Maria do Carmo Bica. Foto publicada na sua página no Facebook.

Engenheira agrícola, ativista e dirigente associativa desde sempre ligada ao desenvolvimento rural da região de Lafões, Carmo Bica foi também autarca e dirigente do Bloco de Esquerda. Por Esquerda.net

Após meses de uma batalha contra o cancro, faleceu esta segunda-feira aos 57 anos Maria do Carmo Bica, uma das vozes que mais se bateram ao longo das últimas décadas pelo combate ao abandono do interior e a organização associativa em torno do desenvolvimento rural na região de Lafões. Conhecida pela sua combatividade, mas também por uma inesgotável energia e capacidade de trabalho, Carmo Bica deixa-nos um legado importante nas lutas ambientais e sociais numa parte do país que ao longo das décadas foi votada ao abandono.

Natural de Paços de Vilharigues, no concelho de Vouzela, Maria do Carmo Bica fez o ensino básico e secundário em Vouzela e São Pedro do Sul. Seguiu para a Escola Superior Agrária de Coimbra, completando os estudos superiores com uma pós-graduação na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Deu aulas a partir de 1986 e no início da década de 1990 começou a sua carreira como técnica superior no Ministério da Agricultura. Atualmente desenvolvia a sua atividade na Rede Rural Nacional, uma plataforma da Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural para promover a participação e o trabalho conjunto entre os agentes de desenvolvimento rural em Portugal.

O percurso associativo de Carmo Bica levou-a a dirigir durante 18 anos a Associação de Desenvolvimento Rural de Lafões e a presidir à Cooperativa 3 Serras de Lafões, em Vouzela. Foi também dirigente da Confederação Nacional de Agricultura enquanto representante da Associação Regional de Agricultores de Viseu, a qual fundou e foi primeira presidente. Foi ainda dirigente da ANIMAR – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local. A par desta atividade associativa, Carmo Bica dirigia atualmente o jornal Gazeta da Beira, dedicado à região de Lafões.

O ativismo em defesa do mundo rural cruzou-se na vida de Carmo Bica com o da defesa dos direitos das mulheres agricultoras e rurais. Em março deste ano, num artigo escrito para um livro editado pela associação UMAR, da qual fez parte, reconhecia que “está tudo por fazer” para promover a efetiva igualdade de género nos meios rurais: “É urgente criar um Estatuto das Mulheres Agricultoras, à semelhança do que já existe noutros países, que inclua medidas que possam contribuir para alterar as condições de vida das mulheres agricultoras, nomeadamente, alterar as condições de acesso à Segurança Social, através da criação de um regime específico e adequado à realidade concreta da pequena agricultura familiar; preferência nos direitos às ajudas directas da PAC, no caso de divórcio e partilha da exploração; medidas de descriminação positiva em candidatura de projectos a fundos comunitários; acesso a um programa de formação adaptado às suas necessidades; incentivos à constituição de organizações de mulheres agricultoras”, defendia nesse artigo.

A atividade política de Carmo Bica passou pela militância comunista nos anos 1980 e 1990, passando pela UEC e pela direção da JCP. Foi deputada municipal em Vouzela entre 1989 e 1993 e candidata às legislativas de 1991 e 1995, protagonizando depois a candidatura do PCP à autarquia de Vouzela em 1997.

Numa entrevista dada em 2013 ao Arquivo Digital Binaural Nodar, a propósito da sua candidatura à autarquia de São Pedro do Sul encabeçando a lista do Bloco de Esquerda, fala da sua infância e da força que então tinha o preconceito contra as ideias de esquerda na região. “Desde cedo percebi que tinha de ter uma atitude na vida completamente irrepreensível. Para viver aqui e ser respeitada afirmando-me como comunista eu tinha de ser boa aluna, vestir de uma forma discreta, ter uma atitude na vida de forma a que ninguém me pudesse apontar nada. Cresci com esta mentalidade e sempre senti que as minhas ideias eram marginais. Mas cresci convencida de que estava no caminho certo: a defesa de uma sociedade mais justa com igualdade de oportunidades para todos e que isso era absolutamente fundamental para a minha região”.

A aproximação ao Bloco de Esquerda surge com o convite de Miguel Portas para integrar a lista às eleições europeias de 2004, na qual o Bloco elegeu o primeiro eurodeputado. Carmo Bica integrou depois vários órgãos concelhios e distritais do partido, em Viseu e Lisboa, onde foi eleita autarca na freguesia de Campolide no atual mandato. Fez também parte da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda a partir de 2014 e das listas às últimas legislativas pelo círculo de Lisboa. E participou nas correntes internas bloquistas, primeiro no grupo “Manifesto” e agora na “Convergência”.

Na última década, Carmo Bica dinamizou o Grupo de Trabalho de Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento Rural do Bloco de Esquerda e coordenou o Grupo de Trabalho de Agricultura do Partido da Esquerda Europeia. No âmbito do Parlamento Europeu, participou ativamente nas atividades do intergrupo dos Bens Comuns e coordenou vários encontros sobre economia social e terceiro setor promovidos pelo GUE-NGL. E destacou-se também no movimento social pelo encerramento da central nuclear de Almaraz.

No esquerda.net, assinou uma coluna de opinião onde tratava de temas ligados à agricultura, soberania alimentar e políticas para o interior, feminismo e direitos das mulheres.

O esquerda.net, e o Bloco de Esquerda endereçam as mais sentidas condolências à sua família e amigos. Assim como o Interior do Avesso.

 

Publicado em Esquerda.net a 18 de agosto de 2020.

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