Foto por Pedro Ribeiro Simões | Flickr

Investigação revela mais de meia centena de artistas salvos do nazismo por Aristides de Sousa Mendes, que incluem nomes como Salvador Dalí e Robert Montgomery. “A Lista de Aristides de Sousa Mendes” será lançada em livro a 19 de julho na Casa do Passal, em Cabanas de Viriato.

Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus no ano de 1940, emitiu vistos a milhares de pessoas em fuga. Na totalidade, mais de meia 50 músicos, atores, escritores e jornalistas foram salvos do Holocausto pelo cônsul, revela a investigadora Ana Cristina Luz, no âmbito do trabalho de mestrado em Mediação Cultural e Literária, da Universidade do Minho.

“A Lista de Aristides de Sousa Mendes”, publicada em livro a lançar no dia 19 de julho, data do nascimento do cônsul, conta a história destes fugitivos que receberam um visto de Aristides para viajarem até Portugal, de onde partiram para países da América do Sul, para os Estados Estados Unidos da América e para o Canadá, e prosseguiram carreiras ligadas às artes e à cultura.

O pintor catalão Salvador Dalí e a mulher Gala, o ator norte-americano Robert Montgomery, o pianista polaco Witold Malcuzynski e a escritora francesa Tereska Torrès são alguns dos casos que constam da lista organizada pela investigadora. “Quis dar a conhecer as pessoas a quem Aristides de Sousa Mendes passou os vistos e que estivessem ligadas à cultura. Ele permitiu-lhes que continuassem as suas vidas e carreiras, interferiu positivamente na vida destas pessoas”, explicou em declarações à agência Lusa.

O livro “Um Homem Bom”, de 2009, de Rui Afonso, aponta alguns nomes, mas Ana Cristina Luz foi mais longe e “entre os cerca de 30 mil vistos que, calcula-se depois do cruzamento de diversas fontes, ele e as pessoas que com ele trabalhavam tenham passado”, descobriu “nomes incríveis”. O mais sonante é Salvador Dalí, mas “há muitos outros”. 

Alguns exemplos são Ivan Sors, que viveu na Figueira da Foz e inspirou o livro de Afonso Cruz “O pintor debaixo do lava-loiça”, porque ficou alojado em casa dos avôs do escritor e se escondia sempre que alguém batia à porta”. O poeta holandês Hendrik Marsman, que morreu na viagem de Portugal para Inglaterra, autor do melhor poema do século XX “segundo um grupo de críticos holandeses”. Naoum Aronsom, escultor de origem russa, autor de um baixo-relevo de Beethoven, que está no Conservatório de Lisboa, “um dos poucos que pôde fazer o busto de Rasputine, que posou para ele”. Ou ainda a mãe de Huey Lewis, da banda Huey Lewis and the News, que recebeu vistos juntamente com os pais, o que permitiu que viajasse para os Estados Unidos da América. Ana Cristina Luz sublinha ainda que a relevância destes artistas vai para além da sua obra, ao influenciaram outros.

 

Interesse da investigadora por Aristides de Sousa Mendes começou em Cabanas de Viriato

A investigadora de Leiria conta que o interesse pelo caso do cônsul de Portugal em Bordéus, que desobedeceu à ditadura de Oliveira Salazar, começou por volta do ano 2000, quando encontrou em Cabanas de Viriato, no concelho de Carregal do Sal, distrito de Viseu, a placa de agradecimento e a Casa do Passal, que pertenceu a Aristides de Sousa Mendes. “Desde logo fiquei apaixonada pela história”, disse à Lusa.

Desde então, tem participado em cerimónias evocativas e falado em escolas, a alunos, da obra humanista do cônsul. Em 2012 lançou mesmo um livro para o público infantojuvenil, “Aristides, O Semeador de Estrelas”.

Ana Cristina Luz lamenta que tenham sido precisos 14 anos, após o 25 de Abril, para “reconhecer o legado de Aristides de Sousa Mendes”. “Só 14 anos depois o nome dele foi levado à Assembleia da República, no sentido de ser reabilitado”. Em Portugal, diz, as homenagens “vêm sempre um pouco a reboque de homenagens feitas no estrangeiro ou por estrangeiros”.

Reconhece que ainda hoje há “vozes que tentam denegrir” a sua imagem, motivadas pelo  “poder da ditadura e do esquecimento” que “é muito forte” e, por isso, “o nome de Aristides de Sousa Mendes desapareceu do nosso dia a dia”, mesmo quando é “um facto inegável que Aristides de Sousa Mendes agiu de consciência na tentativa de salvar o máximo de pessoas possível”. “Não há na nossa história uma pessoa como ele. Há quem considere um dos maiores atos de salvamento levados a cabo por uma pessoa. Ele deveria ser um nosso orgulho maior!”, conclui a investigadora.

 

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