Livro "Quando Ardeu Portugal" - Foto de Oficina do Livro | Facebook

“O padre Max, pela sua integridade e percurso cívico, merece ser lembrado como alguém que, independentemente das suas convicções ideológicas, quis afirmar, praticar e consolidar a convivência democrática”, afirma o jornalista Miguel Carvalho, autor do livro “Quando Portugal Ardeu”, em entrevista ao esquerda.net.

Nesta entrevista, Miguel Carvalho aponta as perguntas que continuam sem resposta neste atentado – “Desde logo, as principais: quem deu a ordem para colocar a bomba no carro do Padre Max e quem executou o atentado que vitimou o sacerdote e a estudante Maria de Lurdes”. Referindo que “há fortes indícios quanto a ambos”, assinala também que outra pergunta que ainda não teve resposta cabal foi a quem interessou o crime. Sublinha, porém, “a culpabilidade da extrema-direita bombista da época, aliada aos setores mais tradicionalistas e reacionários da sociedade portuguesa, ficou provada nos tribunais e o MDLP foi condenado enquanto organização”.

  • No momento em que passam 45 anos, o que considera importante destacar sobre este atentado?

Para aqueles que consideram que a data de 25 de Novembro de 1975 simbolizou a pacificação e a normalização do regime democrático, o assassínio do Padre Max é um dos seus mais cruéis e cabais desmentidos. Este crime político, tal como outros ocorridos em 1976 (morte de Rosinda Teixeira à bomba, em São Martinho do Campo, e atentado à Embaixada de Cuba) constituem a prova de como o extremismo bombista de direita do pós-revolução não se limitou ao “Verão Quente” de 1975 e ficou, na generalidade, impune, apesar de ter andado anos a navegar nos tribunais.

  • O que acha mais relevante contar às novas gerações?

O padre Max, pela sua integridade e percurso cívico, merece ser lembrado como alguém que, independentemente das suas convicções ideológicas, quis afirmar, praticar e consolidar a convivência democrática num País ainda às turras com a liberdade após a ditadura de Salazar e Caetano. Durante a minha investigação jornalística a propósito do caso, pude recolher testemunhos de alguns dos seus contemporâneos e conterrâneos, insuspeitos de afinidades políticas com o Padre Max, e que jamais esqueceram o seu caráter solidário, a mente aberta e a cumplicidade com as gerações mais novas, reconhecendo-lhe a entrega e dedicação na missão de abrir horizontes mais vastos ao seu povo e motivá-lo a construir um País mais justo. Esse é o seu maior legado e continua atual.

  • Na sua opinião, quais as principais dificuldades que existiram para que a investigação criminal e a sentença judicial tivessem demorado 23 anos?

A investigação criminal foi, desde a primeira hora, condicionada pelos setores mais retrógrados da Polícia Judiciária da época, comprometidos com métodos do anterior regime e próximos dos setores mais conservadores da sociedade portuguesa que estavam desconfortáveis com o “25 de Abril”. Os inspetores da PJ que, ao longo dos anos, tentaram trazer à tona a verdade sobre o crime do Padre Max (casos de Artur Pereira e Vítor Alexandre, por exemplo) depararam-se com obstáculos e condicionalismos internos de grande peso. Só o seu empenho, resistência pessoal e integridade profissional permitiram ultrapassar as “cascas de banana” de outros colegas, as pressões externas e de superiores hierárquicos, as teses mirabolantes e as tentativas mais ou menos diretas para que não chafurdassem muito no caso, até que ficasse esquecido.

  • Sente que ainda há perguntas importantes a responder sobre o atentado?

Desde logo, as principais: quem deu a ordem para colocar a bomba no carro do Padre Max e quem executou o atentado que vitimou o sacerdote e a estudante Maria de Lurdes. Há fortes indícios quanto a ambos, mas 45 anos não chegaram para dar rosto aos culpados.

Outra pergunta que não teve até hoje resposta cabal: a quem interessou? De qualquer modo, a culpabilidade da extrema-direita bombista da época, aliada aos setores mais tradicionalistas e reacionários da sociedade portuguesa, ficou provada nos tribunais e o MDLP foi condenado enquanto organização.

  • Que papel considera que a investigação jornalística teve em todo este processo?

A investigação jornalística nunca deixou morrer o caso. Houve camaradas de ofício que foram incansáveis na procura da verdade e na identificação dos responsáveis pelo crime numa época em que meros “simpatizantes” deste ofício também tentaram baralhar e confundir as investigações. De certo modo, sinto-me herdeiro dos trabalhos que mais dignificaram a profissão e que me inspiraram na minha própria investigação. Prova de que o tema continua, ainda hoje, a sobressaltar certas almas foi o facto de, quando da publicação da primeira investigação sobre o tema na VISÃO [30 de março de 2006] ter recebido um telefonema anónimo onde me era aconselhado que deixasse estar esse tempo e os seus protagonistas “sossegados”. Para bem de todos e da minha “saúde”. Em 2017, recuperei parte dessa investigação para o meu livro “Quando Portugal Ardeu” e juntei outras fontes documentais e testemunhos que enriqueceram e aprofundaram o tema. Para mim, o passado e a memória nunca estão fechados.

Entrevista realizada por Carlos Santos para esquerda.net no âmbito do Dossier: 45 anos sobre o assassinato do Padre Max e de Maria de Lurdes

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