A autarquia de Santa Comba Dão prepara a inauguração de um museu dedicado a Salazar e ao Estado Novo para outubro, depois de anos de polémica que passaram pelos Tribunais e pela condenação da sua criação por parte da Assembleia da República.

Vários historiadores, entre eles Fernando Rosas, historiador especialista em Estado Novo, reagiram a este projeto demonstrando receio que o Vimieiro, localidade onde se irá situar este museu, se possa transformar num destino turístico tal como Predappio, a pequena localidade italiana onde nasceu e está sepultado o ditador Benito Mussolini. Em declarações ao Expresso, também Irene Pimentel diz que para se entender Portugal é importante entender o salazarismo, mas que o desafio reside na necessidade de uma correta contextualização histórica, “o problema é quem o faz e como é feito”.

Segundo declarações dadas pelo presidente da autarquia, Leonel Gouveia, ao semanário Expresso, “o meu antecessor trabalhou muito mal este projeto, tendo causado muita celeuma, a favor e contra o Centro Interpretativo. Mas este será um local para o estudo da História do Estado Novo. Não um santuário destinado a nacionalistas nem um museu onde se vai diabolizar o estadista de Santa Comba Dão”.

Apesar destas declarações, o Centro Interpretativo do Estado Novo, como se vai chamar o museu, continua a gerar polémica, da qual resulta o comunicado da Comissão Coordenadora Distrital de Viseu do Bloco de Esquerda, que abaixo se transcreve.

(Escrito por MFS)

COMUNICADO

O Bloco de Esquerda não compactua com a reprodução legitimadora do fascismo sob a justificação reducionista de um apressado “interesse histórico”. O que está em causa com o projeto de um “Centro Interpretativo do Estado Novo” sediado em Santa Comba Dão não é a tentativa de responder a uma qualquer lacuna no interesse historiográfico ou museológico, mas a uma relegitimação da história do fascismo, a uma normalização da ditadura e do seu ditador no contexto da história de Portugal em quase metade do século vinte. Não se trata por parte do executivo camarário de Santa Comba Dão – e como poderíamos ingenuamente pensar – de uma resposta a um branqueamento da história, mas a um branqueamento de um combate político que permanecerá sempre atual para a democracia e para os democratas enquanto o imaginário fascista se insinuar por vias torpes e até aparentemente bem-intencionadas. E esse branqueamento do regime ditatorial já está bem presente no discurso do presidente da câmara Leonel Gouveia quando acredita poder situar-se numa posição politicamente neutra ao recusar tanto a ideia de que o Centro possa transformar-se “num santuário destinado a nacionalistas” quanto “num museu onde se vai diabolizar o estadista de Santa Comba Dão”. O fascismo não se relativiza.

O retorno da nostalgia da “boa ordem fascista”, do “bom ditador”, do homem das “contas certas”, concretiza-se das maneiras mais flagrantes às mais aparentemente inócuas e “democráticas”. Como bem nos alerta Fernando Rosas o risco da construção de um “Centro” desta dimensão é transformá-lo num local de turismo para os nostálgicos do fascismo, transformando-o numa “romagem dos saudosos do fascismo”. Banalizar princípios republicanos pela promessa de dinamização da economia local apenas revela um ativo comprometimento com uma visão neoliberal das dinâmicas sociais.

A memória histórica de uma comunidade, de um povo, é feita sempre de escolhas igualmente coletivas não só sobre a narrativa que queremos perpetuar, como sobre o próprio devir histórico em que nos queremos inscrever e queremos ajudar a preservar e continuar – a tarefa democrática é sempre uma tarefa igualmente histórica. Associar a construção deste Centro a uma “Rota das Figuras Históricas” é tanto uma empreitada ingénua quanto perigosa – como se o “caldeirão da história” tudo justificasse e redimisse. A história da democracia nunca pode deixar de ser a contra-história, a negação em ato, de toda a tentativa de naturalização do fascismo – ainda que por um falacioso “amor à história”. A consciência histórica do salazarismo deve estar bem presente nos nossos espíritos cívicos não para o revivermos em formato de museu ou de centro de “estudos”, mas para o derrubarmos histórica, crítica, cívica e politicamente.

O fascismo vive de revivalismos adornados de boas intenções, a democracia constrói-se no tempo desconstruindo as narrativas que contrariam o seu espírito livre e igualitário. Só isso, e nesse “só” se concentra toda a elevação democrática, deve ser exigido a qualquer representante político e a qualquer instituição pública do nosso regime.

Pel’A Comissão Coordenadora Distrital de Viseu do Bloco de Esquerda

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