Foto por Paulete Matos

No debate online sobre as soluções para o Interior, o arqueólogo Cláudio Torres afirmou que é preciso combinar a necessidade de criar polos científicos com a de aproveitar a terra de forma inovadora para uma “agricultura à escala humana”.

Esta terça-feira à noite, em mais um debate online da série Ao encontro, a ativista social Carolina Gomes introduziu o tema dos problemas vividos no interior do país, pegando no exemplo do momento que o mundo atravessa atualmente, fustigado com uma pandemia de um vírus que, afinal, “não é democrático” porque “acentua desigualdades já existentes”.

E este é precisamente o caso do interior. Um território que é necessário pensar “porque já é assimétrico”, sofrendo com o despovoamento, o isolamento, os problemas de transportes, condições que pioraram. Por exemplo, lembra Carolina Gomes, agora “os transportes rodoviários que já eram deficitários deixaram de existir” em muitos lados. O que, por sua vez, também “inviabiliza o acesso a serviços públicos” já de si escassos.

Outro dos exemplos lançados como mote para o debate é como se sentem problemas laborais que têm atravessado todo o país como despedimentos, férias forçadas e outras pressões patronais em localidades onde há “poucas alternativas” e por isso se pode mais facilmente ceder “à chantagem”.

Aproveitar a terra, criar polos de saber

Cláudio Torres pegou na questão, recordando as “causas antigas” das “vagas de gente empurrada do interior” obrigada a ir para o litoral. Mas contribuiu para o debate utilizando sobretudo o exemplo do projeto que implementou em Mértola de “organizar formas de desenvolvimento através da ciência”, para “chamar gente, para alargar”. Assim a terra de cerca de 1.100 habitantes passou também a contar com uma “dinâmica imparável” desses recém-chegados, uma “pequena rede”, um “polo que não vai voltar para trás”.

O arqueólogo pensa que é preciso somar outra dimensão ao desenvolvimento técnico-cientifico como caminho para o interior: a “sabedoria agrícola” que consiste em “saber aproveitar como a terra pode dar mais, melhor e com qualidade”. Uma “agricultura à escala humana” que permita fixação de pessoas, através da variedade e de “formas agrícolas inovadoras”.

Este é um caminho que contrasta com o que se passa em muitas zonas do Alentejo: a “agricultura selvagem”, com “olivais gigantescos que destroem o que pode ser feito”, uma “selva que está a ser alimentada e que vai ter consequências dramáticas”, já que muitos dos “tapetes de oliveira” vão “perder rentabilidade”.

Para Cláudio Torres este é o momento para “encontrar antivírus sociais que nos permitam organizar melhor a sociedade” e é preciso “conquistar um espaço diferente da acumulação urbana junto do mar e do comércio antigo” porque “é possível encontrar formas de habitar com qualidade no interior”.

Museus do interior têm de se reinventar

Pedro Oliveira também salientou a importância da ciência e inovação no interior. Veio para o debate munido com números que ilustram a “desigualdade territorial” do país neste aspeto, como o facto de apenas haver 6,7% alunos do ensino superior no interior. Também trouxe exemplos dos efeitos do “desinvestimento” no ensino superior nas zonas do interior do país que “traz coisas que não aconteciam no passado” como o encerramento de cursos de Arquitetura Paisagística ou a redução fortíssima de matrículas em Engenharia Florestal, ou que os Politécnicos de Santarém, Tomar e Castelo Branco estejam “sem dinheiro”.

O linguista encontra outros culpados para os problemas do Ensino Superior no interior para além da falta de investimento: “as instituições também se fecham em si e não levam conhecimento às pessoas” e há “competição entre instituições do interior” onde devia haver colaboração. A propósito do surto da Covid-19, lembra ainda que algumas destas instituições “necessitam de alunos do estrangeiro”, colocando a questão de o que fazer agora que as fronteiras estão fechadas.

A pandemia também é ocasião para desfazer a “confusão entre cultura e turismo”. Segundo o investigador, “parece que tínhamos descoberto a fórmula mágica, o turismo”. Com isso, “ficámos dependentes do exterior”. Pedro Oliveira defende outra via: os núcleos museológicos “devem ser difusores de cultura para a comunidade”. Para ele, “as pessoas da terra não vão aos museus” porque “sentem que aquele espaço não é delas”. Agora, os museus “têm oportunidade de envolver a comunidade na sua programação” porque “têm de ter capacidade de ser reinventar”. E, para além disso, é “urgente redefinir uma política de apoio às artes” e associações locais.

E como “precisamos mais de agricultores do que jogadores de futebol”, tal como “mostrou a crise”, o investigador realçou que “precisávamos que as instituições do interior formassem pessoas altamente qualificadas, preparadas para as alterações climáticas, que consigam formar agricultores.”

Texto esquerda.net

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