> Olha tantos, assim já ficamos com a cesta cheia, isto é mesmo um vicio, adoro apanhar espargos, e estes estão tão verdinhos e viçosos, são mesmo uma bênção da natureza.
— Realmente, lembro-me bem quando era pequeno e vinha com o meu avô, que histórias ele me contava, sabes que nesta altura do ano e não só com os espargos, mas com todos estes produtos silvestres e selvagens que temos a disposição, as populações deste interior meio perdido, faziam grandes comezainas. Quando chegava a primavera, era uma alegria.
> Então não sei, sempre ouvi dizer “da cereja ao castanho cá me amanho!”, da primavera ao outono, não havia fome.
— Pois era, melhor ou pior a alimentação popular era muito baseada nestes produtos, mas não penses que era mau, que hoje em dia são considerados produtos gourmet, na verdade os nossos antigos já estavam era muito ”á frente”.
> Mas olha lá uma coisa, não é perigoso apanhar este tipo de produtos hoje em dia? Os pesticidas não podem estar aqui presentes?
— Pois meu amigo, tens toda a razão, só estamos aqui porque eu tenho a certeza que estes terrenos estão longe de terras onde são utilizados esses produtos, pois com o uso e abuso dos mesmos, além de estas maravilhas quase terem desaparecido, as que se mantiveram muitas das vezes estão bastante carregadas de matérias tóxicas.
> As pessoas acharam que o uso intenso de produtos químicos iria resolver todos os males do mundo, mas na verdade só o tornou pior. E o mais grave é que nunca ninguém deu o apoio necessário aos agricultores para que eles manuseassem bem os pesticidas.
— Vamos mas é deixar de coisas tristes, de quais gostas mais? Dos mais brancos ou dos mais escuros?
> Olha eu na verdade gosto de misturar os dois, os brancos têm um sabor mais suave, enquanto os verdes são mais agres, acho que a mistura faz o balanço perfeito, fica uma explosão de sabores única.
— Agora que falas nisso, bem me lembro que a minha avó os fazia separados, pois ela não gostava dos agres e o meu avô só gostava dos escurinhos. Que memórias tenho da panela de ferro de três pernas sempre ao lume e a fumegar, havia um objeto que era composto por umas argolas unidas de ferro e que servia para pendurar a panela, para a subir ou descer para perto do lume, conforme a necessidade, não me consigo lembrar do nome, sabes do que falo?
> Então não sei, ainda tenho umas guardadas, chamam-se “cadeias de ferro”, pelo menos assim eram denominadas lá em casa.
— Pois é, pois é, era esse mesmo o nome, que saudades tenho dos serões ao lume.
> Sabes que mais? Vou passar ali no galinheiro, pegar uns ovos e vou fazer uns ovinhos mexidos com estes espargos.
–A sério? Como fazes?

É simples, lavo bem os espargos, depois escaldo-os em água a ferver com sal durante trinta segundos, rapidamente de seguida ponho em água com gelo para parar a cozedura, corto-os em pedaços pequenos. Feito este passo é só aquecer numa sertã um pouco de azeite bem aromatizado com alho, juntar os espargos, os ovos (não batidos previamente), depois é só “mexer” tudo e não cozinhar demais, não deixar secar muito os ovos, no fim eu gosto de juntar uma gotinha de vinagre, temperar com pimenta e sal e “voilá”.

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31 anos, natural do Alcaide, concelho do Fundão, Chef de cozinha, desde sempre interessado e ligado à cozinha regional portuguesa nomeadamente na zona do interior, já que mais não seja por vir de famílias ligadas à cozinha e ao fabrico de bolos e pão na sua terra natal.

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