Foto por Joao Alves | Flickr

A Junta de Freguesia de São Martinho de Anta realizou uma obra na qual esculpiu o rosto de Miguel Torga na raiz de um negrilho, iniciativa que deixou descontente Clara Crabbé Rocha, filha do autor, que considera esta intervenção como uma “profanação duma bela raiz centenária”, considerando que quem tenta homenagear assim Miguel Torga “não leu a sua obra”.

A filha do autor refere à Voz de Trás os Montes que “a intervenção na raiz do negrilho é uma profanação duma bela raiz centenária, duma obra da natureza que deveria ser exposta tal como era, de forma sóbria, apenas protegida das intempéries por um vidro com o poema de Torga gravado”.

Esta foi uma iniciativa da Junta de Freguesia de São Martinho de Anta como forma de homenagem a Miguel Torga em dia de aniversário, mas que está a gerar muita contestação.

Clara Crabbé Rocha refere também que “como muitas centenas de pessoas que se têm manifestado publicamente, estou desolada com a intervenção que a Junta de São Martinho de Anta decidiu fazer na raiz do negrilho. Todos sabemos que a melhor maneira de homenagear um escritor é lê-lo e dá-lo a ler”.

Refere ainda que se considera triste por homenagearem o pai desta forma porque considera que quem o fez não pode ter lido a sua obra. 

A filha do escritor acrescentou que quem decidiu “homenagear Miguel Torga e assinalar o seu aniversário desta triste forma, não leu a sua obra. “Não pode ter lido. Se a tivesse lido, teria compreendido o sentido do poema ´A um negrilho´, que é a interlocução entre um poeta e outro poeta”.

Refere ainda que “o extraordinário é que vários de nós tentámos demover o presidente da junta quando nos pediu opinião. Nada feito. Deve estar feliz, porque teve o seu momento de glória nas notícias dos jornais. Mas não percebeu como expunha São Martinho de Anta ao ridículo”, considerando que a localidade do poeta deu-lhe uma “dimensão mítica dum centro do mundo”.

A filha do autor considera que “se Miguel Torga fosse vivo, indignado com este atentado ao bom senso e ao bom gosto, pediria que acabassem de vez com esta triste história e que plantassem no largo um negrilho novo para as gerações futuras, o que ele próprio tentou fazer em vida”.

Recorda que a sua obra foi traduzida em 20 línguas e que a sua terra natal “tem o privilégio de ter um Espaço Miguel Torga, obra da autoria dum Prémio Pritzker de Arquitetura (Souto Moura), que recebe anualmente milhares de visitantes”.

Em declarações à Lusa o Presidente da Junta de São Martinho de Anta refere que a raiz estava a apodrecer e que por isso foi necessária uma ação rápida, referindo ainda que não quer alimentar polémicas relativamente a esta questão.

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