Foto de INDIEROR

A INDIEROR é uma associação sem fins lucrativos sediada em Chaves. É a principal promotora do Auditório do Centro Cultural de Chaves. Fez a estreia, em Portugal, de nomes como Glen Hansard (vencedor de um Oscar, 11 Tony’s e nomeado a 5 grammys), Lisa Hannigan (nomeada a Oscar e vencedor de vários grammys), Villagers, David Keenan, John Smith (eleito o 4º melhor guitarrista do mundo em 2018), entre outros.

A INDIEROR é também responsável por um circuito de programação pelo interior do país. É a produtora do Festival N2 por onde passaram já nomes influentes da música portuguesa. 

Em 2018, a INDIEROR foi eleita pelo músico David Byrne uma das “Razões para estar feliz” com o mundo, pelo seu trabalho com a comunidade e combate à desertificação de Trás-Os-Montes. Tornou-se também nesse ano a promotora do Festival N2 em parceria como o Município de Chaves.

Em 2019 foi nomeada para dois prémios “Acesso Cultura” nas categorias de “Acessibilidade Intelectual” e “Acessibilidade Social” e venceu o prémio de visibilidade na gala de empreendedorismo do Alto Tâmega.

No entanto, é na comunidade que a INDIEROR tem o seu núcleo, promovendo cultura de forma séria e profissional, sempre com o objectivo de elevar as gentes e a cultura em que se insere, quebrando paredes e barreiras que teimam em limitar o interior transmontano.

Interior do Avesso (IA)-  O porquê de “INDIEROR”? 

INDIEROR- INDIEROR é junção das palavras “indie” (abreviação de independent e termo utilizado para definir projectos de cariz independente) e “ror” (um transmontanismo que significa uma grande quantidade ou variedade de coisas). Surgiu da necessidade de definir um projecto que queria atacar várias frentes ligadas à cultura e a todos os caminhos que daí pudessem surgir, sem deixar de manter a sua independência e integridade. 

IA- O vosso projeto inicial, passou por várias “metamorfoses”, passou primeiro por um manifesto multimédia, nunca mais pararam, como é que isso aconteceu? 

INDIEROR- Diz-se que a necessidade aguça o engenho. No nosso caso, partiu da sede de poder viver num lugar que nos pudesse dar oportunidades de ver e participar em iniciativas culturais de qualidade. Somos muito jovens, mas já ultrapassamos a década de trabalho cultural. Em dez anos, muita coisa mudou e queremos acreditar que fomos responsáveis por algumas dessas mudanças a nível cultural na cidade e na região, talvez até que tenhamos conseguido fazer o país olhar um pouco cá para cima. A multimédia e a nossa capacidade de trabalhar de forma cuidada a comunicação foi importante desde o início. Em todos estes anos, este crescimento e essas metamorfoses basearam-se sobretudo na nossa necessidade de nos querermos sentir relevantes para a nossa comunidade. De procurar novas formas de poder colmatar uma necessidade, desafiar hábitos retrógrados ou derrubar muros que se levantam à frente dos nossos. Ao mesmo tempo, a nossa necessidade de ter mundo e dar mundo ao nosso lugar. De nos compararmos apenas com exemplos que nos inspiram no país e fora dele, mas que nos desafiam a querer ser melhores e fazer melhor. Sempre com os mesmos valores éticos com os quais começámos esta longa viagem. 

IA- Como é que percepcionam a vossa atividade no panorama cultural, em pleno Interior do País? 

INDIEROR- Alguém que já perdeu tudo, não tem mais nada a perder. Foi este o pensamento que nos moveu durante algum tempo na nossa génese. Éramos adolescentes e sentimos uma enorme revolta por sentirmos que vivíamos num lugar que pouco nos tinha a oferecer porque já lhe tinha sido retirado tudo. Ao mesmo tempo, sentíamos que tínhamos uma caixa de areia com a qual podíamos construir um bonito castelo. O facto de sermos invisíveis para o resto do país, deu- nos uma oportunidade de podermos experimentar, vivenciar e…errar. Errar muito sem que ninguém estivesse a ver. Acreditamos que, de cada adversidade, surge uma oportunidade e temos pautado o nosso caminho por tirar partido do que nos limita, para o tornar em algo reconhecível. A nossa actividade foi, sem dúvida, direcionada pelos muros que nos foram aparecendo pela frente e consequência do lugar em que vivemos, mas tornou-se também única por conta desses desvios forçados. Quando aparecemos, adjectivaram a nossa forma de trabalhar como “cultura de guerrilla”, pelo ímpeto e força que nos movia de forma quase irracional. Tínhamos (e temos) uma enorme paixão pelo que fazemos. Com o tempo e a maturidade essa atitude foi-se amenizando para meios mais diplomáticos, mas penso que essa força ainda salta cá para fora quando nos sentimos confrontados com atitudes ou medidas que nos encostam à parede enquanto minoria, vítima de desigualdades e isolamento pelo lugar onde vivemos. 

Aprendemos que, em lugares como o nosso, temos de saber jogar com as poucas oportunidades que nos são dadas, para poder levar em diante aquilo que ambicionamos. Sejam elas óbvias ou não. 

IA – Consideram-se jovens empreendedores e força motriz no acesso à cultura? 

INDIEROR- Não. Tentamos na verdade afastar-nos dessa nomenclatura de “empreendedores”, porque esse é um conceito que está ligado sobretudo a um contexto empresarial e de negócio. Sim, temos um cuidado quase obsessivo pela gestão de recursos, a transparência e o rigor nas nossas actividades, para que estas possam ser sustentáveis. E, desde cedo, desenvolvemos um modelo de sustentabilidade que em muito se assemelha a um modelo de negócio, para que não estejamos tão dependentes de apoios públicos e consigamos ter a nossa independência e autonomia. Também acreditamos que o público tem um lugar importante no apoio à cultura, através do seu consumo e participação. Mas isso não significa que olhemos para a cultura como se de um negócio se tratasse. Pelo contrário! Acreditamos que há projectos que devem ser levados para a frente, mesmo sabendo à partida que são para “perder” dinheiro. Assim como sabemos que, por vezes, temos de comprometer um pouco a nossa visão, pois há projetos mais viáveis que balançam financeiramente a “perda” de outros. Essa é a diferença entre fazer cultura e fazer entretenimento. Entre gerir uma empresa e uma associação cultural. Principalmente nos contextos em que programamos, com investimento municipal, temos a responsabilidade de pensar qual é a nossa obrigação enquanto programadores para com a comunidade, de forma responsável e não populista, em vez do que seria uma programação economicamente viável. É um equilíbrio difícil que, modéstia à parte, temos conseguido gerir de forma sustentável e com inovação. Talvez por isso nos tenham associado a esse conceito de empreendedores, mas estamos longe de o ser. 

IA- Através de vários projetos culturais interligados com a comunidade local, consideram- se de certa forma, ativistas?

INDIEROR-  Talvez, pela forma aguerrida com que defendemos o direito igual no acesso à cultura e tentamos mostrar que fazê-la no interior transmontano é de facto uma tarefa muito mais complicada. Mas penso que todas as atitudes, mesmo as mais passivas, de desafiar ou questionar algo por um objectivo comum, podem ser vistas como forma de activismo. Talvez nesse contexto a nossa actividade possa ser interpretada dessa forma. Acima de tudo sentimos uma responsabilidade em criar oportunidades que a nós sempre nos foram impossíveis ter. Grande parte dos nossos projetos incluem os jovens locais. Tentamos que estejam presentes e que exista uma capacitação para que aquilo que fazemos possa viver para além de nós. Potenciar uma comunidade que se sinta capaz de desenvolver novos projectos, evoluindo com eles e elevando os padrões. Criar públicos e massa crítica, para que nós próprios e as nossas ações possam ser questionadas e postas em causa. Talvez essa atitude para com esses objetivos possa ser vista como ativismo, sim. Não pensamos muito nisso. 

IA- Acham que o ativismo social passa também pela dinamização da cultura?

INDIEROR-  Poderia passar. A actividade cultural está intrinsecamente ligada às manifestações comunitárias de identidade, de comunicação e de partilha. Se houver cuidado em não abusar dessas manifestações ao serviço de ideologias (que podem ser uma utilização perigosa e que durante vários momentos da história isso aconteceu), penso que a cultura tem um enorme potencial e capacidade em nos fazer questionar e posicionar, não só enquanto indivíduos, mas enquanto comunidade. 

IA- O vosso trabalho, tem uma projeção nacional, mas também internacional. Como é que conseguiram? 

INDIEROR- Seria uma resposta muito boa se eu pudesse dizer que nunca a procurámos e foi consequência apenas do nosso trabalho, mas não seria verdade. Para a entender é necessário perceber de onde aparecemos. Fazíamos produções de teatro e alguns concertos, mas decidimos que queríamos ter uma programação musical regular no Auditório do Centro Cultural de Chaves. Começámos a bater às portas das agências de artistas – das maiores às mais pequenas –, e começaram a bater-nos com as portas na cara. Para começar, ninguém dava muita importância a uma associação local de miúdos sem grande capacidade económica em Trás-Os-Montes, e depois estávamos a ser olhados com desdém. Fosse pela distância e custos de produção associados, fosse pelo exagero e disparidades orçamentais que recebíamos em comparação a outros locais do país. Dava-nos a impressão que vir a Chaves era quase um frete, que só se iria fazer caso fosse bem pago. Ficámos muito revoltados e magoados pela forma como, de forma geral, o panorama português nos tratou. No meio de todo esse processo houve um caso muito positivo que se viria a tornar na primeira confirmação para o nosso auditório pela INDIEROR, que foi o Valter Lobo. Ninguém fazia a menor ideia quem era o Valter Lobo na altura, mas estávamos apaixonados pela sua música e humildade. Uma relação de amizade que se aprofundou e que viria a culminar no primeiro grande momento de projecção internacional para nós. Numa conversa nossa com o Valter e a Teresa (a sua mulher), partilhou-se a admiração por um músico irlandês chamado Glen Hansard. Vencedor de um Oscar, Tony’s, Emmy’s e um músico impressionante. Quase em jeito de brincadeira, falou-se na loucura de tentar chegar até ele e propor um concerto em Chaves e outro em Fafe. Era anedótico! Essa brincadeira ficou séria quando obtivemos uma resposta por parte da agência internacional do Glen, que se viria a tornar numa das maiores dores de cabeça da nossa vida profissional. Não fazíamos ideia no que nos tínhamos metido. Esteve muito perto de não se fechar o negócio, mas fechou-se. A verdade é que o Glen veio e houve conexão imediata. Ele entendeu de verdade quem éramos e o que fazíamos. Rejeitou concertos em Lisboa e no Porto e entrou numa missão de fazer com que a nossa voz fosse ouvida. De repente, as pessoas viram um músico como Glen Hansard fechar concertos em Chaves e Fafe, sem grande explicação e sem fazer grande sentido. Metemos o país todo a olhar para cima e a perguntar-se o que ali estaria a acontecer. O telefone começou a tocar e as caixas de email a encher. De um momento para o outro já todas as agências querem vir a Chaves. Era a nossa vez de nos fazermos um pouco difíceis. Percebemos rapidamente pela experiência com o Valter e o Glen que as pessoas procuravam mais do que um simples concerto. Procuravam entender novos contextos e poder fazer um contraste com o seu. Uma experiência que ia muito para lá da hora do espetáculo. Nunca tivemos medo ou vergonha de tentar chegar longe, a músicos que admiramos, e de lhes propor maneiras diferentes de abordar o seu trabalho. Definimos um conceito em que os músicos teriam de ficar uma semana em Chaves. Vivenciar o que somos enquanto gente, ir às escolas, tocar nas ruas, provar a nossa gastronomia e conhecer as pessoas. Depois disto conseguimos o britânico John Smith e a seguir Lisa Hannigan. Os músicos saem de Chaves apaixonados e a sentir que fica um pouco deles cá, e a nossa comunidade tem experiências incríveis com pessoas inspiradoras. A coisa cresceu de forma desenfreada. Chegámos a ter pessoas de 9 países diferentes a vir propositadamente a Chaves para ver concertos. O Glen levou-nos a todo o mundo e falou de nós a toda a gente. Quando a Lisa Hannigan nos conheceu contou-nos que estava no backstage de um festival em Londres em que se estava a falar de Chaves, ao que ela disse “Eu vou aí na próxima semana!”. Isto é inconcebível. E o mais inacreditável é que se conseguiu, de forma bonita, num contexto de partilha com as pessoas que nos rodeiam e não sob a alçada de um modelo de negócio clássico na indústria musical, que não inclui a participação da comunidade. Estávamos a pegar em contextos de entretenimento e a transformá-los em contextos culturais relevantes. Isto fez-nos chegar ao segundo grande momento de projecção internacional: quando o David Byrne nos elegeu como uma das “Razões para estar Feliz” com o mundo em 2018. De repente uma lenda viva em todo o mundo estava a fazer tweets e posts de facebook sobre “O lugar improvável em Portugal onde a música acontece”. Um artigo gigantesco em que se falava da cidade, das pessoas e da forma exemplar como se programava cultura com a comunidade. Estávamos emocionados com este tipo de discurso porque por vezes o trabalho mais relevante é o mais invisível e solitário. Seguiram-se manifestações bonitas depois de um ano que, para nós, tinha sido muito negativo. A visibilidade nacional acabou por ser consequência da visibilidade internacional. Neste momento já fizemos as pazes com grande parte do panorama nacional, mas estamos eternamente agradecidos ao que algumas pessoas fizeram por nós lá fora. 

IA – Na vossa opinião, qual a diferença de se desenvolver cultura no Interior do País em comparação com os grandes centros? 

INDIEROR- Não podemos dizer que é igual. Obviamente é diferente programar em Chaves, Fafe, Ílhavo, Guarda ou Mirandela do que é programar em Lisboa ou no Porto. No entanto, aprendemos a não fazer grandes comparações nesse sentido, até porque dentro dos grandes centros há uma grande disparidade nas classes artísticas, o que torna todo o processo também muito complicado. Fazer e trabalhar em cultura em Portugal é muito difícil, independentemente do lugar. 

IA- Querem partilhar com o Interior do Avesso, alguma história em particular? 

INDIEROR- Temos uma lista de histórias inacreditáveis para contar. Costumamos dizer que se amanhã terminasse tudo, nunca nos poderiam tirar o que já vivemos e as pessoas que já conhecemos. Temos a história de um dia em que, por insistência do Glen Hansard, estávamos na Irlanda. Ele tinha-nos convidado para jantar em sua casa e, sem sabermos muito bem como, vimo-nos metidos numa operação de salvamento de uma foca bebé, que tinha ficado presa nas rochas de uma ilha deserta à qual chegámos à boleia de um pescador. Chegámos atrasadíssimos ao jantar, mas pelo menos com uma boa história! Ou de quando o Glen desmontou uma mota que comprou em Chaves, a meteu na mala de viagem, passou no aeroporto e a voltou a montar já na Irlanda, tudo captado para um videoclip do seu novo álbum. Mas talvez as que mais nos tocam sejam as que têm uma mudança e impacto real nas pessoas. 

Como quando vemos actores, cantores ou bailarinos a quem demos palcos durante estes anos, a seguir a sua actividade profissional nesse caminho, uma vez chegados à idade adulta. Tivemos um projecto, que foi um verdadeiro enterro de recursos, chamado “Plano a’Salto”. Consistia em capacitar jovens, nas áreas dos audiovisuais, na zona raiana, com contextos e profissionais de ambos os lados da fronteira. Sentimos que foi dos projectos que teve mais impacto directo na vida das pessoas, apesar de não ter retorno absolutamente algum. Chegou ao fim e vimos o João Canijo, que era um dos realizadores convidados, a ter uma conversa com os pais de duas jovens e a convencê-los a deixá-las seguir cinema, ao invés de um “curso com mais saídas”. Elas acabaram por seguir esse caminho e, nem que fosse só por isso, já tinha valido a pena todo o trabalho e investimento. Estaríamos aqui dias e dias e não chegariam para contar todas as histórias bonitas! 

IA- Quais são os próximos passos da Associação e próximos eventos em agenda?

INDIEROR- Toda esta situação do vírus apanhou-nos um pouco desprevenidos. A nós e a todo o panorama cultural. Lançámos um manifesto para os próximos 10 anos em Janeiro, no qual nos comprometemos a estreitar ainda mais os laços com a nossa comunidade. Penso que esse compromisso se torna ainda mais relevante depois de toda esta luta colectiva que estamos a viver. Depois de todos os cancelamentos e limitações, talvez tenhamos de repensar um pouco a forma de o fazer. 

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