Como poderia não aceitar quando experimento e assisto constantemente à negação de direitos, de condições de vida adequadas e oportunidades unicamente em prol de interesses económicos e financeiros que servem apenas uma pequena parte da população?

São constantes os ataques aos ecossistemas, nomeadamente ao mundo animal e vegetal, ataques aos serviços públicos, nomeadamente aos direitos elementares de habitação, saúde, trabalho, justiça e cultura, colocando em perigo as nossas próprias vidas e sobrevivência das espécies que habitam o nosso planeta.

Enfrentamos uma alteração ambiental catastrófica com a redução massiva da biodiversidade, escassez de água, aumento de catástrofes naturais e incêndios, redução das culturas, aumento de pragas e tantas outras consequências que advém do envenenamento dos solos e das águas, desflorestação, pecuária e agricultura intensiva, irresponsabilidade no uso dos recursos geológicos e tantos outros projetos que alienando-se do seu impacte ambiental se mascaram por trás de promessas vagas, precárias e a curto prazo, com consequências que além de infinitas, serão eternas.

Serão, como sempre, as comunidades que atualmente mais se vêem privadas do acesso a diversos bens e oportunidades que mais sofrerão com estas alterações. Somos nós as pessoas do interior, nós as mulheres, serão as comunidades rurais, as comunidades lgbtiq+, as minorias culturais e religiosas, normalmente já em maior risco de pobreza.

E apesar da nossa educação, a nossa saúde, os nossos transportes, os nossos empregos e a nossa habitação serem cada vez mais precários, mais longe das necessidades das pessoas, mais perto de necessidades capitalistas continuo a não presenciar nenhum interesse real e concreto por parte da larga maioria das entidades competentes.

Como pedem às/aos jovens que lutem por um espaço nas suas regiões do interior se o emprego quando não é precário é uma miragem, se os serviços públicos são uma raridade, mas o preço da habitação e despesas fixas essenciais continuam a aumentar?

O interior não está despovoado, o interior foi despovoado e não será possível uma recuperação sem pelo menos se investir nas acessibilidades, na indústria limpa, no comércio local, na agricultura sustentável, na habitação acessível, na saúde pública, na educação universal e nos serviços de uso público necessários para que as pessoas assentem e construam a sua vida em determinado local.

Só dando oportunidades às/aos jovens e às/aos habitantes do interior em geral, fomentando com políticas reais de fixação e promovendo a sua colaboração, será possível desenvolver o interior, rejuvenescendo-o, dinamizando-o, estimulando a defesa pelos seus interesses e necessidades.

É fundamental uma mudança das dinâmicas governamentais para que as medidas políticas sirvam as reais necessidades das pessoas.

Discursos redondos e fossilizados ocupam o nosso espaço político que deveria ser de auscultação de necessidades e a sua tradução em medidas concretas de resolução, sempre com o objetivo de melhorar a vida das diferentes pessoas, dentro das suas especificidades e refletindo sempre em como fazer esse caminho respeitando e protegendo todos os seres vivos e seu/nosso habitat, tendo em vista uma sustentabilidade harmoniosa a curto e longo prazo.

Psicóloga de formação. Trabalhou na Rede de Jovens para a Igualdade, que visa a promoção da igualdade de género e o combate à violência de género. É também ativista da Plataforma Já Marchavas e da Rede 8 de Março.

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