Para quem nasce e é criado no interior – salvo raras excepções – toda a dinâmica e organização social lhe parece fatalmente natural. Eu fiz parte da regra até vivenciar dois marcos importantes. Antes, ainda, durante a adolescência, fui sendo assolado por dúvidas e reflexões acerca do status quo da vila onde nasci e vivi. Contudo, foi, apenas, quando saí para ingressar no ensino superior, na bela e desafiante cidade de Coimbra, que notei que certas cristalizações morais e sociais do interior não eram naturais e muito menos teriam de ser encaradas como um fatalismo. O segundo marco – e com um impacto mais relevante – foi ter entrado num curso de ciências sociais e ter tido, também, o privilégio de assistir e participar em aulas com alguns dos melhores antropólogos e sociólogos do nosso país.

À medida que me foram sendo pedidos trabalhos científicos para as várias disciplinas, com recurso a trabalho de campo e seus métodos e técnicas associados, acedi às monografias e teorias sociais existentes para compreender o que estudava. Optei, quase sempre, por estudar práticas agrícolas na minha região – o Douro – e analisar as correlações de forças e as molduras e significados que estruturavam aquelas práticas que, além de agrícolas, eram – e são – profundamente sociais. Pois bem, desde logo foi tempo de ler e consultar o estudo geográfico de Vergílio Taborda sobre o Alto Trás-os-Montes, as monografias etnográficas de Jorge Dias e de Brian O’Neill – que dizem muito da organização social e estratégias de poder aqui no interior e Shawn Parkhurst com alguma produção científica sobre o Douro. No meu concelho o sector primário sempre teve grande relevância – actualmente, talvez, seja ultrapassado pelo sector terciário – e em Sócio-Antropologia Rural e Urbana: Fragmentos da sociedade portuguesa (1960-2010), Manuel Carlos Silva diz-nos muito sobre a agricultura em Portugal, no geral, e da minha região em particular. Em concreto, disserta sobre as implicações da aplicação da PAC e qual o seu impacto sócio-económico no tecido social. É, ainda, possível perceber alguns dos traços das cooperativas e movimentos de acção colectiva de agricultores que hoje são, em larga medida, evaporados pelo individualismo e outros elementos da contemporaneidade que, em última instância, enfraquecem a participação cívica. Concretizando, estes e outros autores foram a base teórica e conceptual para começar a compreender a minha realidade, o meu meio.

Posteriormente, e até porque o tempo vai passando e os problemas estruturais que assolam o território mantém-se, senti a necessidade de recorrer a outros autores para aprofundar o entendimento e chegar a possíveis soluções. Percebe-se que as infraestruturas ao serviço da comunidade existem (as que, ainda, não conseguiram encerrar), e as redes viárias são, hoje, manifestamente, uma vantagem. Ainda assim, parece que as boas acessibilidades estão a ser utilizadas, maioritariamente, para dar continuidade ao despovoamento que grassa no interior. Neste âmbito, para perspectivar o futuro, por vivermos num sistema democrático, para aceder à vida activa a um jovem bastaria, grosso modo, um forte incremento das competências pessoais/profissionais (nas nomenclaturas mais estéticas, as Hard Skills). Pois bem, no interior, dos que não emigraram, uns seguem um curso superior para aceder a conhecimento intelectual e científico de determinada área, que lhes permita construir uma identidade profissional que talvez os realize e lhes garanta (em abstracto) qualidade de vida. Outros, porventura, optaram e/ou sentiram-se mais impelidos a aprender ou reforçar uma profissão mais técnica e prática, procurando ser um expertise que lhe confira mais requisições para trabalhos a efetuar (a este respeito da identidade profissional, quem quiser aprofundar mais esta questão, pode ler Claude Dubar (1997) A Socialização. Construção das Identidades Sociais e Profissionais). Parece consensual que quando temos de requisitar os serviços de um electricista, de um carpinteiro, de um mecânico, etc. optamos por aquele que deu/dá mais provas – por inúmeros critérios que lhe estão associados – de melhor prestar o serviço pretendido. Já nas profissões que radicam em conhecimento científico-intelectual a lógica de escolha (contratação) não aparenta ser a mesma! Aqui entra um dos autores cuja obra muito admiro e mais lastro confere aos conhecimentos sobre a realidade social, falo de Pierre Bourdieu que, não obstante as várias vertentes da sociedade que estudou, importa trazer para aqui pelo conceito de estrutura dos capitais. A estrutura dos capitais ilumina o conhecimento sobre a hierarquização da sociedade em classes sociais e, tendo como pedra de toque a origem social e a instrução, ajuda a explicar as trajectórias sociais dos indivíduos. Os capitais, identificados por Bourdieu são quatro, a saber: o capital económico que, em traços gerais, se consubstancia no conjunto de bens e recursos económicos que o indivíduo possui; o capital social que representa o conjunto de relações sociais que esse indivíduo dispõe e que poderá mobilizar quando sentir essa necessidade; o capital cultural que remete para os recursos intelectuais e culturais adquiridos por via da educação (formal e não formal), da posse de títulos que atestam o domínio de determinado tema, tais como os diplomas (via académica); e, por último, o capital simbólico corresponde à imagem social, por exemplo, o prestígio resultante do sucesso profissional – este capital constrói-se nos rituais e interacções entre os outros capitais.

Finalizando e fazendo a ponte com o que foi referido em relação ao incremento de competências, numa sociedade capitalista e neoliberal, o princípio da meritocracia é um dos pilares centrais – este conceito é usado ad nauseam no discurso da direita portuguesa e pela maioria do Partido Socialista, contudo, fica, quase sempre, “esquecido” no fundo da gaveta, à hora de se aplicar. Aplicando-se a meritocracia, o investimento e constante reforço do capital cultural deveria ser o garante de um tratamento mais justo no tabuleiro da mobilidade social. No entanto, e no interior de forma mais nítida, o elevador social continua a ser mais propenso a ascender com os detentores de elevado capital económico e de um robusto e co-relacionado capital social. O tempo passa, as caras mudam, as promessas tangenciam-se, os problemas reproduzem-se e reina uma espécie de paz podre na comunidade (pelo menos em espaço público). Dentro de quatro paredes – transportando-nos para outros tempos mais sombrios – as questões debatem-se, as mudanças demandam-se e o clientelismo deixa de servir de argamassa à hipocrisia. A expressão desta brisa de mudança tem sido, no recato e anonimato das urnas eleitorais, o crescimento gradual e sustentado do Bloco de Esquerda. Há esperança também para o interior!

Nota:
– Este texto, apesar de expor alguns conceitos reflectidos e analisados com recurso a suporte bibliográfico, não faz uso das reservas típicas de um texto académico.

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Emocionalmente antropólogo, formalmente assistente social. Progressista, fortemente engajado com a justiça social e comprometido com a natureza e o ambiente.
Este autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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