos da sua vida que lhe permitiram embrenhar-se na cultura cigana. Sobre a participação num casamento para o qual foi convidado, “vivi momentos onde a cultura cigana se revelou fiel a valores de grande dignidade e ética”, recorda.

Quase a terminar o seu texto, escreve: “Às tantas deixei vir ao de cima aquelas carinhosas palavras do meu ancião cigano ‘O menino não tem cara de cigano, mas, se está aqui, é dos nossos’. Pois é, pertenço à cultura cigana deste meu país como quero que ela pertença, igualmente e por direito, a este meu país.”

Osvaldo Russo, que trabalha como mediador intercultural nas Cáritas Diocesanas de Viseu e é ativista cigano, gravou um vídeo que deixou online como forma de resposta às provocações a todo o cidadão de etnia cigana, dizendo que estes “podem contribuir para a economia do país” e, como qualquer cidadão, paga impostos. Diz que “respeita as leis”, cumpre “os meus deveres” e respeita “a Constituição da República tal como qualquer outro cidadão” deve fazer, rematando dizendo “sou um português cigano que ama a sua pátria tal como os meus compatriotas”.

Continua dizendo que “o racismo, além de crime, e é inconstitucional” pedindo a André Ventura e todos os seus apoiantes para se retratarem e que pensem antes de falar de “70 a 80 mil pessoas que são julgadas por atos isolados de uns ou outros”, “bons e maus há em todas as sociedades, nacionalidades, em todo o lugar há bons e maus, é transversal”, terminando com um apelo para que as pessoas pensem, “o racismo é muito feio e corta a liberdade a todos aqueles que querem ser livres e estar integrados nesta sociedade”.

Bárbara Xavier trabalhou no projeto Viseu Jovem pela Igualdade que lhe permitiu trabalhar no Bairro Nossa Senhora do Castelo, em Mangualde, onde dinamizou a criação de uma curta-metragem sobre a comunidade daquele bairro, com foco nas questões de género e de educação falou com o Interior do Avesso sobre esta “afronta a qualquer registo de respeito e empatia”, como nos disse ser a iniciativa do Chega e de André Ventura, que acha uma “falta de decência” propor que “parte da população seja confinada com medidas especiais” apenas com “base nas ideias preconcebidas e mal formadas”.

Para esta ativista “a falta de condições a que grande parte da comunidade cigana está sujeita é um problema, sim!”, um “problema social” resultante de “um lapso de direitos, de segurança, de acesso à habitação, ao trabalho e a condições de vida básicas que é ignorado diariamente e reforçado quando estamos perante situações como a pandemia atual”. Também a solidariedade do povo português, demonstrada com a presença da Covid-19, contrasta com “ideias fomentadas pelo medo do desconhecido, pela ignorância quanto a comunidades, crenças e formas de vida distintas daquelas com que nos cruzamos regularmente”.

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