Foto por Vitor Oliveira | Flickr

Na segunda vaga da pandemia de covid-19, Aguiar da Beira, no distrito da Guarda, foi o concelho do país com maior percentagem de população infetada. O pior já passou, mas os 600 casos e quase 50 mortes em mês e meio deixaram marcas.

Quase dois meses depois do Natal e com a epidemia, finalmente, a desacelerar, o balanço mostra que a subida de casos foi transversal mas com um significativo impacto no interior. Uma reportagem de Marta F. Reis para o Jornal I detalha como são agora as vidas das pessoas de Aguiar da Beira.

Os casos ativos neste momento em Aguiar da Beira são cerca de 30. Os relatórios da autarquia contabilizaram, desde dia 1 de janeiro, 609 novos casos e 46 mortes, o que, para uma população de 5400 habitantes, significa 12% de infetados. Números que contrastam com os de 2020: 191 casos acumulados, a maioria já no mês de dezembro. 

Segundo a informação disponibilizada pela DGS, Aguiar da Beira foi o concelho com maior percentagem de população infetada nesta terceira vaga. Ao contrário do que se verificou na primeira, o interior não foi poupado, com Castelo de Vide, distrito de Portalegre, a aparecer em segundo lugar com 10% da população infetada em janeiro, seguido de Penedono (distrito de Viseu) e Cuba (distrito de Beja), perto dos 10%.

Elvira Paquete, dona de uma ervanária, agora que a situação está mais calma, sublinha, na reportagem do I que, no meio da tempestade, a população soube ajudar-se, sendo esta uma vantagem de um meio pequeno. “Até a carteira levou algumas vezes medicamentos ou chás a quem precisava”, contou.

António Silva, de 76 anos, natural e residente da vila de Aguiar da Beira, conta como as consultas em Viseu já foram adiadas duas vezes. “Já foram adiadas duas vezes, uma vez porque eles pediram, outra porque nós não quisemos ir. Há muita gente que não vai ao médico com medo, isso é verdade, mas, de resto, aqui vemos que há uma grande cooperação entre as pessoas e vamos passando os dias”.

O texto de Marta F. Reis descreve como as ruas estão vazias e existem poucos sítios abertos, apenas se mantêm o minimercado, a farmácia e a ervanária. “O problema sentiu-se mais nos lares e mais fora da vila”, disse António Silva, recordando que sempre se disse que já na pneumónica, em 1918, alguns lugares de Aguiar tinham sido mais afetados. “Ali na Quinta da Estrada dizia-se que em alguns sítios foram famílias inteiras, as casas ficaram vazias. Foi na altura até que se fez um cemitério novo”.

No tal lugar da Quinta da Estrada, conheceu-se o caso de Fátima e do marido, que ficaram infetados e com sintomas que os levaram a ter que vender os animais, agora têm a vida meio em suspenso. “Tínhamos animais, mas não conseguimos cuidar deles. O meu marido ainda lá foi abrir-lhes a porta, mas não tinha força. Não havia ninguém para cuidar delas, acabámos por vender as 14 ovelhas a metade do preço. E agora que estamos melhor já não temos animais”.

Restou apenas o cão que segue Fátima, mesmo assim feliz por os pais terem sido poupados ao vírus, num lugar onde a covid-19 bateu à porta de quase todas as casas habitadas, muitas são de quem está emigrado. A igreja foi-se iluminando ao longo destas semanas para o último adeus a mais alguém da terra. “Agora nem vem o padre nem nada”, conta Alice da janela na aldeia da Quinta da Estrada, onde morreram só nesta semana quatro pessoas.

 

Radiografias Concelhias: Aguiar da Beira

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