Ideologia ou Direitos Humanos?

Ideologia é um conjunto de crenças partilhada por um grupo. Quando falamos de autodeterminação de género não deveríamos ousar falar de crenças. Falamos de direitos humanos, de garantias que nos são intrínsecas e protegidas pela carta dos direitos humanos (p.ex Art. 3, Art. 7, Art. 12, Art. 26, Art. 29), pela constituição portuguesa (p.ex, Art. 13, Art.16, Art.22, Art. 26, Art. 73) e pelo código penal penal português (Art.240).

A autodeterminação de género é a possibilidade de uma pessoa decidir quem é e ter a liberdade de se identificar com o que realmente sente. É ridículo termos de dar um nome a algo que deveria ser tão básico. Termos de legislar a liberdade de sermos quem somos.
Isto só é necessário porque há pessoas tão superficiais ao ponto de não se conseguirem libertar de uma ideologia sexualizada, estereotipada e mesquinha do corpo, dos órgãos sexuais e do que é a identidade. Pessoas que se revelaram recentemente e que consideram que devemos ser todas/os padronizada/os, iguais umas/uns às/aos outras/outros, em vez de iguais a nós mesmas/os. Ensinamos às nossas crianças a serem confiantes e acreditarem nelas/es, para seguirem os seus sonhos e serem quem são, ao mesmo tempo que lhes ensinamos que todo esse infinito afinal tem os limites de uma casa de banho, de um armário ou de um cartão.

O despacho do Diário da República n.º 7247/2019 não apresenta novidades. É a concretização administrativa do n.°1 do artigo 12.º da Lei n.º 38/2018, de 7 de agosto (estabelece o direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e o direito à proteção das características sexuais de cada pessoa) votada e aceite. Não passa de uma materialização do que já foi legislado e do que nem deveria ter necessidade de o ser.

Assume que há crianças que se identificam com um género diferente daquele que normalmente está associado ao do sexo com que nasceram e que não perdem por isso o direito à sua identidade nem liberdade de escolha, seja na sua roupa, seja na casa de banho que usam ou no nome com que serão chamadas.

Resumidamente o despacho sofre (ou quero acreditar nisso) essencialmente de uma grande falta de compreensão por parte de quem (não) o leu e não propriamente de uma vontade de um determinado grupo querer vetar a liberdade das/os alunas/os em prol da liberdade nas escolas – seria demasiado antagónico para ser verdade.

É aplicável a qualquer ciclo de ensino, privado ou público e prevê, resumidamente: ações de informação/sensibilização dirigidas às crianças e jovens, alargadas a outros membros da comunidade escolar; que as escolas adoptem mecanismos de informação e comunicação assim como de deteção de necessidades; que as crianças vão à casa de banho do género com que se auto identificam, não existindo a obrigatoriedade de casa de banho mistas; escolha das atividades por autoidentificação e não por sexo; escolha da roupa com que se identificam; os documentos públicos na escola identificarão o género e nome com que a criança se identificar, sendo salvaguardada a hipótese de pedido do cartão de cidadão para confirmar a identidade em situações como os exames.

E não quero acreditar que é assim que queremos criar as nossas crianças – com censuras e a acreditar que os direitos humanos são uma ideologia, um sistema de crenças partilhado por alguns e algumas.

O feminismo, as teorias e os estudos de género não são apenas uma ideologia. São um campo científico e movimentos sociais para os direitos humanos, documentados, com questões, conhecimento produzido e reivindicações concretas sobre a hierarquização dos géneros, dos sexos e consequentes discriminações.

Outros artigos deste autor >

Psicóloga de formação. Trabalhou na Rede de Jovens para a Igualdade, que visa a promoção da igualdade de género e o combate à violência de género. É também ativista da Plataforma Já Marchavas e da Rede 8 de Março.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Related Posts
Ler Mais

FOI PARA ACABAR COM A GUERRA QUE SE FEZ O 25 DE ABRIL!

"Ficou-nos a PAZ! O que não é pouco; é quase tudo! O que começou por ser um golpe de Estado e que acabaria por se transformar numa revolução (fugaz como quase todas as revoluções que se deixam iludir pelas canções de embalar da resistência insidiosa das classes desapossadas temporariamente do poder, que nos mandaram para casa, que eles tratavam da ordem e progresso), deve a sua origem à luta vitoriosa dos povos das ex-colónias africanas, que combateram durante 13 anos pela sua liberdade e independência."
Skip to content