Foto por Patrícia Portela, diretora artística do Teatro Viriato, em Viseu. Foto de Mariana Carneiro.

Patrícia Portela assumiu a direção artística do Teatro Viriato, em Viseu, em março de 2020, no despoletar da crise pandémica. Em dezembro, falou com o Esquerda.net sobre “o que é criar, ter liberdade nesta época de restrições”. Por Mariana Carneiro para o Esquerda.net.

Vim para Viseu em criança e estive cá até 1997/98, exatamente no início do Teatro Viriato. Quando vinha cá, sempre de corrida, apercebia-me que este Teatro tinha alterado profundamente a dinâmica cultural da cidade. Pergunto-te se tem sido assim ao longo do tempo e se, ainda hoje, continua a ser “um oásis no deserto”.

Não. Ou seja, não é um oásis no deserto, o que quer dizer que cumpriu muito bem a sua função. Há imensos grupos de teatro, de música, de dança… Há imensa atividade cultural. Aliás, este verão foi incrível. Eu mudei-me para Viseu agora. A minha relação com esta cidade existia através do Teatro Viriato(link is external). Era uma “estrangeira”, uma cidadã do mundo. Estive 18 anos a viver na Bélgica e a trabalhar aqui em Portugal. E, na qualidade de “estrangeira”, sublinho que o Teatro Viriato já não é um oásis em Viseu porque se faz muita coisa aqui e à volta. Mas continua a ser uma referência pela qualidade, pela diversidade.

E ainda é um oásis no país. Creio que é importante realçá-lo, porque, às vezes, não existe essa noção. É um teatro independente. É certo que o termo independente é discutível, porque nunca somos independentes de coisa nenhuma. Mas somos um híbrido, o que me parece muito importante e muito saudável. Existe uma associação sem fins lucrativos, que é uma entidade independente, constituída por um grupo de cidadãos que se organizaram para tornar este projeto possível. Por outro lado, o Teatro tem um enorme apoio camarário, não só financeiro mas a nível do próprio edifício, que foi cedido para este projeto. O Teatro Viriato tem ainda o apoio da Direção-Geral das Artes. Portanto, reúne apoio estatal, apoio camarário, apoio independente, apoio de mecenato. Vive também da sua bilheteira e do seu público. É um objeto muito raro no país, com uma direção artística independente, que faz a sua programação. Ser um artista a dirigir um teatro com todas estas componentes, que trabalham todas com o objetivo de oferecer esta programação, é algo muito único.

E, para quem faz teatro, dança e música em Portugal, o Teatro Viriato é uma referência, é um sítio de passagem obrigatória. Nos últimos anos, como artista, muitas vezes eu não passava pela casa de partida (Lisboa) e começava em Viseu. Aliás, a minha primeira itinerância de sempre primeiro foi no estrangeiro, e depois em Viseu. E não sou um exemplo raro. O mesmo aconteceu com muita gente. O meu teatro mais regular ao longo destes últimos 20 anos também foi o Teatro Viriato. Esta casa aposta muito no risco, na experimentação, nos novos valores, nas criações emergentes, em novas linguagens.

 

O facto de já não ser um oásis em Viseu também tem a ver com o papel que este Teatro tem assumido na formação de jovens atores e na sua fixação no interior?

Dou-te um exemplo: Muitos dos projetos que nasceram aqui, realizados por artistas que deram os primeiros passos no projecto PANOS. Fomos parceiros desse projeto de novas dramaturgias, da Culturgest, na altura coordenado por Francisco Frazão. Muitos dos artistas que se formaram aqui eram espectadores regulares do Viriato. As histórias são sempre assim, começaram na frente de casa, fizeram um estágio de produção ou ajudaram a construir um projeto. Vinte anos mais tarde são gerações que estão aqui a trabalhar. Alguns já foram para fora e depois voltaram para Viseu.

O objetivo é cada vez mais criar muito aqui, produzir muito aqui, mas ter criações de qualidade internacional. Ou seja, deixar um pouco esta ideia de que é um sítio que serve de passagem para coisas que se criam noutro lado. A verdade é que, ao fim de 20 anos, o Teatro Viriato assumiu-se como um promotor de facto, de novas criações, de novos valores. E isso tem um impacto direto na cidade.

 

Como é que foi “aterrar aqui de paraquedas” em março e assumir a direção artística do Teatro Viriato em contexto pandémico?

Foi mesmo de paraquedas [risos]. Aliás, foi sem paraquedas, foi em queda livre. Vim cá parar por convite da anterior direção. Na altura achei que era uma proposta tão absurda que recusei. Vou ser muito sincera, não estava nos meus planos. Eu quero escrever, fazer peças, pendurar-me numa árvore, fazer jardinagem, estudar… o que for. Nunca tinha pensado em ser diretora de um teatro. Por isso, resisti à ideia. Mas há uma coisa que eu acho muito bonita nesta profissão. Como artista, eu reporto a mim própria. E ao mundo, claro. Não sou da arte pela arte, acho que a arte tem de estar engajada com o mundo, tem de responder ao mundo, e o mundo tem de responder de volta. Tem de ser um eco. Acho que a arte é mesmo uma espécie de escritor fantasma do próprio mundo. Dá voz àquilo que não tem voz nas instituições, não tem voz na política, não tem voz nos serviços médicos, nos órgãos oficiais… Essa voz que não tem voz tem de ter voz pela arte. Senão não faz sentido. Mas, apesar de tudo, eu reporto a mim. Reporto àquilo que são as minhas ansiedades, sempre na esperança de que, se tenho estas ansiedades, haverá mais mil ou dois mil que pensam igual.

Num sítio como este, num teatro, tem-se uma responsabilidade enorme. É-se responsável pela escolha de quem tem voz. Para além das vozes que cada um cria, temos a responsabilidade de escolher e de dar a mostrar. Temos toda uma máquina montada que permite que estas obras cheguem a outra cidade, a outro país, a outra população e permite comunicar com alguém que não reconhece os nossos objetivos. E aí é onde se dá a arte. A arte é um erro no cérebro. Costumo dizer que é um “Skoda mal passado”. Tinha um professor que dizia isso: “Arte é entrar num stand de automóveis e dizer ‘eu queria um Skoda mal passado’. E o vendedor tem de pensar duas vezes para perceber o que é que a pessoa quer”. Isso só acontece quando falamos com alguém que é diferente de nós. Com alguém que não tem as mesmas referências. É preciso sair da zona de conforto, do nosso lugar de criação. E, nesta história toda, eu sou esse pião.

 

Isso é estar pendurada numa grande árvore… [risos]

No fundo é. Costumo dizer que um diretor de uma casa como esta é uma espécie de detetor de sintonias. É uma alcoviteira artística, no fundo. Vejo isto mais enquanto uma missão como cidadã. É uma função que presto à sociedade civil. Uma contribuição útil para a sociedade, para o pensamento, para as roldanas. Eu estou na máquina. Não me posso esquecer disso, porque é muito confortável não estar na máquina.

Os artistas têm de ter liberdade. E eu prezo muito essa liberdade. É muito engraçado ver este papel ao contrário. Estou sempre a saltar de um lado para o outro: de Olívia costureira para a Olívia patroa. O diretor artístico tem de ter noção de que essa liberdade tem de existir. Mas, para todos os efeitos, conduz essa liberdade para um público ou para um determinado objetivo, ou para uma determinada sociedade.

Dou-te dois exemplos que acho muito bonitos. O Valter Hugo Mãe foi apanhado no meio de uma pandemia sem saber se ia criar ou não. Agora isto parece tudo normal, mas há seis meses ninguém sabia o que ia acontecer. Ele tinha de estrear aqui, a abrir a temporada. Mas não sabia se devia estrear ou não. No meio desta incerteza, o diretor artístico tem a função, pelo menos foi o que me aconteceu, de dizer “tu não sabes, eu também não sei. Mas podemos dar aquilo que sabemos que temos: temos um espaço, temos orçamento, temos condições… O pior que pode acontecer é a peça não estrear ou não estar acabada. Mas então também fazemos um acordo. Temos um compromisso com o público, mostramos o que for possível. Mas comunicamos, se é uma peça acabada ou não é…”. Acho que foi esta conversa que me transformou numa diretora artística. Esta conversa, em que no fundo defendíamos que não era preciso estrear, foi o que permitiu que a estreia acontecesse.

As instituições funcionam muitas vezes com folhas de excel, há números, há datas. Podemos adiar uma peça de um ano para o outro. Mas estamos a comer vida. Estamos a cumprir o calendário da programação, mas não estamos a viver a programação. Aquilo que o artista é agora. O teatro pode estar meio aberto ou com meio público mas o artista não deixa de existir, não deixa de respirar até ao próximo ano. Há aqui um lado muito mecânico, do homem máquina, que é uma herança que temos do século XIX. Lembro-me sempre do livro do Paul Lafarge, “O Direito à preguiça”. Arranjámos máquinas para produzirem mais e nós, em vez de ficarmos com tempo livre, não, ficámos a competir com as máquinas. Esta ideia do homem máquina desumaniza a criação artística de uma forma brutal. Aquilo que o artista criar este ano não vai ser o mesmo que irá criar para o ano. Quero preservar este momento. Isso é uma coisa que sempre foi muito clara para mim. Quero estar com os artistas que se atrevem a criar neste momento. Com o perigo enorme de nos espatifarmos todos, porque há projetos que não fazem sentido nenhum. Mas tentámos e estamos a reagir ao tempo. Estamos a dar voz a um tempo que não tem voz. A função de um diretor é ouvir, detetar. Não tem a ver com o cálculo do sucesso garantido, tem a ver com convicção. O teatro é uma casa do presente. Da arte efémera feita no tempo presente. E no tempo presente temos uma série de restrições. Então o que é criar, ter liberdade nesta época de restrições? É avassalador. É dez mil vezes mais impressionante assistir a um espetáculo neste momento. É tudo incrível.

O outro exemplo que queria dar, completamente diferente, é o Aurora Negra.

 

Vi o espetáculo aqui, no Teatro Viriato…

Quatro mulheres maravilhosas no palco a dizerem “Esta casa é nossa!”. Sinto que me estreei aí. Ao ver a casa cheia e saber que foi a primeira vez que elas atuaram num teatro. Não foi numa blackbox. Não foi num sítio alternativo, numa garagem. A garagem já é nossa há muito tempo. Vivemos sempre na garagem. Ter alguém numa casa com veludos, com dourados, com palco tabuado a dizer “Esta casa é nossa!” diz muito. Já sabíamos que a saúde é algo muito frágil, mas agora levámos com um estalo na cara.

Está na hora de a casa não ser só de uns. O discurso já é de inclusão, mas na realidade não é inclusivo. Quando estamos em 2020 e é a primeira vez que aparece uma peça em que todas as mulheres são negras, há que pensar. E elas estreiam em salas alternativas mesmo dentro dos grandes espaços, tanto no Teatro Nacional como n’O espaço do tempo, dois excelentes parceiros. Depois chegam a Viseu e têm o palco principal, sala cheia, pessoas de pé a aplaudir. Isto só pode acontecer no Teatro Viriato. Tu estavas cá, assististe…

 

Sim, estava na fila da frente e foi, de facto, impressionante…

Foi mesmo emocionante. E quando a Nádia vem ao palco e diz “A casa é nossa!” e faz o gesto de incluir público e elas… Isto é o futuro! A denúncia ainda é necessária, mas a arte está sempre na luta seguinte. Temos de estar todos nisto.

 

Herdar”, por assim dizer, um projeto como o Teatro Viriato deve ser um grande desafio…

Eu vim para continuar um projeto, o que é um luxo. Ofereceram-me um bolo incrível, já com uma cereja em cima, tudo ótimo, com uma equipa fabulosa. E agora tenho de equilibrar com o mindinho e não posso deixá-lo cair. Por um lado, é um presente maravilhoso, por outro lado, é de uma responsabilidade enorme.

Agora, é claro que venho com o meu mundo e, inevitavelmente, o meu mundo entra por aqui a fazer corrente de ar. E o mundo de cá também faz corrente de ar comigo. Isto é mútuo. Abrimos as portas e circula ar, o que é ótimo. E o meu objetivo, que decorre muito da minha experiência, é pensar à escala planetária. Não só a nível das preocupações, climáticas, financeiras, de sanidade mental e física, do ser humano. Temos de olhar o todo e pensar qual é a função de um teatro num momento como este.

Se vim para aqui para continuar um projeto e para aprender, o que aprendi foi a gerir o caos e a imprevisibilidade. Ainda que nós, artistas independentes, estejamos habituados a fazê-lo, sempre trabalhámos sem nada e sem rede. Tive também de aprender a trabalhar com uma equipa e a delegar. Ouvi muito, li muito. O programador é um leitor ávido. Quando eu vinha como artista fazia a minha peça, conhecia o meu público e ia-me embora. Fiz coproduções aqui, mas era algo muito esporádico, não posso dizer que conhecia bem a cidade. Era uma relação mais hermética. Agora estou a conhecer um lugar que não conhecia, mas em contexto de pandemia. Há um lado que permite que as relações sejam mais profundas e mais densas. Vivemos este ano juntos. As relações que saem daqui também são mais fortes. Pelos espetáculos que se adiaram, pelos que se voltaram a fazer, pelos que se refizeram. Este lado muito orgânico e muito vivo que muitas vezes podemos demorar muito tempo a conhecer, este ano foi em tempo recorde, foi aceleradíssimo. Quando as pessoas falam de suspensão, de tempo de pausa… não faço ideia o que isso é.

O meu objetivo, o nosso, é estar sempre em diálogo. É manter um diálogo permanente com o que está fora, o que está dentro, com o que está aqui, com o que está do outro lado da rua, o que é nacional, o que é local, o que é internacional… E que esse diálogo não seja só numa direção, que seja mútuo e que alimente toda uma dinâmica em que há projetos que só acontecem aqui, há projetos que só acontecem fora, há projetos que nascem aqui e depois vão acontecer noutro sítio, há projetos que acontecem noutro sítio mas vêm cá para nós aprendermos com eles. Essa ideia de diálogo, parceria e colaboração é fundamental.

 

Já existe uma grande simbiose entre o Teatro e a cidade.

Esta é uma cidade que está muito próxima dos seus artistas e esta casa é muito adorada pelo seu público e pela cidade. Sento-me em qualquer sítio e toda a gente tem uma história com o Teatro Viriato. O Teatro é da cidade. E, ainda assim, sentimos que há novos públicos, há novas energias, novas possibilidades. É isto que um teatro deve ser. É uma casa onde nos encontramos todos, vindos de não sei de onde. Com coisas em comum para partilhar mas também com coisas que nunca tínhamos visto antes. Por vezes incómodas.

Por exemplo, o GABO, que está agora aqui em cena, é um espetáculo importantíssimo que também acarinhámos. E que eu acho que tem de deixar de ser projeto e passar a ser condição sine qua non em todos os teatros: incluir a diferença em palco. E não é uma questão de fazermos uma peça, por exemplo, só com pessoas com deficiência motora. Não, é algo transversal a tudo, com artistas de vários sítios e todos juntos. É uma peça muito bonita porque não fala sobre o assunto, é o assunto. E esse é outro projeto que é extremamente comovente. Ver os miúdos a entrar na sala e a receber algo que há dez anos atrás era um problema. E que ainda é um problema em muitos casos. Ao incluir a diferença a arte está a naturalizá-la.

 

A covid-19 já invadiu o dia a dia do Teatro Viriato? Foi naturalizada?

Ainda não tive nenhum espetáculo aqui sobre a covid-19, mas ela está lá. Há várias maneiras de reformular um espetáculo: reformular para que fique exatamente como queríamos mas de acordo com as regras; reformular para fazer outra coisa, porque vamos tirando cenas que não são possíveis; ou aceitar que estamos neste momento, não estamos noutro. E esta ideia de não-negação é muito o espaço da arte. A arte não nega. Quando a arte começa a negar entra numa coisa panfletária ou numa agenda que não é a da arte. A arte também não aceita. A arte luta, através dos seus meios, ou por um espaço, por uma coisa ou por existir. A arte sempre levou a política mais a sério do que a política. A arte sempre levou mais a sério a vida do que a vida.

Sou muito a favor desta sinceridade, desta transparência sobre aquilo que queremos defender seja num palco, num livro, num filme, num concerto… E lembro-me sempre de uma história muito bonita, de Daniil Kharms, que morreu na Sibéria em 1928. Ele é uma espécie de absurdista avant la lettre, mas que, na verdade, não é absurdista, porque quando fala de pessoas que desapareciam não é absurdo. Simplesmente, era tão literal, era tão evidente, que se tornava quase obsceno. “Esta é a história de uma mulher ruiva. Quer dizer, é uma mulher ruiva mas ela não tinha cabelo. E também não tinha olhos. E também não tinha pernas. E também não tinha boca. E não tinha nariz. E não tinha barriga. E não tinha nada. Por isso não sei porque é que estamos a falar sobre ela”. A história é só isto. São dez linhas. O que é que é importante aqui? Para além de ser absurdo e de nos fazer rir, esta mulher existe porque nós falámos nela. É o que a arte faz, além de pedir “Skodas mal passados”. Nós nomeámo-la e a mulher ruiva passou a existir. Não tem nada, mas ela existe. E a arte é isso.

O Teatro é também um lugar de geografia. Eu não me posso mexer agora. Estou em Viseu e não posso sair daqui. Mas a programação internacional tem de continuar, dentro do possível. Quero continuar a ver o Japão e a Tailândia aqui. Quero continuar a ver a América Latina aqui. Caso contrário, a geografia deixa de existir. A grande ferida deste ano é perceber que o ser humano só se desenvolve porque se desloca. Porque caminha, porque encontra outras coisas. O teatro tem a função de continuar a permitir a deslocação, a trazer a geografia e o mundo todo.

 

Que novos desafios tem o Teatro Viriato pela frente? Que novas portas deve abrir ou, pelo menos, que caminhos deve aprofundar?

Acho que tem de aprofundar tudo. Ou seja, um projeto que tem 20 anos, como qualquer projeto nessa situação, tem de se renovar. Por muito que funcione muito bem. E o grande desafio é aceitar a mudança. Costumamos dizer que em equipa vencedora não se mexe. Nós mexemos numa equipa vencedora, para todos os efeitos.

 

Pois. É mais difícil mudar quando não tens aquele motivo óbvio de não estar a funcionar.

Exato. Por outro lado, aceitar essa mudança é aceitar que o novo sempre vem. Em Portugal temos dificuldade em fazê-lo. Há muito a tendência para considerar que é tudo vitalício. E é muito saudável renovar. Dou imensa importância a introduzir a possibilidade através do impossível. Não é agir por capricho, é agir por convicção. E não nos ficarmos por fazer bem dentro à luz dos cânones daquele momento. Porque se o fizermos, não vamos evoluir. E o ser humano tem de evoluir, até nesta situação.

Temos de atrair mais público, ter público diferente, comunicar ainda mais com a cidade e com outros, temos de produzir ainda mais aqui. E penso que devemos ter produções mais híbridas. Os teatros ainda são sítios muito sérios, que impõem respeito. Onde se vai em dias especiais. Por muito que esta seja uma casa de todos, que é, e que já exista muito diálogo, é muito importante termos mais coragem para fazer coisas que não conhecemos.

Eu devia errar mais para poder crescer. Mas, ao mesmo tempo, isso pode pôr em causa aquilo que já funciona bem. Este equilíbrio entre a tentativa-erro, que é fundamental para avançarmos, e manter o que já existe e não desiludir ou desanimar a equipa, que é excelente, é mesmo um grande desafio. É pegar numa coisa que está muito bem e que queremos que esteja ainda melhor. O desafio é não cristalizar sem estragar. O Emil Cioran tem uma frase sobre a Rússia que ultimamente me vem muito à cabeça. “Quando temos o suficiente, porque não pedir mais?”. A curiosidade é o combustível para tudo. E nós termos a coragem de nos atirarmos para o escuro quando já somos enormes e ótimos é um equilíbrio que não é fácil mas que tem de ser feito. Eu só posso contribuir para este projeto se me arriscar a espatifar-me. Tenho de trazer também um pouco do que sou, em vez de unicamente aprender muito bem a lição. Tenho de ter o respeito suficiente para aprender e poder funcionar com uma coisa que já funciona bem. Por outro lado, tenho de a desarrumar. Isto é um casal, no fundo. É como um namoro. Há aqui uma aceitação da diferença. Há cedência de ambas as partes.

 

Abraçaste um grande projeto…

Há momentos na vida em que nos apercebemos que estamos a mudar. E há momentos que sabemos que não vamos esquecer. Este é um deles. Há dias em que saio daqui a achar que o mundo é horrível e outros a achar que sou a maior. E há dias que começam comigo a achar que sou a maior e a acabar comigo a achar que sou horrível. Mas tenho a sensação, quase diária, com tudo incluído, que nunca vou esquecer aquilo que estou a viver. Porque estou a fazer tudo com toda a convicção. E esta coisa da convicção é algo que me tem fascinado. Se perdermos a convicção, não sabemos para onde vamos. Arrastar uma pessoa sem convicção para qualquer projeto é a coisa mais horrível. E acho que este mundo, como ele está, veio desafiar todas as convicções.

Outro grande desafio concreto do Teatro, e que todos nós temos pela frente prende-se com a questão climática. Isto é um formato de grande consumo. Um teatro é uma máquina que gasta muito. É uma coisa industrial, apesar de tudo. Até que ponto é que podemos estar a discutir a crise do clima e fazer uma conferência que envolve não sei quantas garrafas de plástico? Com esta questão climática temos de ter a coragem de questionar quão menos temos de fazer. Quanto é que eu tenho de mudar e admitir que não posso fazer, ou que tenho de fazer menos. Como é que eu posso fazer teatro de uma forma que seja mais em conluio com a natureza? Não podemos fingir que não se está a passar nada. Não podemos ignorar a crise climática. O desafio é saber como é que continuamos a inventar sem contribuir para esta “idade do lixo”.

 

Já têm programação para 2021?

Para o ano todo. Toda a programação que estava já apalavrada, mantivemos. Não é o momento para estar a tomar grandes contra-decisões artísticas. A arte nos momentos de guerra, de conflito ou de catástrofe tem de estar do lado da sociedade. Tem de pensar o mundo, não pode pensar em si própria. Isso é uma das questões. Depois temos imensas parcerias que têm sido adaptadas. Há uma grande conversa e um grande diálogo com os artistas. E acho que teremos grandes peças criadas já nestas condições. E esticando sempre ao máximo a linha do que é possível, obviamente. Mas há sempre soluções. Isto é um espaço muito protegido. Há muitas regras, sim, mas temos o espaço do palco, que será sempre um espaço de possibilidade, e as companhias conhecem-se.

 

E têm existido constrangimentos financeiros, ou outros, que condicionem a atividade do teatro?

Somos um teatro que não vive só de subsídios, dependemos também da bilheteira. O teatro tem estado cheio, mas tendo em conta as restrições impostas pela pandemia. Ou seja, apenas com metade da plateia. Optámos por não cobrar bilhetes a escolas. Não é o momento de o fazer.

A nível geral, a pandemia veio destacar a precariedade a que estão sujeitos os artistas, que trabalham em várias peças ao mesmo tempo. Se um ator fica doente, são logo quatro ou cinco peças que não saem. E falamos de pessoas que correm riscos na sua profissão, que lidam com pessoas novas todos os dias.

 

Achas que tem havido espaço para pensar coletivamente? Fala-se muito de diálogo com o setor.

Não. Não há espaço para pensar. Tudo mudou menos os prazos. Por exemplo, estamos agora a fazer uma coisa que eu acho que é impossível. Estamos a trabalhar com imensa flexibilidade mantendo os prazos. Os prazos dos programas que têm de ser impressos, os prazos das programações que têm de ser entregues, os prazos dos orçamentos… Somos ultra flexíveis na constante mudança do objeto final, da criação, mas depois não somos flexíveis nas datas e nos orçamentos. Continuamos com o mesmo orçamento mas com muito mais despesas, com condicionantes completamente diferentes. Tudo demora o dobro do tempo. Estamos todos muito cansados. Nota-se uma enorme fadiga em toda a gente, sobretudo mental. Não estamos a pensar bem. E antes de discutirmos muito temos de ter tempo para pensar. Não há tempo para pensar. Não há tempo para o silêncio. Isso assusta-me muito. É uma máquina que tem de se manter. Mas podia não ser assim.

Ao mesmo tempo, somos muito zangados com o que se passa no nosso país e não olhamos para o lado. Nós estamos abertos. Na Bélgica está tudo fechado, não há teatro e não há perspetiva de os teatros abrirem. Na Alemanha não há perspetiva de os teatros abrirem. O que se passa no Brasil é execrável. O que se passa nos Estados Unidos é execrável. Por isso, às vezes penso que nós podemos também abraçar o facto de estarmos num sítio privilegiado. Podemos ser críticos, mas não tem de ser tudo mau e tudo bom.

Penso que existe espaço de diálogo se houver espaço para o erro. Se não existir unicamente um apontar de dedos de ambos os lados. Era precisa alguma coragem para pensar. Pensamos pouco. Não nos pagam para pensar. Estás sempre a fazer. Há sempre prazos a cumprir, critérios a cumprir para teres apoios… Eu tinha um professor de Cenografia, o Casimiro, que dizia que nós tínhamos dado cabo do tempo. E é verdade. Deixámos de ter tempo.

 

Mas ainda és uma otimista no que diz respeito ao papel do teatro e da criação [risos]

Sou totalmente otimista. Mas isso, lá está, tem a ver com a convicção. E tem a ver com a forma como escolhemos viver a vida.

 

Publicado em Esquerda.net a 23 de janeiro de 2021

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