Partilhamos entrevista feita pelo Farol da Nossa Terra e pelo Defesa da Beira feita a Diego Garcia, membro da Assembleia Municipal de Carregal do Sal eleito pelo Bloco de Esquerda.

 

DB – O que vos motiva a estarem à frente da estrutura local de um partido ainda com pouca expressão no cenário político do concelho?

DG – Antes de mais, tenho de referir que a estrutura local do Bloco de Esquerda em Carregal do Sal tem uma direção horizontal e eu, como eleito na Assembleia Municipal, tenho tido mais visibilidade devido ao trabalho que realizo naquele órgão. Portanto, ninguém lidera a estrutura, tal como acontece na estrutural distrital do partido.

De facto, se comparamos a expressão do Bloco de Esquerda em Carregal do Sal com partidos como PSD e PS, sim podemos dizer que temos pouca representação. Mas acho que é importante salientar que o Bloco se candidatou pela primeira vez a um órgão autárquico em Carregal do Sal em 2017, com uma lista à Assembleia Municipal e atingimos mais de 8%, mais de 400 votos e um eleito, estivemos quase a eleger um segundo, faltaram 50 votos. Fomos e somos desde então a terceira força política do concelho.

A nossa motivação baseia-se muito em melhorar a vida dos munícipes, de forma sustentável em termos ambientais. O concelho de Carregal do Sal estagnou, conta com as mesmas pessoas nos órgãos autárquicos há décadas, seja no executivo, seja na oposição, perdeu-se a visão de futuro e é preciso mudar isso para não levar o concelho à estagnação total, sobretudo e também das freguesias mais periféricas, que têm perdido abruptamente população, como é o exemplo de Beijós.

DB – Como analisam a evolução da votação que o vosso partido colheu nas anteriores eleições?

DG – Tal como referi, a primeira candidatura autárquica do Bloco em Carregal do Sal foi em 2017. Antes disso, nas eleições nacionais, o Bloco rondava os 200 votos no concelho. Em 2017, nas autárquicas, duplicamos e fomos para os 400, para 8%. Mantivemo-nos nos 8% tanto nas eleições europeias de 2019 (com mais de 200 votos, mas com grande abstenção) e fomos para os 9% e mais de 400 votos nas passadas legislativas, também em 2019. Respetivamente ao Bloco, Carregal do Sal foi o concelho onde mais positivamente evoluiu o voto no partido, numa abrangência distrital. Nas legislativas de 2019, na Freguesia de Parada tivemos mais de 13%. Isto é um bom sinal.

Mostra que o Bloco está a fazer um bom trabalho a nível local e que não foi penalizado nas eleições nacionais, como normalmente acontece.

DB – Sentem que a vossa acção na Assembleia Municipal tem sido útil para a solução de assuntos em prol das necessidades do concelho?

DG – Partimos do princípio que existe muita falta de diálogo, cooperação e de consideração pela oposição, que foi democraticamente eleita, por parte do executivo do Partido Socialista. É muito complicado fazer oposição quando de outro lado se governa com prepotência e ridicularizando os argumentos, isto é visível para quem assiste às Assembleias Municipais. Dou um  exemplo: O Bloco sempre se bateu contra a proibição da entrada de animais no novo Parque Alzira Cláudio, situação que é muito criticada pela população, mas o senhor Presidente da Câmara limitou-se a responder que permitiria a entrada de animais no Parque se o Bloco se responsabiliza-se por limpar os dejetos. Isto prova cansaço do executivo, falta de cordialidade e paciência para viver no mundo do debate democrático.

Mesmo assim, conseguimos algumas vitórias durante estes três últimos anos, a mais visível é a construção de um Centro de Recolha Oficial para Animais (CROA), deixando para trás a distante e deficitária estrutura que existia nos Pardieiros. Também conseguimos que fosse inserido no Orçamento Municipal a criação de um Gabinete do Cuidador Informal, que ainda aguardámos a sua concretização.

O Bloco tem feito uma oposição ativa, séria e transparente: Somos o partido que mais moções e recomendações apresentou na Assembleia Municipal, desde a criação de Unidades de Gestão Florestal até a criação de um Gabinete de Apoio à Violência Doméstica. A maior parte, por não dizer todas, são chumbadas pela maioria do PS na Assembleia Municipal. Acaba por ser muito complicado fazer oposição com maiorias absolutas quando elas se transformam em maiorias absolutistas.

DB – O que têm a destacar do vosso exercício político em prol do concelho?

DG – Tal como referi, a nossa vitória mais visível é a construção do CROA, que estará pronto no início do ano 2021 e vai trazer mais dignidade aos animais, mas também aos profissionais que lá trabalham e às pessoas que o visitam.

Temos quebrado, isto também é muito importante, o debate político monótono existente há décadas entre PS e PSD. Sobretudo, acho que trouxemos uma interação permanente com os munícipes que só estavam habituados a ver a atividade política no concelho de 4 em 4 anos. O Bloco já realizou inúmeras sessões públicas, desde a apresentação de livros com o Francisco Louçã e Arsélio Martins, até um debate sobre as explorações de lítio com a população de Beijós, passando pelas duas edições das Jornadas Ambientais e do Culturiza-te. Juntamos, em fevereiro de 2019, centenas de jovens de todo o país na Escola Secundária de Carregal do Sal, durante um fim de semana de formação política com a realização do Inconformação. Esta interação permanente dos agentes políticos com a sociedade é muito importante para combater os populismos que temos visto pelo mundo fora.

A sociedade precisa de ser aproximada à política e para isso a primeira proposta que fizemos quando fomos eleitos foi a de “Democratizar a Assembleia Municipal” com medidas concretas: As Assembleias Municipais serem transmitidas em direto através de vídeo nos canais próprios da autarquia ou alterar o período de intervenção do público para o início da sessão em vez de estar no fim, também chumbadas pela Assembleia Municipal.

DB – O que têm a dizer quanto à governação do concelho nos últimos anos?

DG – Andamos a pagar os erros cometidos no passado, nomeadamente com a situação ambiental referente às ETAR do concelho. É preciso dizer que houve um total desleixo com o ambiente durante décadas, mas também é preciso lembrar que este executivo vai para os 8 anos de governação e só agora é que começou a ser requalificada/construída a primeira ETAR.

De resto, o executivo optou por uma estratégia demasiado moralista: Só fazem obras com recurso a fundos comunitários para não endividar a Câmara. Esta ideia foi a base argumentativa do executivo do PS nos últimos anos. Isto significa estar imenso tempo a aguardar e com os projetos em suspenso à espera da aprovação da candidatura.

Digo moralista porquê? Porque agora, no último ano de mandato, decidiram pedir empréstimos para avançar com as obras que estão ano após ano a ser orçamentadas. Sobre esta situação, que os munícipes tirem as suas conclusões.

Definiria com uma palavra a governação do concelho nos últimos anos: Estagnação.

DB – Qual a vossa impressão quanto à forma como se tem lidado no concelho com os problemas da situação pandémica que ainda persiste?

DG – Fechados em si mesmo, na mesma linha da forma de atuação com tantos outros assuntos. A oposição praticamente não existe para o executivo e também não existe no combate à pandemia. O Bloco apresentou em março um conjunto de propostas para dar resposta à crise, mas nada foi acolhido. Deram a ideia de “quem anda na rua somos nós, nós é que temos capacidade de resolver os problemas”.

Em termos gerais, a resposta à covid-19 que foi dada, foi a que devia ser dada, sem acrescentar nada de novo relativamente ao que se fez um pouco por todo o país. Faltam apoios concretos à restauração do concelho, faltam apoios concretos aos artesãos que faziam vida nas feiras e mostras da região, entre tantos outros.

Uma das propostas do Bloco foi a adquisição, por parte da Câmara, de centenas de testes rápidos para estarem em stock e serem utilizados quando aparecesse um surto, tanto no Agrupamento de Escolas, como no pessoal afeto diretamente à autarquia, como por exemplo, no estaleiro municipal. A resposta do Presidente da Câmara foi: nenhuma.

DB – O que entendem haver mais em falta no concelho e que compete à Autarquia concretizar?

DG – Falta tanta coisa. Por exemplo, é necessário valorizar os nossos recursos naturais e socializá-los com respeito pelo ambiente, isto é, requalificar a praia fluvial nunca utilizada da Azenha ou a do Mercudo, em Papízios. Carregal do Sal tem a sorte de viver entre dois cursos de água importantíssimos: O Dão e o Mondego.

O executivo municipal precisa de ter uma relação mais próxima com as 5 freguesias, só agora no último ano deste mandato, é que se vai requalificar algumas vias rodoviárias em articulação com os executivos das freguesias (o Bloco votou contra isto e foi bastante criticado pelos presidentes de Junta, mas não votou contra por achar que as obras não seriam necessárias, mas por perceber que os 5 presidentes de Junta estariam a ser instrumentalizados pelo Presidente de Câmara, já que isto não passa de uma jogada eleitoralista a pensar nas autárquicas de 2021).

O Centro Cultural precisa de uma nova vida, precisa de ter uma dinâmica mais constante, como por exemplo, com a instalação de uma sala de cinema que é sempre chumbada pelo executivo municipal do PS.

Propusemos várias vezes haver uma discriminação positiva para as pessoas que queiram habitar a Freguesia de Beijós, através do IMI, já que é uma das localidades que mais tem perdido população na última década. Combater o despovoamento numa escala mais pequena, numa escala concelhia que também é responsabilidade do poder local.

Todos estes exemplos podem ser concretizados pela Câmara Municipal de Carregal do Sal, mas muitos outros poderíamos dar.

DB – No vosso entender, o que terá de fazer-se para colmatar essa falta?

DG – Os projetos concretizam-se com a vontade política de implementar as opções que se querem tomar, de forma constante e durante os 4 anos de mandato.

DB – Tencionam manter-se à frente da estrutura concelhia do vosso partido?

DG – O Bloco é muito mais que uma pessoa. Com isto digo que não sei o que me vai deparar o futuro, mas caso tiver de me ausentar deste projeto tão cativante e importante para o concelho, de certeza que haverá pessoas que o vão continuar, pelo bem de Carregal do Sal.

DB – Que expectativas alimentam para as próximas eleições autárquicas?

DG – A expetativa é crescer. Tanto na Assembleia Municipal, como nos restantes órgãos onde nos candidatemos, seja na Câmara Municipal ou nas Juntas de Freguesia.

O Bloco tem potencial para ser uma alternativa no concelho ao PS e PSD.

DB – Faltando menos de um ano para as eleições autárquicas, já têm em mente quem será o candidato do vosso partido à presidência da Câmara?

DG – Estamos a trabalhar nisso, queremos apresentar também uma lista forte à Câmara Municipal que consiga lutar por bons resultados de forma a influenciar positivamente o executivo municipal.

DB – Qual a vossa expectativa quanto às próximas eleições presidenciais do dia 24 de Janeiro?

DG – O Bloco vai apoiar de novo a candidatura da Marisa Matias. A expetativa que tenho é que Marisa e sua candidatura consigam trazer para debate, com o Marcelo Rebelo de Sousa, os assuntos estruturantes para o país como o é o SNS ou os direitos laborais. O atual Presidente tem fugido à discussão, a prova disso foi a grande espera que fez para anunciar a candidatura que todas as pessoas sabiam que iria acontecer.

A Marisa já provou, em 2016, ser uma figura nacional e onde as pessoas se revêm muito, eu inclusive.

DB – O que gostariam de acrescentar em final desta entrevista?

DG – Agradecer o trabalho incrível do Farol da Nossa Terra e do Defesa da Beira na transmissão e divulgação de informação dos nossos concelhos. A comunicação social local, que tem passado por maus momentos, é uma peça fundamental para a transparência, para o direito à informação e sobretudo para dar voz à população.

 

— Informações —

Nome – Diego Enrique Rodrigues Garcia

Idade – 28 de anos. Nascido a 1 de agosto de 1992

Naturalidade – Naturalidade galega. Nasci em Ourense, na Galiza. A minha família materna é de uma terra a norte do Parque Natural de Montesinho: A Mezquita. Mas todos os verões vinha para Santa Comba Dão, para São João de Areias, de onde era a minha avó, o meu avô era de Nelas, portanto a minha família paterna é dividida entre as Beiras e o Alentejo, para onde foram os meus avós mal se casaram e onde nasceu o meu pai, em Ferreira do Alentejo. Estou desde 2009 a viver de forma contínua na região, em São João de Areias.

Currículo abreviado (habilitações, profissão, cargo político e ocupação associativas ou outras) –

Concluí o 12º ano na já inexistente Escola Profissional de Santa Comba Dão e estou neste momento a licenciar-me em Estudos Europeus.

Desempenho funções de assessor parlamentar para o Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda, dando apoio ao distrito de Castelo Branco. Faço parte das equipas editorais do Esquerda Net e do Interior do Avesso, dois órgãos de comunicação do Bloco. Nos tempos livres gosto de escrever artigos de opinião para diversos órgãos regionais como o são o Centro Notícias e o blogue Rua Direita Viseu.

Para além de ser membro do Núcleo Concelhio de Carregal do Sal do Bloco de Esquerda e já ir no terceiro mandato (mandatos de 2 anos) na Comissão Coordenadora Distrital de Viseu do Bloco, sou membro da Assembleia Municipal de Carregal do Sal desde 2017. Faço também parte da Coordenadora Nacional de Jovens do Bloco, indo no segundo e último mandato.

Sou sócio fundador da Associação da Natureza e dos Animais Abandonados de Santa Comba Dão (ANA-SCD), desempenhando agora funções de Presidente do Conselho Fiscal. Também sou membro de vários movimentos ambientais, como por exemplo o da organização do Micro Fórum do Rio Dão realizado em Viseu, no ano 2018. Dentro do ambiente e da coesão territorial, sou membro da recém-criada associação Ruralis, que se vai dedicar a valorizar o vale do Dão e tem sede em Mangualde. Pertenço também a AGAL – Associação Galega da Língua, que luta pelo reintegracionismo, ou seja, pela aproximação da língua galega à Lusofonia. Estou  ligado a movimentos informais na área da juventude, do bem-estar animal, do ambiente e da defesa dos serviços públicos no interior do país.

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