“A nossa cultura é de resistência. Até porque é muito difícil fazer o que quer que seja no Interior… Há pouca gente.”

Cultura no Interior – entrevista com Paulo Meirinhos, músico mirandês
Imagem do Museu da Terra de Miranda

Paulo Meirinhos nasceu em Miranda do Douro. Ainda jovem, foi estudar para fora, mas nunca esqueceu a sua terra e, por isso, regressou para desenvolver os seus projetos musicais. Pertence ao Grupo Galandum Galundaina e ao projeto Músicas da Raya.

A música tradicional faz parte da sua vida há muitos anos: “o meu avô era músico tradicional; a minha mãe e a minha avó cantavam-me. Aos 10/11 anos comecei na música, fui aprendendo vários instrumentos”. Mais tarde, estudou no Conservatório e fez o Curso de Educação Musical. Em entrevista para o Interior do Avesso, Paulo Meirinhos conta-nos a sua história e fala-nos sobre Cultura no Interior: 

Porquê o regresso a Miranda do Douro?

Na realidade, eu quando saí daqui sempre tive como objetivo regressar a Miranda, Aos 10 anos ficou essa ideia de fazer vida aqui em Miranda e, felizmente, isso proporcionou-se depois de vários anos fora a estudar e trabalhar.

Pelo ano de 1995, com o meu regresso, iniciamos o Grupo Galandum Galundaina. Desde então, temos estado a trabalhar neste ambiente musical da música tradicional. Quando começámos, havia muito poucos gaiteiros – havia três gaiteiros velhos, e, portanto, esse ambiente de música tradicional estava a acabar. Nós fomos fazendo música, não só como faziam os gaiteiros velhos, mas dando sempre alguma novidade. Acho que foi um gatilho para que muita outra gente, nomeadamente entre a juventude, entrasse na música tradicional, ainda que a vendo de um ponto de vista mais moderno. 

 

Mas o Grupo Galandum Galandaina não é o teu único projeto, pois não?

Tenho vários, mas todos eles ligados a este ambiente tradicional. Em Galandum, vemos a tradição como algo mais do que a repetição do que os mais velhos faziam. Inspiramo-nos em melodias e ritmos para os renovar e dar modernidade, no sentido de chegar também a novos públicos e concretizar a nossa realização pessoal musical – porque cada um de nós tem o seu próprio estilo. Eu, por exemplo, estudei outros instrumentos e tenho outras influências musicais. Através dessas outras influências é possível renovar melodias e textos. Sempre foram renovadas por parte de quem as reinterpreta. 

Um dos outros projetos que tenho é as Músicas da Raya. O que fazemos é juntar músicos dos dois lados da fronteira. Temos aqui o rio, uma fronteira que nos separa, mas também nos une. Até porque as fronteiras foram feitas na altura dos reis, a partir de Madrid e Lisboa. Mas a cultura não tem fronteiras. As pessoas aqui sempre conviveram, sempre partilharam a mesma cultura. Apesar de sermos dois países diferentes, aqui sempre tivemos uma proximidade muito grande – a proximidade que têm os vizinhos. E é essa a ideia que queremos mostrar a quem nos ouve. Estas são as mesmas melodias, os textos são muito próximos mesmo que separados por um rio. Um rio que nos une mais do que separa. 

O outro projeto que tenho é o GiraDiscos. Aí sou só eu com um Loop Station e utilizo vários outros instrumentos para tocar numas camadas em cima das outras. Também com inspiração em músicas tradicionais.

 

Quais são os valores e mensagens por trás de todo o teu trabalho?

O que eu transmito é o que me transmitiram a mim, da parte da minha mãe e dos meus avós. São melodias muito bonitas que resistiram ao longo dos tempos. E se há registos dessas músicas há décadas e décadas, resistirão também no futuro. Essa é a minha função: transmiti-las, dá-las a conhecer, fazer com que as crianças se identifiquem com elas. Porque a par das melodias vai toda uma cultura – a língua, a forma de viver e comunicar. Muita gente não sabe falar mirandês, mas canta em mirandês. A música é um veículo importante para que a própria língua seja usada no dia-a-dia e para que se utilizem os instrumentos tradicionais que nos definem como cultura.

 

Há cultura no Interior? Essa cultura está viva? Que desafios enfrenta a cultura no Interior e que medidas devem ser implementadas?

Sim. No Interior há uma cultura que resiste. A nossa cultura é de resistência. Até porque 

é muito difícil fazer o que quer que seja no Interior… Há pouca gente, cada vez menos gente. E essa parte é essencial. Quando começa a faltar gente é complicado organizar eventos, grupos. Quando começa a faltar gente, falha tudo.

Era essencial uma discriminação positiva para quem vive no Interior, no sentido da fixação de gente. Desde logo, era baixar os impostos. Às vezes tem-se a ideia que viver no Interior é mais barato, mas na realidade é o contrário. Sempre que precisamos de alguma coisa de saúde, de educação, temos de nos deslocar. Torna-se dispendioso.

O desinvestimento que tem sido feito ao longo das últimas décadas, desde os anos 60, gera um ciclo vicioso. Desinveste-se e as pessoas vão embora; quanto mais pessoas vão embora, menos se investe – o poder central acha que com a redução de pessoas também se deve reduzir os serviços. É um ciclo vicioso que nunca mais é invertido…

O investimento é muito importante. Há aqueles programas/projetos que se vão fazendo. Felizmente temos tido alguns aprovados. Mas depois permanece a falta de técnicos que vivam aqui no Interior e que levem os projetos adiante. O que temos feito é contratar gente do litoral e isso é valor económico que sai daqui. Essa sangria constante de que o calor económico nunca fica aqui… Nós pretendemos que as crianças e as pessoas que participam nos projetos tenham vantagens, que aprendam e cresçam. Mas depois entramos no mesmo porque quando as crianças acabam a escola saem daqui e não voltam… Porque aqui não há espaço para se instalarem e trabalharem como gostariam.

 

Que conselhos darias a trabalhadores da cultura (ou de outras áreas) que desejam ir para o Interior?

Felizmente, temos tido alguns casos que se têm fixado aqui. É um terreno por desbravar. Conseguimos trabalhar muito com o ambiente tradicional e há muitos outros por desbravar. 

Temos o caso da AEPGA que se instalou cá. Trabalham muitíssimo bem e trazem gente de fora. Como esse exemplo, muitos outros se poderão repetir em diferentes áreas, seja nos instrumentos tradicionais, na agricultura, na pecuária. Há muitos exemplos e muitas áreas que estão por explorar que se podem trabalhar facilmente. 

 

Achas que a cultura local, no caso a música tradicional, é devidamente valorizada pelas pessoas do próprio território, mas também de outros sítios?

Sim. Isso vê-se nas escolas. Atualmente, as crianças nas escolas estão muito envolvidas. Todos querem ser Pauliteiros, todos querem tocar algum instrumento. É impressionante ver essa dinâmica. E é importante mostrar às crianças e às pessoas que estão neste ambiente que a cultura tem valor económico. Se virem valor económico na cultura, mais gente se poderá envolver.

Em geral, eu vejo esta fase como muito boa. As crianças identificam-se com as músicas de Galandum, com os Pauliteiros, com as danças… Envolvem-se! Mesmo na questão da agricultura, há muita gente a fazer projetos novos e interessantes.

 

Em termos políticos e partidários, também sentes essa valorização?

Acho que já se percebe o valor económico e diferenciador da cultura. Aqui temos casos de pormenores culturais que foram muito bem explorados – se calhar até demasiado explorados. Há aldeias a viver à volta de um fenómeno cultural, como é o caso de Podence e os caretos. Podemos ter a visão de que é um exagero; às vezes fala-se da Disneyficação da cultura. Mas o certo é que há aldeias renovadas, com gente a viver dos fenómenos culturais. É importante que se veja o lado positivo e negativo, mas o certo é que se renova uma tradição.

 

O que fazer nas aldeias e locais onde isso ainda não acontece? Por onde começar para valorizar o património cultural?

O que se tem feito, felizmente, é começar por mostrar que essas tradições são importantes. 

Aqui na Terra de Miranda também há uns mascarados e, normalmente, na altura do Natal vem muita gente de fora para os ver. A gente de fora dá valor. Quando as pessoas de cá veem pessoas de fora a dar valor, a querer ter ligação com a tradição antiga, passam a dar valor também. Eu acho que esse é um pretexto importante para renovar e potenciar tradições: fazer com que as próprias aldeias tenham orgulho nelas.

 

E agora, quais as tuas próximas atuações?

No domingo, dia 25 de fevereiro, as Músicas da Raya em Viseu*.

Depois disso já temos vários concertos marcados. Agora estamos numa fase de marcação dos concertos de verão.

 

* Almoço-Comício do Interior, dia 25 de fevereiro pelas 12h30 na Quinta de Sta. Comba em Viseu. Inscrição através do formulário: https://bit.ly/AlmocoInt

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