Foto por PxHere

Este é o testemunho e desabafo de Ana Rita Machado, enfermeira de Vila Real. 

Sim sou enfermeira, e estou infetada com o Sars-cov-2, Covid-19. Fiz dia 22 de Maio 16 anos de profissão, passei o dia nostálgica e isolada, aliás como tem vindo a ser a minha rotina desde o passado dia 7 de Abril. Sou Enfermeira com orgulho, e cumpri a minha licenciatura em 4 anos (2000/2004), fui como muitos dessa altura, Enfermeira a receber 1020€, sim porque o meu 1° contrato de trabalho era de 40h/ semana, CIT, com 22 dias de férias. “Deram-me” mais 3 dias como recompensa por ser assídua, e com um “bónus “ remuneratório, que supostamente me compensaria por não ter um contrato de trabalho igual ao dos meus colegas mais velhos, estes CTFP.

Sorte, dizem vocês? Sim realmente não emigrei, trabalhei desde logo no meu país, mas cedo me apercebi, que as desigualdades laborais eram muitas.

Mas, desigualdades laborais, corresponderão a obrigações profissionais menores? Pois pasmem-se, óbvio que não, sou tão Enfermeira como eles (CTFP), é-me exigido o cuidar, o atender, o zelar, o estar, o ouvir, o respeitar o código deontológico da profissão, e tenho as mesmas contribuições à Ordem dos Enfermeiros. No que respeita a direitos, tenho menos férias (3 dias removidos nunca mais foram repostos), não sou beneficiária da ADSE (implícito tudo o que é inerente a este sub sistema de saúde), não me contam os pontos/anos de profissão para eventualmente poder progredir na carreira.

Mas qual carreira?! Perguntam vocês e bem. Os Enfermeiros têm vindo a ser sucessivamente mal tratados por inúmeras políticas e governos. Desde 2005, sensivelmente década e meia, que temos visto serem chumbadas várias propostas nesta área.

Governo, acorda, continuas passivo, a desrespeitar uma profissão a quem exiges obrigações iguais, mas dás, direitos diferentes. Não deveria haver Enfermeiros com rótulos laborais, mas minha gente, infelizmente existe. # Somos todos Enfermeiros, assim seria o país ideal. Pois, é que os nossos direitos, salário e vínculo advêm da instituição para a qual trabalhas. Há que legislar para os Enfermeiros de igual forma (âmbito hospitalar (cit/ ctfp), cuidados de saúde primários, lares, misericórdias, UCC, privados).

Estamos no séc 21, deixem-nos trabalhar mas com dignidade!! Vimos o nosso salário reestruturado, há coisa de meia dúzia de anos, para valores que todos os licenciados em Portugal já auferiam no início das duas carreiras. Justiça?! Continua a não haver. Sabem porquê? Porque, durante este tempo todo houve quem se especializasse (eu por ex.), fui a congressos, formações workshops, fiz cursos, e a minha mão-de-obra especializada continua a ser subvalorizada. Foi do meu bolso, das minhas horas livres que saiu isto tudo. Perdi momentos familiares, e sociais, tudo porque quis ser mais qualificada. E não, não aceito, não ser valorizada, nem respeitada. Maior qualificação, maior competência, acarreta mais responsabilidade, e essa os patrões sabem exigir. Não podemos querer mão de obra qualificada, a preço da chuva.

Assisto triste a um SNS, fragilizado, desprovido de recursos humanos e materiais, e com excelentes profissionais, que são diariamente expostos a inúmeros riscos, stresses e exigências. Somos verdadeiros obreiros de um SNS, cansado de tanta política de desgaste e não investimento. Revoltada e com um grito preso na garganta, há muitos anos.

Palmas e medalhas?! As palmas não me pagam contas, não me dão poder de compra, não me dão segurança no trabalho, não me defendem das agressões físicas e psicológicas, quase que diárias no meu local de trabalho. O nosso dia-a-dia, é quase sempre gerir mínimos, porque a pressão que nos é imposta, é a da não reclamação, da gestão eficiente, ou seja fazer bem e bonito, com pouco ou quase nada.

E nisso os Enfermeiros são mestres, no desenrasque, a maior parte das vezes, quando tentas exigir o que é teu por direito, lá vem a política da contenção, do aperto. E sabem, fazemos isto pelos doentes, sim porque trabalhamos com vidas humanas, nas horas mais felizes mas também nas mais difíceis e escuras.

Nessas, nas que raramente são relatadas, sobrepõe-se quase sempre o ideal da nossa profissão e de repente esquecemo-nos que não tivemos hora de almoço, ou pausa para café, ou que até estás num turno com um elemento a menos, ou que não tiveste tempo para ir tranquila ao wc, ou que tens que gerir e atender pedidos/reclamações/exigências dos familiares. E não, não me digam que foi a profissão que eu escolhi, e que é muito nobre ser se Enfermeiro, não assim, as palmas não me são suficientes.

Gosto de ser Enfermeira, mas quero justiça para nós todos, com condições de trabalho adequadas às exigências da profissão. Burnout, sim, já devem ter ouvido falar, cansados muitos de nós trabalhamos com a firme certeza de que os nossos limites diários estão constantemente a ser postos à prova, resultado de um enfraquecimento diário e de vários anos de desinvestimento do SNS.

Profissão de desgaste rápido, sim qual é ainda a dúvida. Somos linha da frente, hoje e sempre, o erro é pensar no agora, nesta pandemia, sempre assim foi. O trabalho por turnos desgasta, estudos comprovam que o trabalho rotativo nocturno, aumenta o risco de morte por doença cardiovascular, e há uma franca redução da esperança média de vida. Altera-nos os padrões de alimentação, eliminação, sono, vida social/familiar. Virão os mais céticos dizer, que faz parte. Faz parte?! E sermos recompensados por tal? Exigem-nos cuidados de excelência, querem profissionais de topo, mas somos os mais mal tratados da UE. Valorizados na imprensa nacional, quando alguém além fronteiras, dá notas daquilo que tão bem se faz em Portugal.

Há vários rostos de “Luíses” por este Portugal fora, e a lidarmos com tantas desigualdades geográficas, que nos fazem ainda ser mais polivalentes. O acesso aos cuidados de saúde, deveria ser livre e um direito de todos os portugueses, independente na sua condição socioeconómica, mas infelizmente não o é. A saúde, requer políticas de investimento, e não deveria ter como lema os lucros. Não defendo a não responsabilização por gestões danosas, mas sinto na pele como enfermeira, que em Portugal ainda há muito esta posição Norte, Centro e Sul.

E o Interior? Sim interior, aqui também há gente!!

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