Foto de Coolabora

A exposição “Metade do Mundo” organizada em 2016 pela cooperativa de intervenção social CooLabora está outra vez disponível ao público. Desta vez pode ser vista no Museu de Lanifícios na Covilhã, até dia 17 de novembro.

“Metade do Mundo” é um manifesto pelos direitos das mulheres e da igualdade tanto na esfera pública como na esfera privada. No dia em que se assinala o Dia da Igualdade Salarial, o Interior do Avesso entrevista Rosa Carreira, uma das fundadoras da CooLabora.

Como surge esta exposição “Metade do Mundo”?

É o resultado de um projeto que tivemos que se chamava “Género coletivo”. Este projeto pretendia precisamente incentivar a participação das mulheres na vida pública. Então a exposição veio nesse sentido e desde então está disponível online e de vez em quando volta à “rua”, quando nos solicitam ou quando nós próprias achamos pertinente.

Quem são estas 11 mulheres retratadas?

Estas mulheres são pessoas que participavam no projeto. Algumas delas participaram numa iniciativa que desenvolvemos na altura que era uma formação sobre mulheres e política, portanto eram formandas do curso. Outras delas participavam nuns ciclos que fazíamos em que o objetivo era discutir a participação das mulheres e usar metodologias participativas. Fizemos (estes ciclos) principalmente em coletividades, destacando o papel que muitas vezes as mulheres têm, mas que se formos a ver, são sempre os homens que aparecem como presidentes, não é? Quando começámos a trabalhar com estes grupos, que são muito dinâmicos em geral, vemos que há um conjunto muito elevado de mulheres a trabalhar e a dar bom nome às associações.

Algumas delas eram pessoas muito informadas sobre o que é isto da desigualdade, outras nunca tinham pensado muito nisso e começaram a perceber com o projeto que havia bastantes injustiças. Portanto são mulheres com diversas origens, tanto profissionais como sociais.

E continuam em contacto?

A maior parte delas sim, algumas continuam a participar em eventos da CooLabora.

Uma delas, uma senhora que já tem 80 anos, a D. Fernanda, diz que nunca tinha pensado muito nessas coisas, que sempre foi uma mulher muito ativa e dinâmica, mas a igualdade de género para ela era uma coisa que não fazia parte das suas preocupações. Desde então participa em tudo o que a CooLabora organiza. Inclusivamente até na feira “Troca-a-Tod@s” que é uma feira que organizamos, para mulheres com recursos mais limitados muitas vezes fazerem ali algum dinheiro, que acaba por ser uma almofada financeira.

É um leque muito variado de mulheres, este, que participou na exposição.

As questões de género são um tema muito trabalhado pela Coolabora. Isso acontece desde a vossa fundação, em 2008? Ou foi ganhando peso ao longo do tempo?

Quando criámos a Coolabora éramos 5 mulheres. Claro que um dos eixos de intervenção que nós achámos que seria forte, desde sempre, era a igualdade de género e ele tem crescido, de facto, pela notoriedade que as atividades que temos nesta área vão ganhando. Isto porque há um investimento, mas também, achamos nós, porque há um interesse da opinião pública nesta temática. Por causa das notícias que vão surgindo.

Antes de criar a Coolabora nós já estávamos a trabalhar nesta área, da intervenção social, e já trabalhávamos há alguns anos estas questões, da igualdade de género, da violência de género, e, portanto, foi uma questão de continuarmos, mas com uma nova estratégia e uma nova organização por trás.

Qual a área geográfica de intervenção da Coolabora?

A nossa área de intervenção é a região de Castelo Branco, mas temos feito, porque também nos convidam muito, sessões e atividades em parceria com entidades de todo o país.

Os nossos projetos, aqueles que a Coolabora promove,  são até mais da Cova da Beira, Covilhã, Belmonte e Fundão. Depois temos parcerias com entidades de Lisboa, Coimbra, e inclusivamente de parceiros transnacionais.

Hoje que se assinala o Dia da Igualdade Salarial, têm noção do que é que mudou desde que esta exposição foi inaugurada em 2016?

Por acaso pelo que nos vamos apercebendo, tem havido melhorias nalgumas áreas, noutras nem tanto. Ainda há pouco estava a ver um relatório de um organismo internacional que saiu agora e que diz precisamente que Portugal, dentro da União Europeia, foi um dos países que subiu mais em termos de indicadores rumo à igualdade de género no trabalho. Portanto sabemos que há áreas que estão a avançar positivamente, mas há outras, por exemplo a conciliação entre a vida familiar e profissional, que continuam a ser uma dificuldade muito grande e continuam a colocar entraves muito grandes (na vida das mulheres).

Qual é a vossa perspetiva em relação às diferenças entre a vida das mulheres do Interior e nos grandes centros urbanos?

Tenho de falar pessoalmente. Porque a Coolabora não tem essa perceção, é uma perceção muito pessoal, neste caso. A mim, o que me parece é que há uma diferença maior, não tanto entre o Interior e o Litoral, mas mais se calhar, no mundo rural e no mundo urbano. Penso que em cidades como a Covilhã, Fundão, Castelo Branco, e Lisboa não haverá uma grande diferença nas percentagens de homens que participam nas tarefas domésticas ou de mulheres que trabalham fora de casa. Já as pessoas que têm uma perspetiva mais tradicional do que é o papel do homem e da mulher, acredito que sim.

Agora, também é verdade que a população mais envelhecida está no Interior, e poderá haver nas cidades do Interior uma proporção maior de pessoas que ainda não têm uma divisão de tarefas tão equitativa, porque precisamente são mais velhas, têm uma maneira de ver estas questões há maneira do “antigamente”. Mas eu veria mais a diferença por faixas etárias e por regiões rurais e urbanas.

Voltando ao título da vossa exposição, porque será que “Metade do Mundo” é ainda vista e tratada como uma minoria?

Costumamos dizer que a discriminação de género é a maior discriminação do Mundo porque afeta mais de metade da população mundial, não é?  Mas porque é que isso acontece… os homens foram adquirindo ao longo da História, um poder que lhes serviu, e agora teimam em não largar. Por outro lado, não são apenas os homens os responsáveis, as mulheres também foram educadas de uma forma machista. Educadas a achar que os homens são superiores, a achar que os homens têm mais direitos, nomeadamente sobre elas, e esta educação que acontece ao longo de séculos demora a desenraizar-se, demora a sair da cabeça das pessoas. Isto foram séculos e séculos de machismo, e nós estamos a trabalhar há “pouco” tempo.

No global, penso que caminhamos para essa igualdade. Agora… vamos encontrando muitos obstáculos pela frente, alguns que já conhecemos porque têm séculos, outros novos. Mas claro que nós, todas as pessoas e organizações que estão envolvidas no trabalho para a igualdade de género, com certeza saberão derrubar estes obstáculos, os novos e os velhos, para chegarmos à igualdade plena, de direitos e oportunidades.

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Nasce em 1978 em Lisboa. Passa a adolescência em Tomar e segue para Vila Real onde se forma em Engª Agrícola e onde vive desde 1997. Ativa no movimento associativo desde sempre, pertence neste momento às Mães d’Água - Movimento pelo regresso do Parto na Água ao SNS e ao núcleo da Rede 8M de Vila Real. Mulher, Mãe e Ativista.

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